Revista Brasileira de Psicoteratia

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Vol 15 N° 3  2013

 

Editorial
1 -  A Revista Brasileira de Psicoterapia em um mundo em transformação
Marina Gastaud; Claudio Eizirik; Camila Piva da Costa; Daniela Valle Krieger; Diogo Machado; Mariana Torres; Pricilla Braga Laskoski; Stefania Pigatto Teche; Rafael Stella Wellausen
Páginas: 1 - 4

Descritores:

Artigos Originais
2 -  As lógicas da toxicomania e a condição do sujeito
Carolina Neumann de Barros Falcão Dockhorn; Mônica Medeiros Kother Macedo; Renata Freitas Ribas
Páginas: 5 - 17

Resumo

Sabe-se que o uso de drogas é uma prática que esteve presente em toda a história da humanidade. Contudo, o abuso de drogas é um marco social dos tempos atuais, crescente na sociedade contemporânea e que torna alarmantes os indicadores de produção e consumo de substâncias psicoativas. Do ponto de vista da Psicanálise, o uso problemático de drogas demanda um olhar para o sujeito implicado nesse padecimento. Logo, visando justificar a importante contribuição da Psicanálise em sua inserção no campo do uso abusivo de drogas, ressalta-se a necessidade de outra compreensão que não aquela a partir da qual o tratamento psicoterapêutico tem como objetivo o rápido alcance do estado de abstinência e a sua manutenção. Este artigo aborda, a partir da proposição da denominada operação de phármakon, as lógicas do investimento do sujeito no objeto droga, considerando a heterogeneidade presente na toxicomania. Assim referenda-se a afirmativa de não ser o tóxico a droga, mas, sim, a tentativa de estabelecer uma relação de exclusividade com a droga, isto é, a sua função da substância na vida psíquica do sujeito. A partir da narrativa clínica de dois jovens toxicômanos abordam-se as duas lógicas de funcionamento do tóxico na vida psíquica do sujeito: a de Suplência e a de Suplemento. Por meio de contribuições da Psicanálise é problematizada a especificidade do posicionamento subjetivo na toxicomania.

Descritores: Toxicomania; Psicanálise; Drogas.

3 -  É possível conhecer o modelo de mente implícito em nosso trabalho clínico?
Eneida Iankilevich
Páginas: 18 - 27

Resumo

INTRODUÇÃO: Nossas convicções teóricas e técnicas influenciarão, estejamos conscientes disso ou não, nosso parecer sobre a pessoa que busca nosso atendimento. Sendo assim, estarmos atentos às possibilidades, mas também aos limites inevitavelmente impostos pela posição a partir da qual pensamos nossos pacientes, pode contribuir para uma aproximação mais abrangente de seu sofrimento. Essa constatação levou a autora a pensar em como conhecer ou conhecer melhor o modelo de mente, o paradigma a partir do qual escutamos os pacientes.
OBJETIVOS: Conhecer o modelo de mente com que nos aproximamos dos pacientes em nosso meio. A autora acredita que, conhecendo melhor nosso paradigma estruturante, estaremos mais alertas para possíveis erros em nossa escuta.
MATERIAL E MÉTODO: Foi encaminhada a 28 psiquiatras uma questão, via e-mail: "qual é sua concepção de mente em psiquiatria?".
RESULTADO/CONCLUSÕES: Na maioria dos textos dos colegas, de qualquer formação e momento do desenvolvimento profissional, há referência à necessidade de escutar o paciente e atendê-lo buscando aliviar seu sofrimento, levando em conta a complexidade do encontro com esse ser humano que nos busca. Evidencia-se uma concordância quanto à centralidade da questão mente/cérebro na aproximação do tema. Nas respostas verifica-se o predomínio de uma noção de modelo "plural", "complexo", "múltiplo", "da relação mente/cérebro", "não excludente". Encontram-se divergências e invariâncias nos posicionamentos dos sujeitos. As invariâncias dizem respeito à interação, multiplicidade, desenvolvimento, incompletude como inevitáveis em nossa prática e teorizações a partir desta.

Descritores: Teoria da mente; Psicoterapia; Ética.

4 -  Mercedes no Divã: da comédia ao uso didático na formação de psicoterapeutas
Tales Vilela Santeiro; Glaucia Mitsuko Ataka da Rocha; Leylane Franco Leal Barboza
Páginas: 28 - 41

Resumo

Alguns filmes comerciais são utilizados como recurso didático em cursos de graduação em Psicologia por serem mediadores artísticos que facilitam processos de ensino-aprendizagem. Este trabalho tem o objetivo de fazer aproximações entre o filme Divã, dirigido por Alvarenga Jr. e lançado em 2009, e a psicoterapia de enfoque psicanalítico. O filme é considerado ilustrativo de aspectos teórico-práticos envolvidos num processo psicoterapêutico de mulher adulta com experiências conflituosas em relação a si mesma, ao outro e aos seus projetos profissionais. Mercedes, a protagonista, encena conflitos reais, presentes nas relações conjugais, nas amizades, nas relações entre mães e filhos, na vida e na morte e aos quais todos nós, seres humanos, estamos suscetíveis. Seguindo a terapia ficcional de Mercedes foi possível analisar metaforicamente como se dá um processo analítico de pacientes reais, as distintas fases que o compõem e alguns dos movimentos psíquicos usualmente inerentes a ele, como a evolução no uso de mecanismos de defesa do ego, dos mais imaturos em direção aos mais amadurecidos.

Descritores: Cinema como Assunto; Psicologia Clínica; Psicoterapia; Psicanálise.

5 -  Que segredos guardam seus olhos: a questão do olhar em Freud
Cibele Denise Weide Acosta
Páginas: 42 - 52

Resumo

Vários são os olhares sobre um determinado fato. O presente trabalho é um olhar possível sobre o filme "O Segredo dos Seus Olhos", do cineasta argentino Juan José Campanela. A partir da leitura de textos clássicos de Freud são abordados temas como estruturas psíquicas, mecanismos de defesa, formação de sintomas, cena primária, trauma e tratamento. A descrição dos personagens e cenas do filme permite que se ilustrem, associem e referenciem conceitos básicos de Psicodinâmica de alguma maneira relacionados ao olhar. Dessa forma, é possível acompanhar o personagem central na busca da resolução de seu conflito, uma equação pessoal que envolve o temido e o amado.

Descritores: Cinema; Teoria Freudiana; Mecanismos de Defesa.

Artigo de Revisão
6 -  Objetivos terapêuticos para psicanálise e psicoterapia psicanalítica: Freud, Klein, Bion, Winnicott, Kohut
Carolina Stopinski Padoan; Marina Bento Gastaud; Cláudio Laks Eizirik
Páginas: 53 - 70

Resumo

A concepção ontológica da psicanálise envolve tanto uma forma de compreender os fenômenos humanos e sociais quanto uma abordagem terapêutica. Para aqueles clínicos que percebem a prática psicanalítica como um tratamento, parece importante revisar quais os objetivos terapêuticos do método psicanalítico e os fatores a serem considerados ao analisar a efetividade desse tipo de intervenção. Para tanto, os autores revisam as contribuições de cinco escolas do movimento psicanalítico, as de Freud, Klein, Bion, Winnicott e Kohut. Como a maior parte da literatura disponível refere-se à psicanálise, justifica-se a importação de alguns de seus postulados à psicoterapia psicanalítica e à discussão de especificidades da última. A noção de ética aplicada ao trabalho do psicoterapeuta/analista aparece como princípio norteador na prática psicoterapêutica e dá coesão às distintas abordagens teóricas.

Descritores: Psicoterapia; Psicanálise; Cura Mental; Terapia Psicanalítica.

Relato de Caso
7 -  Atendimento em psicoterapia dinâmica breve: relato de caso
Simone Salviano Alves
Páginas: 71 - 80

Resumo

Neste trabalho, é apresentado um caso de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) de início tardio, encaminhado para atendimento na área de psicoterapia dinâmica breve (PDB). O trabalho com o paciente se centrou nos aspectos relacionados ao evento estressor e às dificuldades acarretadas por ele, buscando minimizar os prejuízos do paciente e ajudá-lo a alcançar objetivos determinados. A análise deste caso veio a corroborar que pacientes com TEPT de início tardio também podem ser beneficiados com a PDB.

Descritores: Transtornos de Estresse Pós-Traumático; Psicoterapia Breve; Psicoterapia.

Editorial Seção Temática
8 -  A história do paciente em psicoterapia de orientação analítica
Ana Paula Mezacaza Filippon; Renato Piltcher
Páginas: 81 - 82

Descritores:

Artigos Especiais
9 -  Tempo, memória e ressignificação
Zelig Libermann
Páginas: 83 - 90

Resumo

Em psicanálise, a noção de que o tempo não é um a priori do ser humano, mas algo a ser construído, tem origem na obra de Freud. A representação do tempo está ligada ao sistema percepção-consciência, mas não se aplica ao sistema inconsciente: a teoria sobre o aparelho psíquico comporta uma temporalidade heterogênea, descrita por Green como tempo fragmentado. À diferença do que se poderia considerar em um primeiro momento, isto é, que nosso "baú" da memória se formaria apenas pela "deposição" de acontecimentos que seriam registrados subsequentemente e conforme cada época da vida, Freud propôs que um mesmo registro pode sofrer diferentes transcrições à medida que as lógicas do desenvolvimento se sucedem. Em outras palavras, a capacidade de ressignificação possibilita ao ser humano libertar-se do destino exclusivo da repetição. Esse modelo se aproxima de um conceito dialético de causalidade e de uma temporalidade em espiral, na qual futuro e passado condicionam e significam um ao outro na estruturação do presente. Essa concepção transformadora do aparelho psíquico é o que sustenta a possibilidade da ação específica da prática baseada na teoria psicanalítica: se não existisse essa retroatividade, não seria possível modificar nossa história e, dessa forma, o tratamento não teria futuro.

Descritores: Tempo fragmentado; Memória; Ressignificação; Lembranças encobridoras.

10 -  A história na avaliação - como eu colho a história
Lizete Pessini Pezzi
Páginas: 91 - 98

Descritores:

11 -  A história "fática"
Eneida Iankilevich
Páginas: 99 - 108

Resumo

O que o paciente conta é a versão do fato vivenciado que lhe é acessível, a resultante da complexa vivência de um acontecimento e das emoções desencadeadas por essa vivência, inevitavelmente tecidas de acordo com as características de personalidade do paciente, sua história pessoal e o momento em que o fato é contado. A partir dessa concepção, a autora procura refletir sobre a difícil questão da realidade ("fática") na história do indivíduo e na prática da clínica psicanalítica e psicoterápica de orientação psicanalítica. A autora buscou publicações da produção local sobre o tema. Os conceitos relativos à "história" são examinados à luz de noções do historiador Ignacio Lewkowicz. A autora utiliza algumas situações de sua prática clínica como eixos organizadores de seu pensamento. O que é estudado aqui não são aspectos específicos de cada paciente, mas acontecimentos do campo psicoterápico que permitem pensar a questão do objetivo/subjetivo em tratamentos psicodinâmicos. Aspecto essencial do "fato" em psicoterapia de orientação analítica e em psicanálise diz respeito ao que acontece no encontro, no campo, na relação paciente/terapeuta. Do entretecer e articular dos "fatos" vai sendo construída a história do indivíduo. O tratamento psicodinamicamente orientado visa a ampliar a capacidade do indivíduo de perceber suas limitações em relação a essas possibilidades infinitas de articulações que o tornam um ser único, com uma história própria. É nesse encontro terapêutico que as versões imobilizadoras, resultantes de versões únicas, excludentes, podem ser reconhecidas e questionadas. O trabalho psicodinâmico pode se constituir em um segundo momento, compartilhado, que age sobre as versões impeditivas, abrindo possibilidades de pensar de outra maneira os "fatos" antes inquestionáveis para, com isso, construir a possibilidade de acontecer história onde acontecia repetição.

Descritores: Psicoterapia psicanalítica; Psicanálise; História; Fato.