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Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2021; 23(3):195-207



Revisão Narrativa

Trauma infantil e manifestações histéricas na atualidade: uma revisão da literatura

Child trauma and hysterical manifestations today: a literature review

Trauma infantil y manifestaciones histéricas hoy: una revisión de la literatura

Cleonice Zattia; Márcia Rejane Semensatob; Luis Francisco Ramos-Limaa; Vitoria Waikampa; Lucia Helena Machado Freitasa

Resumo

As reações corporais e emocionais sentidas pelos pacientes com manifestações histéricas podem atingir tamanha intensidade, a ponto de prejudicar sua vida social, familiar e laboral. O trabalho parte dos seguintes questionamentos: como são as manifestações histéricas na atualidade? Qual a compreensão sobre a histeria na literatura da área ao longo do tempo? O objetivo é descrever aspectos teóricos sobre a histeria e o trauma infantil, articulando-os com a clínica atual. Foi desenvolvida uma revisão da literatura por meio do método narrativo. Os resultados encontrados foram 106 estudos nos últimos 6 anos (Bireme e Dialnet), sendo que, de 2017 em diante, houve um decréscimo nas publicações científicas sobre o tema. Apesar de a categoria psicopatológica da histeria ter desaparecido dos manuais de transtornos mentais, na clínica atual as manifestações histéricas são facilmente confundidas com outros transtornos (depressivos, dissociativos e distúrbio borderline). As manifestações somáticas aparecem no corpo para comunicar eventos traumáticos não contidos pelo aparelho psíquico. Conclui-se que as manifestações histéricas seguem presentes nos dias de hoje, e o corpo tende a ser uma via de expressão somática. No contexto da relação entre sintomas histéricos e traumas vivenciados na infância, a psicoterapia ocupa lugar de destaque, promovendo ressignificações para tais eventos traumáticos.

Descritores: Histeria; Trauma infantil; Psicoterapia

Abstract

The bodily and emotional reactions felt by patients with hysterical manifestations can reach such intensity as to harm their social, family and work life, causing several losses for the individual. The study starts from the following questions: how are the hysterical manifestations today? What about understanding hysteria in the literature of the area over time? The objective is to describe theoretical aspects of hysteria and childhood trauma, in conjunction with the current clinic. A literature review using the narrative method was developed. The results found were 106 studies in the last 6 years (Bireme and Dialnet), and as of 2017 there is a decrease in scientific publications on the topic. Although the psychopathological category of hysteria has disappeared from the manuals of mental disorders, nowadays in the clinic the hysterical manifestations are easily confused with other disorders (depressive, dissociative and borderline). Somatic manifestations appear in the body to communicate traumatic events not contained by the psychic apparatus. It is concluded that the hysterical manifestations are still present today, and the body tends to be an important way of expressing symptoms through the somatic path. In the context of the relationship between hysterical symptoms and childhood trauma, psychotherapy occupies a prominent place, promoting reframing for such traumatic events.

Keywords: Hysteria; Childhood trauma; Psychotherapy

Resumen

Las reacciones corporales y emocionales que sienten los pacientes con manifestaciones histéricas pueden alcanzar tal intensidad como para dañar su vida social, familiar y laboral, causando varias pérdidas para el individuo. El estudio parte de las siguientes preguntas: ¿Cómo son hoy las manifestaciones histéricas? ¿Cuál es la comprensión de la histeria en la literatura de la zona a lo largo del tiempo? El objetivo es describir aspectos teóricos de la histeria y el trauma infantil, en conjunto con la clínica actual. Se ha elaborado una revisión de la literatura utilizando el método narrativo. Los resultados encontrados fueron 106 estudios en los últimos 6 años (Bireme y Dialnet), y a partir de 2017 hubo una disminución en las publicaciones científicas sobre el tema. Aunque la categoría psicopatológica de histeria ha desaparecido de los manuales de trastornos mentales, hoy en día en la clínica las manifestaciones histéricas se confunden fácilmente con otros trastornos (depresivo, disociativo y borderline). Las manifestaciones somáticas aparecen en el cuerpo para comunicar eventos traumáticos no contenidos por el aparato psíquico. Se concluye que las manifestaciones histéricas todavía están presentes hoy en día, y el cuerpo tiende a ser una forma importante de expresar los síntomas a través de las vías somáticas. En el contexto de la relación entre los síntomas histéricos y el trauma vivido en la infancia, la psicoterapia ocupa un lugar destacado, promoviendo replanteamiento para tales eventos traumáticos.

Descriptores: Histeria; Trauma infantil; Psicoterapia

 

 

INTRODUÇÃO

A histeria foi compreendida de muitas formas ao longo dos séculos, e vem sendo objeto de estudo desde os primórdios da medicina. A denominação de histeria foi utilizada por Hipócrates (460-377 a.C.) e deriva da palavra grega hystera, que significa matriz, útero ou o “lugar onde algo se gera”. Na época, supunha-se que esse órgão era a causa da histeria. Nogueira1 explica que Hipócrates relacionava a histeria a migrações uterinas e ao represamento de substâncias humorais, que, como consequência da abstinência sexual, produziriam efeitos tóxicos. A “Teoria do Útero Errante”, a Wandering Womb, foi mencionada tanto por Platão quanto por Hipócrates em Corpus Hippocraticum. Essa teoria, que persistiu na Europa por muitos séculos, baseou-se na hipótese de que a sintomatologia derivava do movimento do órgão pelo corpo. Por exemplo, se o útero se movesse, poderia esmagar os pulmões e gerar asfixia; se o movimento fosse próximo ao coração, haveria sintomas de palpitação, e assim sucessivamente1.

Desde os primórdios, a histeria foi considerada essencialmente uma questão feminina, inclusive na psicopatologia, seja por mulheres apresentarem mais frequentemente os sintomas, seja pelo fato de possuírem um útero. Com efeito, o feminino intriga a psicanálise por construir sua satisfação para além da “alegria fálica”. Os sintomas histéricos foram a porta de entrada para a “descoberta” do inconsciente, o que levou Freud ao desenvolvimento da psicanálise2. Ele chegou a considerar o compromisso feminino com a família algo essencial e ao mesmo tempo perigoso para a civilização, pois não conseguia desvendar os mistérios desse gênero3.

No entanto, considera-se hoje que a histeria não é atribuída exclusivamente a mulheres. De acordo com Ceccarelli4, boa parte da dificuldade, inclusive dos psicanalistas, em se falar da histeria masculina, e, em sentido mais amplo, da sexualidade masculina, se deve à resistência em questionar o modelo falocêntrico. Freud chegou a apontar uma das principais dificuldades dentro da histeria masculina: a castração. Essa característica amplia consideravelmente o arcabouço teórico sobre o fenômeno. A sedução seria o sintoma privilegiado dessa posição subjetiva: importa é receber o amor de todos - não se pode renunciar a ninguém. Nesse sentido, um dos aspectos principais da histeria masculina é a insatisfação5.

Em “A questão da análise leiga”, Freud6 referiu que a vida sexual das mulheres adultas era um continente misterioso para a psicologia. Assim, a histeria toma a forma de uma “doença misteriosa”, ao longo dos séculos mascarando vivências precoces traumáticas que nos permitiriam entender o sofrimento dos pacientes em tratamento7.

Em torno de 1880, nas consultas médicas para as pacientes histéricas eram realizadas massagens pélvicas. De fato, Joseph Mortimer Granville patenteou o primeiro vibrador eletromecânico com forma fálica como um instrumento terapêutico para efetuar a “Massagem pélvica”7. Mais tarde, passou-se a comercializálo ao público em um contexto exclusivamente médico. No final desse período, inúmeras experiências de “paroxismo histérico” foram investigadas, porém os médicos perceberam que a ação não curava a histeria. Esta foi a primeira “doença” para a qual a medicina não encontrou uma explicação7.

Desde a terceira edição do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) a histeria não consta enquanto categoria diagnóstica. Em 1994, na classificação do DSM-IV, o termo “histeria” foi diluído entre os Transtornos Somatoformes, que abrangem os Transtornos Conversivos8. Em 2013, no DSM-V, os Transtornos Somatoformes com presença de sintoma clássico da histeria (“histeria de Briquet”) foram denominados Sintomas Somáticos e Transtornos Relacionados9. No entanto, os critérios desse manual diagnóstico para rastreio do “transtorno da personalidade histriônica” não contemplam a personalidade histérica. Esses critérios histriônicos se aproximam dos critérios para transtornos borderline ou narcisista, dificultando a identificação da histeria clássica2.

Os sintomas mais típicos dos quadros histéricos são as conversões. Em termos gerais, referem-se à conversão de problemas emocionais em doenças físicas, mais especificamente, a derivação da excitação do plano psíquico ao plano somático10. Procurou-se classificar esses sintomas em três grupos: (1) memórias de intensidade alucinatória; (2) motor (ataques de choro, risadas, convulsões); (3) propósitos, tendências (inclinação para fazer algo), apatia (deficiências, por exemplo, para comer, andar)10. Entendem-se esses sintomas como um fenômeno complexo, os quais possuem um caráter em comum: o mecanismo complexo de manifestações histéricas é de natureza psicológica, isto é, os distúrbios na histeria processam na esfera psíquica e é o mecanismo psíquico que traz todos os sintomas histéricos em comum11.

Independentemente da classificação técnica, consideramos que os desafios e as condições clínicas relacionadas à histeria ainda permanecem presentes na área médica e psicológica com pontos de dúvidas e buscando uma compreensão sobre suas manifestações7,12,13. Por outro lado, compreende-se que a histeria desafia a prática clínica por apresentar um discurso subversivo cuja característica transversal é colocar o “eu” através do corpo que se expressa, ou seja, uma subjetividade de sintomas “incorporada” no físico13,14. Uma cachoeira de sintomas desaguando em um corpo.

O corpo que se expressa por meio de sintomas pode conter marcas traumáticas, derivadas de um excesso, que o psíquico não consegue suportar15. Na histeria, a linguagem do corpo é crucial, pois o traumático desorganiza a capacidade de pensamento verbal12. Freud, desde o início da década de 1890, buscou compreender a causa dos sintomas histéricos não mais em uma região anatômica, mas na narrativa histórica e simbólica do sujeito13.

No curso do desenvolvimento humano, podem ocorrer eventos traumáticos que excedem a capacidade infantil de compreensão, e desencadeiam marcas dolorosas no aparelho psíquico. Tais experiências traumáticas são continuamente revividas por meio de memórias e, dependendo da intensidade, podem tornar-se avassaladoras na vida de uma pessoa, causando desordens mentais16,17. As crianças que sofreram exposição crônica à violência, maus-tratos e negligência podem desenvolver sintomatologia e/ou transtornos mentais ainda na infância, ou posteriormente na adultez18,19.

À medida que o termo “histeria” passa a ser excluído dos manuais de psiquiatria, como no DSM, pessoas com sofrimento e sintomas característicos da histeria são muitas vezes rotuladas como “simuladoras”, dramáticas, cuja queixa existiria “só para ter atenção”. Essa descrição é bastante frequente, por exemplo, nos serviços de emergências hospitalares.

Assim sendo, o presente estudo parte das seguintes interrogações: como são as manifestações histéricas na atualidade? Qual a compreensão sobre a histeria na literatura da área ao longo do tempo? Essas manifestações histéricas, que pareciam tão abundantes nos relatos de casos clínicos desde a fundação da psicanálise, agora parecem ter desaparecido diante de tantos “novos” quadros psicopatológicos. Seriam elas pouco visíveis na contemporaneidade ou mascaradas por uma sociedade em que o “normal” é o exibicionismo? Ou ainda, seriam as incompatibilidades de critérios diagnósticos? A fim de contemplar esses questionamentos, será apresentada teoricamente a questão histórica da compreensão da histeria, com o intuito de contextualizar este tema na atualidade. Assim, realizou-se uma revisão narrativa das publicações atuais acerca da histeria e vivências traumáticas na infância, objetivando contribuir para futuras pesquisas e/ou intervenções em psicoterapias.


MÉTODO

Trata-se de um estudo de revisão narrativa da literatura, por considerar a inclusão dos trabalhos a partir de análise crítica dos autores. Os seguintes descritores foram utilizados: “Histeria”, “Trauma infantil”, “Transtorno mental”. Os termos foram pesquisados de modo combinado, delimitando-se os estudos dos últimos 6 anos (2013-2019). Foram incluídos no estudo os artigos que abordavam o tema da histeria; os excluídos foram aqueles que se distanciaram ou não tratavam do assunto. As bases de dados pesquisadas foram a Bireme e a Dialnet. Os seguintes descritores de busca foram utilizados: (tw:(histeria)) AND (tw:(trauma infantil)) AND (tw:(transtorno mental)). A pesquisa foi realizada no mês de dezembro de 2019.


RESULTADOS

Na busca realizada nas bases de dados, foram encontrados 106 estudos (37 estudos da base Bireme e 69 estudos da base Dialnet). Foram incluídos no estudo 12 artigos, após revisão do texto completo. Verificamos inicialmente a prevalência dos trabalhos sobre o tema no período pesquisado; nota-se uma diminuição dos artigos publicados sobre o tema nos últimos três anos. Em 2019, apenas duas publicações foram encontradas com esses descritores. A Figura 1 apresenta a distribuição anual dos artigos no período de pesquisa.


Figura 1. Número de publicações das bases de dados selecionadas



O FlipChart (Figura 2) apresenta a forma como foram aplicados os critérios de inclusão e exclusão.


Figura 2. Critérios de inclusão e exclusão utilizados
* Amostras duplicadas ou não tratavam do tema
** Diagnóstico de outras psicopatologias




DISCUSSÃO

Na clínica, percebe-se que as manifestações histéricas seguem presentes, bem como intenso desgaste psíquico. Este artigo objetivou transcorrer os aspectos teóricos e históricos sobre a histeria e o trauma infantil. A revisão da literatura realizada aponta que em alguns casos as manifestações histéricas podem estar ligadas a situações traumáticas. Autores destacam que a personalidade histérica ou histriônica continua a ser um dos “males” de nosso tempo12.

Notoriamente, o conceito de corpos controlados pelo útero-hystera atravessa a história. As mulheres com corpos possuídos por demônios, construídos pelo cinema - até mulheres com síndrome pré-menstrual -, corpos controlados pelo seu útero20.

Acreditava-se que o órgão mais afetado com as alterações do útero era o cérebro (formação de sintomas). O útero e “seus testículos” eram eficazes para se comunicar com as partes do corpo, principalmente com o cérebro, por ser este frio e molhado como eles, talvez uma alusão ao fato de a frieza e a umidade serem as qualidades de quem perde a parte emocional. O útero, com a identificação de função reprodutiva, pode ser compreendido como o que gera uma nova alma. Parece haver um equilíbrio natural ligado simbolicamente à geração de uma nova vida. Um lugar calmo, tranquilo e seguro21.

Na primeira metade da década 1890, Freud22 passou a definir a sua concepção sobre a histeria. Sua elaboração, a partir daí, obteve avanços na compreensão dos sintomas histéricos e do mecanismo psíquico responsável pela formação daqueles sintomas. Freud, no entanto, teve cautela, chegando a mencionar que a “doença histérica” continuava a ser um mistério impenetrável12. Em “Estudos da histeria”23, a sua hipótese foi de que os pacientes com quadro histérico haviam sofrido traumas excessivos para a etapa do desenvolvimento em que se achavam. Esse raciocínio produz a justificativa encontrada no Projeto, de que algo da sexualidade infantil estava na base da histeria12.

Quando se trata de experiências sexuais infantis, logo pensamos nas representações que foram reprimidas. Rodriguez e Silva11, citando Breuer, referem que esse autor conseguiu adentrar nos sintomas histéricos de uma paciente e libertá-la da compulsão desses sintomas com o uso da hipnose. Acreditava-se que o estado hipnótico do paciente era indispensável para encontrar o caminho dos sintomas histéricos existentes no corpo, em virtude das representações reprimidas11.

Pela perspectiva psíquica, sabe-se que as desordens de conversões são sintomas. A literatura enfatiza que elas não são estabelecidas por um mecanismo consciente, mas pela conversão de aspectos emocionais em doenças físicas. Há décadas estudiosos compreenderam que a causa dessa patologia não estava no corpo, e sim na mente8.

Conforme descrito anteriormente, desde o seu nascimento no campo da psicopatologia, a histeria é considerada uma “doença” feminina, seja pelo fato de as mulheres apresentarem mais os sintomas, seja por possuírem um útero. A histeria, como uma “doença misteriosa”, ao longo dos séculos, segue viagem em corpos, mascarando experiências traumáticas reprimidas que nos permitem entender o comportamento doentio quando os pacientes buscam tratamento7.

O termo “histeria” com o tempo começou a carregar outros estigmas, e atualmente os sintomas e o sofrimento causado pelas manifestações histéricas tendem a ser vistos com a rotulação de “simulações”, inclusive em serviços de saúde. Essa percepção dos autores é corroborada pela revisão da literatura. De fato, atualmente, não é incomum que, na comunicação interna das equipes de saúde hospitalares, existam termos que estigmatizam, como “H” (hagazão) ou a “8ª letra do alfabeto”.

Diversos autores afirmam que a histeria nunca desapareceu12,24. Atualmente, na clínica psicanalítica, percebe-se que os pacientes com manifestações histéricas transitam por diferentes espaços: nos consultórios, ambulatórios de trauma psíquico e em hospitais de emergências, onde frequentemente é vista a busca de atendimento por queixas somáticas, por vezes de ordem conversiva, bem como desmaios e convulsões, paralisias, palpitações e tremores nas extremidades.

Na literatura atual, percebe-se que manifestações histéricas aparecem associadas a transtornos depressivos21, distúrbios dissociativos18,25, distúrbios de borderline12, conversivos25 e TEPT14. Quando o indivíduo sofre uma vivência traumática, com déficits no cuidado parental, isso pode resultar em uma constelação de sintomas psicopatológicos da infância até a idade adulta26. Resultados de pesquisas indicam que indivíduos que experimentam um único trauma na infância são susceptíveis a ter experiências de vários tipos de adversidades16,27,28, e 81% a 98% dos adultos que relataram um evento adverso na infância tiveram pelo menos uma experiência adicional de sintomas na vida adulta18,29,30.

O trauma causa impacto no desenvolvimento global, afetivo e cognitivo; a experiência é vivenciada como um excesso. Estudar prospectivamente os efeitos de traumas complexos em crianças é um passo vital para o desenvolvimento de ferramentas que permitirão melhores estratégias no tratamento psicológico18, no que diz respeito à histeria.

A linguagem do corpo é necessária porque o trauma original pode ter ocorrido antes que as palavras assumissem significado12. Atualmente o potencial de melhora dos distúrbios dissociativos em crianças traumatizadas está ligado à compreensão das dificuldades emocionais e comportamentais ocasionadas pelo trauma18.

Especificamente em relação à conversão, estima-se que 1-3% das crianças e adolescentes sofrem de um distúrbio desse tipo, sendo que a prevalência pode atingir 10% nas consultas de neurologia pediátrica31. Não é incomum, portanto, que algumas crianças com histórias traumáticas e sintomas dissociativos sejam descritas como sonhadoras, desatentas ou “sem noção”. O impacto de experiências traumáticas em crianças pode ser observado também por sintomas como pesadelos, hipervigilância, depressão, ansiedade ou comportamentos autodestrutivos. Situações de negligência, abusos ou experiências de proximidade com a morte ficam registradas nas primeiras lembranças da criança. Além disso, a história de trauma vivenciado pela mãe pode estar relacionada ao aparecimento de sintomas dissociativos em seus filhos, independentemente de a mãe ter desenvolvido sintomas ou não25.

Quanto às implicações e desafios da prática clínica, torna-se imprescindível ao profissional de saúde mental a avaliação do paciente quanto às características histéricas ou histriônicas para um plano de tratamento mais assertivo. A compreensão e a identificação de elementos traumáticos não simbolizados tornam-se o objetivo principal da clínica psicanalítica, a fim de evitar a espiral contínua de repetição somática. Os autores ressaltam que não foram incluídas outras bases de dados como estratégia na revisão narrativa dos artigos apresentados, limitando assim seu poder de inferência.


CONCLUSÃO

Em conclusão, as manifestações sintomáticas histéricas ainda seguem presentes nos consultórios, ambulatórios e hospitais, porém percebe-se que estão encobertas por transtornos mentais, dificultando assim um tratamento assertivo dessas manifestações. A falta de conhecimento das manifestações contribui para a estigmatização dos indivíduos que diariamente buscam atendimento pela “sintomatologia inexplicável”. A presente pesquisa da literatura corrobora observações clínicas sobre as manifestações histéricas associadas a vivências traumáticas infantis e suas ressignificações.

Os sintomas das manifestações sintomáticas histéricas, na perspectiva psicanalítica, são registros inconscientes de situações traumáticas que necessitam encontrar as representações psíquicas. Compreender as manifestações histéricas na atualidade é perceber que existe um significado nos sintomas apresentados pelos pacientes que não encontram uma explicação para o desconforto, ou sentem que os sintomas aparecem e somem - um “corpo falante”. A intensidade desse sofrimento ocasiona o que chamamos de “uma cachoeira de sintomas que deságua em um corpo”. O tratamento possibilita constituir novos conceitos simbólicos de eventos adversos, como um espaço para deixar o corpo gritante se expressar.


AGRADECIMENTOS

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001, e do Fundo de Incentivo à Pesquisa da Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.


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aUniversidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Programa de Pós-Graduação em Psiquiatria e Ciências do Comportamento, Faculdade de Medicina, Porto Alegre/RS, Brasil
bFaculdade Estácio do Rio Grande do Sul, Departamento de Psicologia, Porto Alegre/RS, Brasil

Autor correspondente

Cleonice Zatti
cleonice.zatti@outlook.com

Submetido em: 27/03/2020
Aceito em: 30/03/2021

Contribuições: Cleonice Zatti - Aquisição de financiamento, Coleta de Dados, Conceitualização, Gerenciamento de Recursos, Investigação, Redação - Revisão e Edição; Márcia Rejane Semensato - Conceitualização, Investigação, Supervisão; Luis Francisco Ramos-Lima - Redação - Revisão e Edição, Visualização; Vitoria Waikamp - Redação - Revisão e Edição, Visualização; Lucia Helena Machado Freitas - Aquisição de financiamento, Gerenciamento do Projeto, Metodologia, Supervisão.

 

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