ISSN 1516-8530
ISSN 2318-0404

Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2011; 13(1):11-26



Artigos Originais

Reflexões teórico-clínicas a respeito do sentimento de vazio, ilustradas através de um conto de Allan Poe

Theoretical-clinical reflections on the feeling of emptiness, exemplified through a story by Allan Poe

Kátia Jung1

Resumo

O presente trabalho tem por objetivo abordar alguns aspectos teórico-clínicos relativos à psicopatologia da clínica do vazio, através de autores como Freud, Green e Rosenfeld. A partir de uma reflexão, tece um paralelo entre o funcionamento emocional dos casos limites, considerando os movimentos de relações de objeto de seu mundo interno/externo e a dinâmica das relações dos personagens do conto de Edgar Allan Poe, "A queda do solar de Usher". Para tanto, a autora busca, através de metáforas clínicas, estabelecer aproximações, identificando semelhanças no plano simbólico.

Descritores: clínica do vazio; metapsicologia dos limites; estados confusionais; indiferenciação eu-não-eu; psicologia do self.

Abstract

This study aims at addressing some theoretical-clinical aspects related to the psychopathology of the clinic of the void through authors as Freud, Green, and Rosenfield. From a reflection, a parallel is traced between emotional functioning of limit cases, considering the movements of object relations of its internal/external of the relationships between the characters of the story The Fall of the House of Usher, by Edgar Allan Poe. For such, the author seeks through clinical metaphors, to establish approximations, identifying similarities in the symbolic plane.

Keywords: clinic of the void; metapsychology of the limits; confusional states; I-non-I indifferenciation; self psychology

 

 

Antes de partir para o tema deste trabalho, acredito que valha a pena determo-nos em alguns aspectos de denominações que são usadas e estão diretamente relacionadas ao nosso objeto de estudo: sentimento de vazio e casos-limites.

As denominações "Patologias do Vazio" e "Patologias Atuais" são expressões que vêm alcançando um status quase popular, e com isso quero dizer que transcendem o meio psicanalítico. Por essa razão, acho fundamental chegar a um denominador comum que possa dar conta dessa terminologia e possibilite maior clareza e entendimento a respeito do que pretendo tratar.

Para isso, achei interessante trazer, mesmo que sinteticamente, algumas ideias do trabalho de Sebastián Plut8, no qual o autor faz uma revisão epistemológica a respeito do conceito de "Patologias Atuais".

Nesse trabalho, o autor alerta para as diferentes compreensões que a terminologia "Patologias Atuais" possibilita. Por exemplo:

  • Em certas ocasiões pode referir-se a novas formas de padecer psíquico;
  • Em outras, pode referir-se a quadros psicopatológicos que, atualmente, teriam maior incidência no conjunto de pacientes;
  • Pode referir-se a quadros psicopatológicos derivados das condições socioculturais atuais;
  • Pode referir-se a identificação de quadros psicopatológicos a partir de novos desenvolvimentos teóricos;


  • Esses enfoques, como se pode perceber, não são excludentes e deixam livre a ênfase ou a forma de organizá-los hierarquicamente, seja em uma escala quanto ao seu valor patógeno, seja em relação a sua importância teórica e, até mesmo, quanto à sua importância no momento atual.

    Aqui, para nosso entendimento, vou partir do pressuposto de que a expressão "Patologias Atuais" não supõe necessariamente "novas patologias". Por essa razão, propondo substituir "novas formas de padecer psíquico", como assinalou Plut8, por "novas formas de compreensão do padecer psíquico" e, a partir daí, me valer para essa reflexão de conhecimentos teóricos de autores clássicos, como também de autores mais atuais.

    Parto do princípio de que os sentimentos de vazio, os estados de vazio emocional, as experiências de vazio interno estão contidas na ampla nosologia das chamadas "Patologias Atuais", ou seja, são vivências próprias de patologi-as como narcisismo, borderline ou casos-limites, neossexualidades, depressões, bulimias, anorexias e adições. Em outras palavras, o vazio emocional vai ser considerado aqui, para o nosso propósito, não como apanágio e monopólio de um tipo específico de patologia, mas como a expressão de sofrimento psíquico do que Kristeva5 trata como "Novas doenças da alma".

    A noção de vazio implica espaço, territorialidade, limite, ponto de vista tópico. Pensando assim, Green4 lembra que Freud, ao lançar suas bases teóricas, partiu do ponto de vista tópico, mas relacionando-o diretamente aos pontos de vista dinâmico e econômico. E assim o fez pela simples razão de que, sem eles, não teria como introduzir a ideia de movimento, deslocamento, trocas de energia na construção de seu aparelho psíquico que, como sabemos, é por princípio pulsional. Todavia, em nosso caso, estamos buscando entender o avesso disso, o espaço vazio, vazio mental, ausência, estagnação, confusão. Sendo assim, podemos compartilhar com Green4 a seguinte pergunta: é possível seguir o modelo que Freud desenvolveu para entender as neuroses e chegar ao nosso objetivo?

    Green4, nos ajuda a achar a resposta, pois, em 1986, quando esteve no Brasil e proferiu a conferência intitulada "Conceituações e limites", declarou que vinha estudando Freud há 35 anos e que só agora tinha compreendido algumas de suas idéias à luz de uma leitura sua, que ele considerou moderna e esclarecedora e que deu origem a uma nova interpretação de alguns conceitos. Dessa nova interpretação, selecionei o que ele chamou de "Metapsicologia dos Limites", por considerá-la não só moderna e esclarecedora, como ele mesmo afirmou, mas útil e inovadora para orientar nossa compreensão teórico-clínica das chamadas patologias atuais, casoslimites que convivem, particularmente, com sentimentos de vazio interno. Green4 declara que, através dessa nova leitura, compreendeu que "... o modelo clínico das neuroses, tal como foi apresentado por Freud, não dava conta da questão clínica dos casos-limites" (p 12).

    Roussillon10, em trabalho atual, faz uma análise da evolução da teoria freudiana, utilizando como ponto de referência a virada dos anos de 1920. Ele parte do modelo psicanalítico - do que ele entende como a primeira metapsicologia (1907-1913) - em que o conflito girava em torno da tomada de consciência dos conteúdos psíquicos, ou seja, das representações de desejos recalcados. O autor assinala que, nessa etapa da construção da teoria, ou seja, na primeira tópica, o objetivo terapêutico do trabalho psicanalítico visava reduzir o hiato existente entre inconsciente e pré-consciente, possibilitando uma ligação secundária entre as representações-coisa e as representações-palavra.

    Todavia, na reformulação de 1920, Freud postula uma mudança significativa que prega uma distinção metapsicológica entre o id e o ego. Esse entendimento fez parte da construção da teoria estrutural e implicou também uma mudança no objetivo terapêutico do trabalho psicanalítico.

    Considerando que, no momento em que Freud postula que o id não é de natureza representativa, o trabalho a ser feito transcende a tomada de consciência ou, quem sabe, a substitui. A necessidade do trabalho psicanalítico passa, então, a ser da ordem de transformação psíquica, de subjetivação e de apropriação egóica. Segundo Roussillon10, "... a oposição não passa mais simplesmente entre os processos secundários e os processos primários: é no seio dos processos primários, eles mesmos, que a questão da ligação se põe...É necessário então distinguir aquilo que, no seio das processos primários, recebeu um modelo de ligação, daquilo que, ainda no seio dos processos primários, não é ligado, portanto não é representado, portanto não é subjetivado..."3.

    Green4, em sua tese sobre a metapsicologia dos limites, defende a ideia de que "... se os conceitos da psicanálise não eram adequados para teorizar essas estruturas clínicas (casos-limites, borderline), isso se devia, talvez, à necessidade de considerar o próprio limite como um conceito" (p. 12-13). A partir daí, resolveu reconsiderar toda a metapsicologia sob o ângulo do limite e desenvolveu um novo modelo de compreensão dos casos-limites ou borderline, que pretendo abordar a seguir.

    Ele lembra que a questão do limite pode ser identificada não só na teoria freudiana como também em conceitos de autores mais contemporâneos, como, por exemplo, Winnicott (holding, espaço transicional), em Bion (continente/contido), todavia assinala que Bion parece não ter salientado, em sua noção de "continente", um aspecto que Green considera imprescindível para compreender o seu conceito de casos-limites ou estrutura-limite, qual seja, o fato de que "... 'o conteúdo' do 'continente' vai, ele próprio, ter diversos continentes, isto é, vão existir no interior de uma unidade globalizante, subgrupos..." (p. 20). Green4, com isso, através da idéia de núcleos na mente, assinala que, na estrutura-limite, esses núcleos funcionam como facções que lutam constantemente e indiscriminadamente em busca de domínio, de predomínio de forças de uma sobre as outras.

    Ele descreve os casos-limites ou a estrutura-limite como uma espécie de estrutura geral indeterminada, onde núcleos psicopáticos, perversos, toxicomaníacos, depressivos, delirantes travam, no interior do "continente", uma verdadeira luta pelo poder em busca de apropriarem-se da totalidade da estrutura psíquica, dessa forma coibindo o desenvolvimento de processos integrativos, unificadores e geradores de significado. Essa indeterminação/ indiferenciação dos limites dos mais variados territórios, internos e externos, alimentam lutos intermináveis que em meio a angústias de separação, de intrusão, angústias catastróficas ou impensáveis, sentimento de futilidade, de desvitalização, de vazio mental, se mantêm sob a égide da pulsão de morte, para muito além do princípio do prazer.

    Green4, chama a atenção para o fato de que essa indeterminação promove a desorganização no interior do aparelho psíquico, atinge os limites dentro do ego, os limites do ego em relação ao objeto e promove uma permeabilidade excessiva entre os limites do ego, do id e do superego. Nesse panorama caótico, os limites não discriminam, não diferenciam. Os territórios são "terras de ninguém", "terras sem dono" sem nome, sem significado, espaços vazios de sentido próprio.

    Nesse momento, podemos estabelecer um contraponto entre saúde e adoecimento, utilizando o conceito de Winnicott11 de espaço transicional. Segundo ele, o limite não é uma linha, ele próprio é um território, território onde se efetuam trocas, transformações. Green4 complementa dizendo que, quando há uma divisão entre dois espaços, discriminados entre si e com propriedades contrárias, cria-se um terceiro espaço na junção dos dois. E vai além, estende a noção de Winnicott de espaço transicional para além das relações interno/externo, descrevendo no interior do aparelho psíquico áreas de transição. Para Green4, a constituição de um terceiro espaço se dá através de uma formação de compromisso - de um acordo resultante da divisão dos dois espaços anteriormente descriminados - que combina as características de ambos, criando uma terceira estrutura com características diferentes de cada um dos espaços anteriores. E afirma: "Simbolização é isso" (p. 31).

    Todavia, em clima de guerra - e estamos tratando disto - não há espaço para negociações amigáveis, ao contrário sob o comando das forças desse "implacável exército das sombras"2, a tônica vigente é de ataque, desligamento, desinvestimento, destruição e falhas nos processos de simbolização. De acordo com Green4, assim como a indiscriminação, a indiferenciação impossibilita o desenvolvimento dos processos terciários - berço da capacidade simbólica - do mesmo modo, o predomínio da pulsão de morte inviabiliza a imprescindível elaboração dos lutos para além da fusão. A partir daí, não fica /difícil presumir que a combinação indiscriminação/pulsão de morte conduzam à confusão, ao aprisionamento eu-não-eu.

    Algumas perguntas parecem pertinentes. Sem entrar no mérito da existência ou não de um conflito pulsional fundamental, podemos perguntar: o que gerou esse desintricamento pulsional? Ou o que falhou no processo unificador gerado pelos investimentos do narcisismo primário? O que antecedeu a tudo isso ou o que não aconteceu?

    Para Green3, as configurações atuais da prática clínica nos obrigam a considerar, na constituição do sujeito, no desenvolvimento normal ou patológico do aparelho psíquico, a força dos fatores ligados ao narcisismo e à destrutividade.

    Sua teoria contempla o duplo estatuto: narcisismo de vida e narcisismo de morte; função objetalizante como meta essencial da pulsão de vida e função desobjetalizante como meta essencial da pulsão de morte. Assim, parece especialmente adequada para dar conta da nova articulação entre metapsicologia e clínica.

    Segundo ele, "...se algo de novo surgiu na psicanálise nesses últimos decênios, é pelo lado de um pensamento do par..."2 Ele acredita que a metapsicologia das relações self-objeto está se impondo porque dá conta dos aspectos clínicos da análise contemporânea do vazio em relação aos casoslimite, estruturas narcisistas.

    Ao aliar sua prática clínica ao desenvolvimento teórico, Green2 possibilita não só a compreensão desses quadros clínicos, como também um entendimento da sua etiologia. Ele considera "os narcisistas como pessoas feridas - de fato carentes do ponto de vista do narcisismo" (p. 17). E assinala que a decepção sofrida, cujas feridas ainda estão em carne viva, possivelmente não se limitou a um dos pais, mas a ambos, reais ou fantasiados. Justifica, então, que o objeto que lhes resta para amar é a si mesmos. Nesse caso, entende que a sexualização do Eu tem como efeito transformar o desejo pelo objeto em desejo pelo Eu. Fato que ele nomeia desejo do Um com apagamento do desejo do Outro. Todavia, inevitavelmente, no movimento do desejo, o sujeito é descentrado, pois a falta do objeto de satisfação ou a postergação da satisfação levará o sujeito a experienciar que seu centro não está mais nele mesmo, mas fora de si.

    Se essa dolorosa constatação promover os lutos necessários à sua elaboração mental, tornar-se-á, segundo Green2, uma aquisição psíquica primordial, pois levará à conscientização da experiência de separação, a qual possibilita a construção de uma matriz simbólica primária, que ele aponta como fonte do desenvolvimento psíquico.

    Entretanto, ele alerta: "... se esse modo de identificação narcisista persiste para além da fusão com o objeto, quando o Eu se distingue do não-Eu e admite a existência do objeto em separado, esse modo de funcionamento expõe o Eu a inumeráveis desilusões." Em alguns casos, a possibilidade da simples existência do objeto pode levar a consequências desastrosas e fazer "... com que a experiência de descentramento seja vivenciada com muito ressentimento, ódio e desespero" (p. 23).

    Quando esse "colapso" acontece, o movimento de retorno para a unidade e a confusão do Eu com o objeto idealizado, ou seja, a tentativa de fusão, já não estão mais ao alcance. É a perda do amor fusional, antes de sua plena realização. Em outras palavras, para Green2, no momento em que a realização da unidade narcísica falha, o movimento pode não ir mais em direção à busca dessa unidade, mas sim, à busca do nada. O modelo do desejo se inverte, é a busca do não-desejo, da redução das tensões ao nível zero, que é a aproximação da morte psíquica.

    A partir dessas ideias, Green3 postula, então, a existência de um narcisismo negativo. Nesse caso, a solução transforma a realização alucinatória negativa do desejo em modelo. Não mais é o desprazer que substitui o prazer, mas o neutro. Aqui, para ele, é a função desobjetalizante que governa a atividade psíquica. Em outras palavras, clinicamente, não estamos mais no âmbito da depressão, mas diante de uma "anorexia de viver", de um vazio existencial apanágio de patologias graves, pertencentes ao espectro das estruturas limites e narcisistas, onde reinam, com absoluto nepotismo, os estados confusionais da indiferenciação eu - não eu.

    Após termos entrado em contato, embora sinteticamente, com a consistente e profunda abordagem teórico-clínica desenvolvida por Green2, recorrerei agora, também de maneira breve, à não menos importante contribuição de Rosenfeld9, que trata da psicopatologia dos estados confusionais, a qual também enriquecerá nossa reflexão.

    Rosenfeld9 inicia esse trabalho - fruto de dez anos de psicanálise com pacientes esquizofrênicos - lembrando que as sensações de confusão fazem parte do desenvolvimento normal e recorre a Winnicott11 quando diz que "...na mais tenra infância, o bebê vive num estado de não-integração, em que sua percepção é incompleta e em que, amiúde, os estímulos externos e internos e as partes do corpo não se diferenciam. Esta confusão decorrente da nãointegração é normal e vai desaparecendo gradualmente, durante o desenvolvimento" (p. 62).

    A proposição de Rosenfeld9 aponta para o fato de que "...quando a diferenciação normal entre objetos bons e maus e entre os impulsos libidinosos e os agressivos não é alcançada, acentuam-se os mecanismos de divisão" (p. 66). Em consequência disso, os impulsos libidinosos e os de destruição se confundem gerando alto grau de ansiedade. A partir daí, os impulsos de destruição parecem ameaçar os impulsos libidinosos e, com isso, todo o eu fica em risco de ser destruído.

    Para Rosenfeld9, os estados confusionais surgem como uma tentativa de recuperação. Todavia, muitas vezes, o estado confusional não diminui quando o paciente busca diferenciar seus impulsos libidinosos dos agressivos. Até pelo contrário, paradoxalmente, se acentuam os mecanismos de divisão. Isso porque, no momento em que os impulsos se aproximam, passam a gerar sensação de perigo iminente de ocorrência de um estado confusional agudo. A ameaça é a de que os impulsos agressivos possam sobrepujar os libidinosos, aumentando o processo de desintegração no ego. Ele acredita que "a única maneira de escapar a esse perigo está na capacidade de diferenciar, de novo, o amor do ódio"9. A partir daí, se os impulsos libidinosos predominarem, o ego poderá contar com seu poder de integração e alcançar êxito nessa luta por sua recuperação.

    Nesse momento, depois de contar com a contribuição de autores de inestimável valor para a teoria psicanalítica, me sinto impelida a apresentar, à guisa de ilustração, uma síntese do conto de Edgar Allan Poe, intitulado "A queda do Solar de Usher". Esse desejo foi motivado pela identificação que encontrei entre sua narrativa literária e as ideias de Green4 e Rosenfeld9 a respeito do sentimento de vazio emocional dos estados confusionais, de indiferenciação eu-não-eu, próprios dos casos-limites. Mas também pela sensação de estranheza que esse conto me causou e que me fez automaticamente lembrar de Freud12 em seu trabalho "O estranho".

    Nesse texto, Freud aborda o tema da estética, justamente sob o aspecto que diz respeito à qualidade do sentir. Para ele, o tema do estranho relaciona-se com o que é assustador, com o que provoca medo e horror. Ele propõe: "...o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar." E complementa: "...uma experiência estranha ocorre quando os complexos infantis que haviam sido reprimidos revivem uma vez mais por meio de alguma impressão, ou quando crenças primitivas que foram superadas parecem outra vez confirmar-se" 12.

    Allan Poe cria uma atmosfera estranha e nebulosa que nos envolve, não nos deixando saber "...se está nos conduzindo pelo mundo real ou por um mundo puramente fantástico..."12

    [...] e afinal me encontrei, ao caírem as sombras da tarde, perto do melancólico Solar de Usher [...] invadiu-me a alma um sentimento de angústia insuportável [...] Havia um enregelamento, uma tontura, uma enfermidade de coração, uma irreparável tristeza no pensamento [...] Que era o que tanto me perturbava à contemplação do Solar de Usher? [...] eu não podia apreender as ideias sombrias que se acumulavam em mim [...]. Era possível, refleti, que um mero arranjo diferente dos detalhes da paisagem, dos pormenores do quadro, fosse suficiente para modificar ou talvez aniquilar sua capacidade de produzir tristes impressões e, demorando-me nesta ideia, dirigi o cavalo para a margem escarpada de um pantanal negro e lúgubre que reluzia parado junto ao prédio, e olhei para baixo - com um tremor ainda mais forte do que antes -, para as imagens alteradas e invertidas dos caniços cinzentos e dos lívidos troncos de árvores e das janelas semelhantes a órbitas vazias.


    Como já se pode de início reconhecer, Allan Poe, além de nos brindar com a riqueza literária desse conto, oferta-nos uma metáfora clínica, que pode ilustrar o tema deste trabalho, remetendo-nos à viagem de um personagem - quem sabe, a seu próprio mundo interno - através de uma narrativa imagética, prenha de sensorialidade, como verdadeiros pictogramas, que retratam a atmosfera soturna, misteriosa, indiscriminada e não menos assustadora que as descritas por ambos autores, Green4 e Rosenfeld9, através de exemplos clínicos, os quais nos possibilitam empreender verdadeiras viagens ao mundo de fantasias interno/externo de pacientes onde o prazer é a dor e o caos é o limite.

    Não obstante isso, eu me propusera ficar algumas semanas naquela mansão melancólica. Seu proprietário Roderick Usher, fora um de meus alegres companheiros de infância... uma carta dele, a qual, por sua natureza estranhamente importuna, não admitia resposta que não fosse pessoal. O manuscrito dava indícios de nervosa agitação [...] o signatário falava de uma aguda enfermidade física, de uma perturbação mental que o oprimia e de um ansioso desejo de ver-me como seu melhor, e em realidade, seu único amigo [...].


    Um apelo singular do passado, algo que vem de dentro, parece evocar contato com a parte melancólica de sua personalidade, despertando afetos contraditórios, atração e medo. Mesmo assim, o pedido parece irrecusável. Quem sabe por apontar para um caminho regressivo a um mundo "estranho/conhecido"12? Ou, quem sabe, por partir de Roderick Usher, uma parte agonizante de seu self dividido? Mas, acima de tudo, quem sabe, pelo teor da súplica aliada à fragilidade em que se encontrava seu moribundo amigo, objeto interno/externo, com um pedido de sobrevivência, ou, quem sabe, de libertação...


    "DEPOIS DE TANTOS ANOS DE COMPLETO ISOLAMENTO!"

    Teria a dor miserável do corpo e da alma o levado a pedir ajuda? A transpor os limites para além do "Solar de Usher", a ponto de seus gritos romperem as sólidas paredes da "melancólica mansão"? Que força teria desestabilizado a quiescente e soturna solidão/submissão/aprisionamento de Roderick Usher? O que buscariam ambos encontrar ou reencontrar? Um encontro/reencontro à gloria" da infância perdida? Lembremos que para Green3, a sexualização do Eu tem como efeito transformar o desejo pelo objeto em desejo pelo Eu.

    Eu conhecia, também, o fato, muito digno de nota, de que do tronco da família Usher, apesar de sua nobre antiguidade, jamais brotara, em qualquer época, um ramo duradouro; em outra palavras, a família inteira só se perpetuava por descendência direta e assim permanecera sempre [...] era essa deficiência [...] e a consequente transmissão em linha reta, de pai a filho, do nome e do patrimônio, que afinal tanto identificaram ambos, a ponto de dissolver o título original do domínio na estranha e equívoca denominação de "Solar de Usher" [...].


    Nesse panorama caótico, os limites não discriminam, não diferenciam. Os territórios, sem identidade própria, são "terras de ninguém" ou de todos; a generalização está a serviço da despersonalização; "terras sem dono", sem direito a cidadania, o "Solar de Usher", onde o nome próprio perde-se na propriedade, esvazia-se de significado; espaço vazio de sentido próprio. "Órbitas vazias".

    Tanto eu forçara a imaginação que realmente acreditava que em torno da mansão e da propriedade pairava uma atmosfera característica de ambos e de seus imediatos arredores - atmosfera que não tinha afinidade com o ar do céu, mas que se exalava das árvores apodrecidas e do muro cinzento e do lago silencioso - um vapor pestilento e misterioso, pesado e lento, francamente visível e cor de chumbo.


    Lembremos que para Green4 a indiferenciação dos limites dos mais variados territórios, internos e externos, alimentam lutos intermináveis que, em meio a angústias de separação, de intrusão, angústias catastróficas ou impensáveis, de desvitalização, de vazio mental, se mantêm sob a égide da pulsão de morte, para muito além do princípio do prazer.

    Roderick Usher! [...] foi com dificuldade que cheguei a admitir a identidade do fantasma à minha frente com o companheiro de minha primeira infância. A lividez agora cadavérica da pele e o brilho sobrenatural do olhar, principalmente, me deixaram atônito e mesmo horrorizado [...] o cabelo sedoso crescera à vontade, sem limites; e como ele, na sua tessitura de aranhol, mais flutuava do que caía em torno da face, eu não podia, mesmo com esforço, ligar sua aparência estranha com uma simples ideia de humanidade.
    Na verdade, eu me achava preparado para encontrar algo dessa natureza, não só pela carta dele como por certas recordações de fatos infantis [...] Verifiquei que ele era um escravo agrilhoado a uma espécie anômala de terror [...] influência que certas particularidades apenas de forma e de substância do seu solar familiar, através de longos sofrimentos, dizia ele, exerciam sobre seu espírito;


    Green3 associa as angústias do espectro do narcisismo ao problema do limite da forma, da substância ou da consistência, "[...] onde a aposta é a coexistência dos Eus." (p.144) Eus-não-eus imersos na atmosfera viscosa da transgeracionalidade indiferenciada; "...transmissão em linha reta, de pai a filho, do nome e do patrimônio...", onde orgânico e inorgânico, tempo e espaço se fundem, se confundem; borramento dos limites, permeabilidade excessiva que, segundo Green4, promove a desorganização no interior do aparelho psíquico, atingindo os limites dentro do ego, os limites do ego em relação ao objeto e entre os limites do ego, do id e do superego.

    Ele admitia, porém, embora com hesitação, que muito da melancolia peculiar que assim o afligia podia rastrear-se até uma origem mais natural e bem mais admissível: a doença severa e prolongada, a morte - aparentemente a aproximar-se - de uma irmã ternamente amada, sua única companhia durante longos anos, sua única e última parenta na terra [...].


    Roderick Usher, nosso soturno personagem, debate-se arquejante na estreita luta entre o desejo da morte do objeto fusional e a angústia da unidade ameaçada, paradoxalmente buscada para a reconstituição da fantasia idealizada e jamais alcançada da unidade absoluta. A agitação agonizante sob a égide da dupla angústia do Um e angústia do par tece o pano de fundo da dispersão, do despedaçamento. A angústia sancionada como modo existencial.


    ANGÚSTIA COMO EPIFANIA DO SUJEITO

    Rosenfeld9, em seu trabalho sobre estados confusionais, traz um exemplo clínico, a propósito da vivência de confusão de partes do ego, que é bem possível adaptar e utilizar aqui frente ao paralelo que Usher traça entre sua melancolia e a severa doença da irmã, que para ele é prenúncio de morte eminente. Rosenfeld9 diz:

    "Sua ansiedade e confusão se originavam do sentimento de que seu eu mau devorava a parte boa de sua personalidade, identificada com seus impulsos libidinais" (p. 67). Considerando o pensamento de Rosenfeld9, o desejo de morte da Irmã e ao mesmo tempo o medo de perdê-la podem ser entendidos como "...um mecanismo esquizoide de divisão, com o qual se eliminam as partes do eu irremediavelmente confundidas " (id ibid).

    Enquanto ele falava, Lady Madeline (pois era assim chamada) passou lentamente para uma parte recuada do aposento e, sem ter notado minha presença, desapareceu. Uma apatia fixa, um esgotamento gradual de sua pessoa e crises frequentes, embora transitórias, de caráter parcialmente cataléptico eram os insólitos sintomas. [...]
    uma noite, Usher, [...] tendo-me informado bruscamente que Lady Madeline não mais vivia, revelou sua intenção de conservar-lhe o corpo por uma quinzena (antes de seu enterramento definitivo) em uma das numerosas masmorras, dentro das possantes paredes do castelo.


    Como foi visto, para Green4, assim como a indiscriminação impossibilita o desenvolvimento dos processos terciários - berço da capacidade simbólica - do mesmo modo o predomínio da pulsão de morte inviabiliza a imprescindível elaboração dos lutos para além da fusão.

    Tendo depositado nosso fúnebre fardo, sobre cavaletes, naquele horrendo lugar, desviamos em parte a tampa ainda não pregada do caixão, e contemplamos o rosto do cadáver. Uma semelhança chocante entre o irmão e a irmã deteve então, em primeiro lugar, a minha atenção; e Usher, adivinhando, talvez, meus pensamentos, murmurou [...] que ele e a irmã tinham sido gêmeos e que afinidades, duma natureza mal inteligível, sempre havia existido entre eles.


    Figuras de simetria e complementaridade invadem evasiva e profundamente, corroendo os limites, desvitalizando as robustas, mas insólitas paredes carcomidas pelos fungos do apodrecimento mortífero de estratificações das "Dores do Mundo"a dos Ushers, contagiando por espelhamento a frágil "pele" das figuras cadavéricas que comensalmente alimentam-se um da seiva mortífera do outro, como também de quem ousar aproximar-se, conduzindo à perpetuação do aprisionamento eu-não-eu. Corroborando com esse entendimento, chama a atenção um fato que denuncia e confirma a ideia do conluio e confusão eu-não-eu quando nosso personagem protagonista e narrador, naturalmente, passa a narrar a macabra tarefa na primeira pessoa do plural: "...nosso fúnebre fardo... desviamos em parte a tampa ainda não pregada do caixão, e contemplamos o rosto do cadáver."

    Freud12 em seu trabalho "O estranho", diz que, assim como a estranheza, o fenômeno do duplo é atribuído a causas infantis e que aparece de muitas formas e em diferentes graus de desenvolvimento. Ele cita a contribuição de Otto Rank (1914), que relacionou esse fenômeno a "...reflexos em espelhos, com sombras, espíritos guardiões, com a crença na alma e com o medo da morte"12.

    Para Rank (1914), "originalmente, o duplo era uma segurança contra a destruição do ego, uma 'enérgica negação do poder da morte'..."12.

    Em consonância com essa ideia, Freud conclui que, provavelmente, a 'alma imortal' foi o primeiro duplo do corpo. Para ele, "tais ideias, no entanto, brotaram do solo do amor-próprio ilimitado, do narcisismo primário que domina a mente da criança e do homem primitivo. Entretanto, quando essa etapa está superada, o 'duplo' inverte o seu aspecto. Depois de haver sido uma garantia da imortalidade, transforma-se em estranho anunciador da morte"12.

    Tendo decorrido alguns dias de amargo pesar, uma mudança visível operou-se nos sintomas da desordem mental do meu amigo [...]. Vagava de quarto em quarto, a passos precipitados, desiguais e sem objetivo. A palidez de sua fisionomia tomara, se possível, um tom ainda mais espectral, mas a luminosidade de seu olhar havia se extinguido por completo [...]. Não admira que sua situação terrífica me contagiasse. Senti subirem, rastejando em mim, por escalas lentas, embora incertas as influências estranhas das fantásticas mas impressionantes superstições que ele entretinha [...]. Foi [...], sete ou oito dias, depois de haver sido colocado no túmulo o corpo de Lady Madeline, que experimentei o pleno poder desses sentimentos [...]. Lutei para dominar com a razão o nervosismo que de mim se apoderava [...]. Meus esforços, porém, foram infrutíferos. Irreprimível tremor, pouco a pouco, me invadiu o corpo, e, por fim, sentou-se sobre meu próprio coração o íncubo de uma angústia inteiramente infundada [...].
    [...] perscrutando avidamente a intensa escuridão do quarto, escutei - não sei por quê, mas impelido por uma força instintiva - certos sons baixos e indefinidos, que vinham por entre as pausas da tempestade, a longos intervalos, não sabia eu de onde...vesti-me às pressas e tentei arrancar-me da lastimável situação em que caíra, andando rapidamente para lá e para cá pelo aposento [...]. Um instante depois batia levemente à minha porta e entrava trazendo uma lâmpada. Sua fisionomia estava, como sempre, cadavericamente descorada; mas, além disso, havia uma hilaridade louca em seus olhos, uma histeria evidentemente contida em toda a sua atitude. Seu ar aterrorizou-me [...] percebi um eco distinto, cavo, metálico e clangoroso, embora aparentemente abafado.


    Para Green2, "a angústia é o ruído que rompe o contínuo silencioso do sentimento de existir, na troca das informações consigo mesmo ou com outrem." (p. 161) Sentimento ruidoso, que fala sem dizer e, paradoxalmente, diz sem falar à espera de transformação, tradução; grito surdo à beira do abismo do vazio ou reverberando nas profundezas do pântano; código condenado a sucumbir a qualquer esboço de comunicação, destinado a permanecer incógnito nas carcomidas paredes da impessoalidade do Solar de Usher.

    Completamente nervoso, de um salto, pus-me de pé; mas o movimento compassado de balanço de Usher não se modificou. Corri para a cadeira onde estava sentado. Seus olhos estavam sempre fixos diante de si e por toda sua fisionomia imperava uma rigidez de pedra, mas quando coloquei minha mão sobre seu ombro, toda a sua pessoa estremeceu fortemente; um sorriso mórbido tremeu-lhe em torno dos lábios e eu vi que ele falava num murmúrio baixo apressado, inarticulado, como se não notasse minha presença. Curvando-me sobre ele e bem de perto, sorvi, afinal, o medonho sentido de suas palavras. - Não o ouves?
    Sim, ouço-o, e tenho-o ouvido. Longamente [...] longamente [...] muitos minutos, muitas horas, muitos dias tenho-o ouvido, contudo não ousava [...] Oh, coitado de mim, miserável desgraçado que sou! Não ousava falar!



    "NÓS A PUSEMOS VIVA NA SEPULTURA!"

    Lady Madeline carregou consigo, talvez por vingança, a lembrança do carinho e da ternura de que tinha sido investida, condenando seu duplo a sucumbir na mais pura inanição de afeto. Nessa luta, para sobreviver à perda do objeto fusional, Usher elege o velho companheiro de infância seu duplo do conluio mortal.

    Nós! Nós! "Nós a pusemos viva na sepultura!" Não disse que meus sentidos eram agudos? Agora eu lhe conto que ouvi seu primeiro fraco movimento, no fundo do caixão. Ouvi-o faz muitos, muitos dias, e, contudo, não ousei falar! [...] o abrir-se do caixão, e o rascar dos gonzos de ferro de sua prisão, e o debater-se dela dentro da arcada de cobre da masmorra! Oh! Para onde fugirei? Não estará ela aqui, dentro em pouco? Não estará correndo a censurar-me por minha pressa? Não ouvi eu o tropel de seus passos na escada? Não distingo aquele pesado e horrível bater de seu coração? Louco! - e aqui saltou ele da cadeira e gritou, bem alto, cada sílaba, como se com aquele esforço estivesse exalando a própria alma: - Louco! Digo-lhe que ela está, agora, por trás da porta!


    "Tais processos se devem ao efeito, dentro do ego, dos impulsos de destruição, experimentados como estranhos (expulsos de lá) e, portanto como perseguidores" 9.

    [...] as antigas almofadas da porta para as quais Usher apontava escancarara, imediatamente suas mandíbulas de ébano [...] estava de pé a figura elevada e amortalhada da Lady Madeline de Usher. Havia sangue sobre suas vestes alvas e sinais de uma luta terrível, em todas as partes de seu corpo emagrecido. Durante um instante, permaneceu ela, tremendo e vacilando, para lá e para cá no limiar. Depois, com um grito profundo e lamentoso, caiu pesadamente para a frente, sobre seu irmão, e, em seus estertores agônicos, violentos e agora finais, arrastou-o consigo para o chão, um cadáver, uma vítima dos terrores que ele mesmo antecipara.
    Fugi espavorido daquele quarto, daquela mansão. Ao atravessar a alameda, a tempestade lá fora rugia, ainda em todo o seu furor [...] sobreveio uma violenta rajada do turbilhão [...] o inteiro orbe do satélite explodiu imediatamente à minha vista [...] meu cérebro vacilou quando vi as possantes paredes se desmoronarem [...] houve um longo e tumultuoso estrondar, semelhante à voz de mil torrentes [...] e o pântano profundo e lamacento, a meus pés, fechou-se, lúgubre e silentemente, sobre os destroços do "Solar de Usher".


    E, para finalizar, fica a pergunta: poderíamos entender esse desfecho à luz do que vínhamos estudando?

    Múltiplas seriam as possibilidades, considerando a riqueza fantasmática do texto. Poderíamos, por exemplo, conduzir nosso entendimento pelo vértice do adoecimento; pensar que nesse final estaríamos assistindo "...a invasão pelo Outro, esperada e temida, que os estados de fusão ilustram"2 e complementar com a idéia de Laing (1970), descritas por Green, que sugere que o destino desses quadros pode ser "...a explosão e a implosão, mutuamente catastróficas." 2.

    No outro extremo do contínuo saúde/doença, poderíamos entender de um ponto de vista otimista e considerar esse desfecho como uma metáfora do principal mecanismo estruturante e defensivo, o recalcamento, que, segundo Green2, pode ser concebido com dupla função. Ou seja, além de manter afastados os investimentos objetais que ameaçam a organização do Eu, funciona como um revestimento que tem como função garantir os limites do Eu.

    Todavia, me parece contraditório, do ponto de vista psicanalítico, buscar definir esse desfecho seja para o lado da saúde ou da doença. Seria aprisionar nosso personagem entre duas paredes, justo num momento em que ele parece ter conseguido demovê-las.

    Com esse conto, Edgar Allan Poe7, mestre em despertar fortes emoções, nos proporcionou vivenciar um verdadeiro "impacto estético"6, coloca-nos em contato com sensações de origem muito primitiva, levando-nos a partilhar, entre excitação e medo, ansiedades ligadas a despersonalização, angústias claustrofóbicas e de aprisionamento.

    Ao finalizar o conto, consegue, ainda assim, deixar em aberto a possibilidade de fantasiar, construir novas ideias. Consegue fechar sem saturar, fiel à ideia de continuidade, possibilidades infinitas de entendimentos, construção, transformação.

    "[...] um longo e tumultuoso estrondar, semelhante à voz de mil torrentes [...] e o pântano profundo e lamacento, a meus pés, fechou-se, lúgubre e silentemente, sobre os destroços do "Solar de Usher"".


    REFERÊNCIAS

    1. Bion WR. Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

    2. Green A. Narcisismo de vida, narcisismo de morte. São Paulo: Escuta, 1988

    3. Green A. [et al.] Narcisismo negativo, função desobjetalizante. In: A pulsão de Morte. São Paulo: Escuta, 1988.

    4. Green A. Conferência: Conceituações e Limites. In: Conferências Brasileiras de André Green. Metapsicologia dos limites. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

    5. Kristeva J. As novas doenças da alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

    6. Meltzer D. Apreensão do belo: o papel do conflito estético no desenvolvimento, na violência e na arte. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

    7. Poe EA. A queda do Solar de Usher. In: Ficção completa, poesia e ensaios. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.

    8. Plut S. Revisão Epistemológica e Crítica de Patologias Atuais. Revista da Sociedade de psicanálise de Porto alegre. Psicanálise, v. 10, nº1, 2008.

    9. Rosenfeld HA. Os Estados Confusionais. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.

    10. Roussillon R. Le plaisir et la répétition. Paris: Dumont, 2001.

    11. Winnicott DW. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

    12. Freud S. O estranho. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVII, p. 275-314. Rio de Janeiro: Imago, 1976










    1. Kátia Jung, Mestrado em Psicologia Clínica , Docente do Instituto de ensino e Pesquisa em Psicoterapia (IEPP), Membro associado da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).

    Endereço para correspondência:
    Kátia Jung
    kfjung@terra.com.br

    Recebido em: 26/11/2010.
    Aceito em: 20/02/2011.

    a. As Dores do Mundo, A. Schopenhauer.

     

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