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Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2018; 20(2):43-52



Artigo de Revisão

Inside Out: um olhar kleiniano sobre o funcionamento mental de Riley no filme Divertida Mente

Inside Out: a kleinian look at Riley's mental function in the movie Inside Out

Carolina Silveira Campos

Resumo

Sabe-se que um mesmo fenômeno evoca diferentes olhares conforme o observador. No filme Inside Out, traduzido no Brasil para Divertida Mente, o olhar das neurociências foi amplamente explorado e divulgado. Neste artigo, pretende-se visitar o filme a partir do enfoque psicodinâmico, baseado na teoria das relações de objeto de Melanie Klein. Através da personagem Riley, serão acompanhados os momentos de integração/ desintegração de seus afetos, a elaboração de suas perdas no caminho da infância para a adolescência e o manejo de suas angústias primitivas. Sendo assim, discutir o arco da personagem Riley, em chave kleiniana, em especial, à luz das posições esquizoparanoide e depressiva é objetivo deste artigo. Entenda-se arco da personagem como as mudanças internas pelas quais Riley passa ao longo da trama.

Descritores: cinema; teoria Kleiniana; angústias primitivas.

Abstract

It is known that the same phenomenon evokes different looks according to the observer. In the movie Inside Out, translated into Brazil for Divertida Mente, the neuroscience's look was widely explored and divulged. In this article, we intend to visit the film based on the psychodynamic approach, based on Melanie Klein's object relations theory. Through the character Riley, will be accompanied the moments of integration / disintegration of his affections, the elaboration of his losses in the way of the childhood for the adolescence and the handling of his primitive anguishes. Thus, discussing the arch of the Riley character, in Kleinian key, especially in light of the schizoparanoid and depressive positions is the objective of this article. Understand the character's arc as the internal changes that Riley goes through the plot.

Keywords: Cinema; Kleinian theory; Primitive anxieties.

 

 

INTRODUÇÃO

Entre no mundo da bebê Riley. Tente recordar o que nunca foi esquecido. Imagine que um bebê desconhece nomes ou funções dos objetos, mas é capaz de vivenciá-los em termos de emoções.

Para Stern1, tanto nos bebês quanto nos adultos, cada experiência aciona um tom emocional que pode emergir do mundo interno e modelar o externo, ou pode iniciar de fora e repercutir internamente. No bebê, a diferença entre esses dois mundo é ainda pouco estabelecida e, como em cenas de um filme, um instante pode ser entrelaçado ao seguinte ou pode subitamente sumir dentro desse.

No filme americano Inside Out2, traduzido no Brasil como Divertida Mente (EUA, 2015) o diretor e também roteirista Pete Docter, junto aos demais roteiristas Meg Le Fauve, Ronniedel Carmen e Josh Cooley, contam a história de Riley, uma menina de onze anos. No presente artigo será utilizado o título na língua original e todos os excertos entre aspas dizem respeito às falas do filme.

Keltner e Ekman3 discorrem que a obra versa sobre cinco emoções, quais sejam, alegria, tristeza, raiva, nojo e medo, que controlam a mente dessa menina. Quando ocorre na vida da personagem o evento de mudarse de cidade e, consequentemente, perder sua casa e seus amigos, Riley depara-se com fortes emoções pouco vivenciadas até aquele momento.

Será claro para Riley, não mais um bebê, como acontece a relação entre seus mundos interno e externo? O que vemos no filme é que, além das perdas reais, Riley viverá também a perda da infância e dos pais idealizados nessa fase do crescimento e precisará reconstruir suas concepções para seguir seu desenvolvimento normal. Através da história contada em Inside Out*, no presente artigo, buscar-se-á acompanhar os momentos de confusão e de integração de afetos, a consequente elaboração de suas perdas no caminho da infância para a puberdade e o quanto isso pode estar baseado nas memórias e nos protótipos estabelecidos enquanto Riley ainda era um bebê.

Por meio da teoria das relações de objeto de Melanie Klein4, o presente artigo discute instrumentos teóricos que possibilitem outro olhar a respeito do filme. Não será trabalhada a linha do desenvolvimento

infantil, mas abordado o luto permeado pela alternância de posições esquizoparanoide e depressiva. Como proposto no inicio desta introdução, tentar recordar aquilo que nunca foi esquecido, em chave kleiniana, auxiliará no objetivo de discutir as mudanças internas pelas quais Riley passa ao longo da trama, constituindo uma dinâmica psíquica muito rica.


O DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO

A maturação e reorganização de capacidades como coordenação, memória de evocação e autoconsciência são tema de enfoque para a psicologia do desenvolvimento e para as neurociências. Com a evolução das neurociências foi identificado, pela ciência cognitiva, que a memória não está baseada em um único mecanismo. Destacam-se dois sistemas principais: a memória declarativa e a memória processual. Na primeira, está envolvida a recuperação consciente da informação proveniente do passado; na segunda, as informações, mesmo sem serem recordadas, podem ser recuperadas5.

Unidas às contribuições e descobertas das neurociências, para a psicanálise, a memória processual ganha mais relevância, enquanto a memória declarativa está diretamente relacionada às vertentes da psicologia ligadas à consciência6. As experiências particulares que conduzem as pessoas a funcionamentos patológicos na relação com o outro provavelmente acontecem antes do desenvolvimento do sistema de memória7; sistema esse capaz de codificar e reter a experiência de modo que esta possa ser representada como uma história, consciente ou inconscientemente7. Em vista disso, considera-se que as memórias tratadas no filme, denominadas de core memories, são as que temos acesso nas psicoterapias através da compreensão do binômio transferência/contratransferência e da identificação projetiva.

Através de um olhar subjetivo, a fim de especificar as progressivas reorganizações baseadas em princípios organizadores amplos da evolução mental, o conhecimento psicodinâmico buscará ajudar que se conte essa história, na tentativa de compreender como ocorre o desenvolvimento psíquico do indivíduo. Freud, através da teoria da sexualidade infantil e das tópicas do funcionamento do aparelho psíquico, versou sobre a progressão do desenvolvimento sustentando-a na reorganização do impulso e na natureza do Id. Erikson enfatiza de modo mais contundente os elementos culturais e ambientais. Para ele, o desenvolvimento se dá a partir da confiança para autonomia e para atividade, sendo entendido como uma reorganização sequencial do ego e das estruturas de caráter. Outra autora que repousa sua teoria na teoria das pulsões e do desenvolvimento libidinal de Freud é Margaret Mahler. Sua teoria entendia que, dentro da experiência eu/outro do bebê, ocorria o caminho da simbiose normal para a separação individual de modo a estabelecer a reestruturação do ego e do Id8.

Assim, como para Mahler, Melanie Klein também entendia a reestruturação da experiência do eu/outro como chave para progressão do desenvolvimento. Na evolução de sua obra, Klein formulou uma teoria que enfocou a vida mental primitiva e contribuiu de forma a ampliar horizontes no campo da psicanálise, principalmente no que tange à psicanálise infantil. Entre as diversas questões das quais foi pioneira, destaca-se, neste artigo, a concepção da mente como um universo de objetos internos que constituem a realidade psíquica através da relação que estabelecem com as fantasias inconscientes e com os objetos externos4.

Klein não analisava as pulsões dissociadas de um objeto, entendia que a pulsão agia sobre o objeto, desenvolvendo, assim, uma relação com ele, em uma experiência emocional inconsciente. Sob essa perspectiva, entende-se que a experiência emocional é o elemento privilegiado do trabalho psicanalítico4. Nesse ponto, surge uma diferença fundamental entre sua teoria e a de Freud, autor a quem muito admirou e baseou-se: a emoção é a base da vida mental, ou seja, é o que significa e existe no consciente e no inconsciente; enquanto para Freud, é a pulsão que dá origem à emoção, sendo, portanto, consciente e indicadora de um conflito pulsional inconsciente9.

Para Damásio10, neurocientista português, estudioso do cérebro e das emoções, as emoções são anteriores à consciência e são capazes de monitorar e transmitir dados sobre as necessidades vitais sem que haja ação da consciência. Aquilo que se sente conscientemente é definido como sentimento10-11.

De acordo com Zimerman12, emoção é oriunda de um movimento na mente. O autor destaca que Klein compreendia a fantasia inconsciente como representante mental da pulsão e o impacto desta pulsão ocasionaria, portanto a experiência emocional no inconsciente. Em Inside Out acompanhamos os inúmeros movimentos que acontecem na mente de Riley e que constantemente transmitem os dados sobre suas necessidades. Representadas pelas emoções de alegria, tristeza, medo, nojo e raiva, a mente da personagem proporciona que visualizemos os diferentes possíveis impactos que cada uma dessas emoções causa na vida da menina e o quanto são essenciais para seu desenvolvimento psíquico. Nesse artigo, portanto, as emoções serão entendidas como os movimentos da mente de Riley e não como personagens em si.

Em um breve olhar sobre as primeiras contribuições de Klein para a psicanálise infantil, a autora discorre que uma criança pequena introjeta objetos parciais, pois os conhece vagamente e isso aciona seus mecanismos de projeção e de introjeção. A ação de reciprocidade entre os dois mecanismos é de fundamental relevância para a formação do mundo interno, do superego, para as relações de objeto e para adaptação à realidade. Em um desenvolvimento normal, a projeção de imagos terríficas no mundo externo, torna-o perigoso e seus objetos inimigos; por outro lado, simultaneamente ocorre a introjeção de objetos reais que agem de maneira a investir na criança, ou seja, atuam de forma a atenuar a violência do medo que as imagens terríficas lhe causam13.


O FILME

Inside Out conta a história de Riley, uma menina de onze anos que vive em Minnesota com seus pais. Para qualquer criança, crescer é sempre uma aventura e para Riley, não seria diferente. Seu pai arruma um novo emprego em São Francisco, e a família precisa mudar-se de cidade. A partir disso, a personagem passa a viver mudanças importantes em sua vida.

Guiada pelas emoções de Alegria, Medo, Raiva, Nojo e Tristeza, que são personagens importantes no filme, a mente de Riley passa por uma verdadeira turbulência interna, pois as emoções precisam controlar o novo momento que a menina vive. Apesar de a Alegria, a principal emoção de Riley, tentar constantemente mantê-la positiva, as emoções entram em conflito sobre qual o melhor jeito de viver em uma nova cidade, casa e escola. Enquanto isso, a mente de Riley vive uma verdadeira confusão de sentimentos para adaptar-se a nova vida.


RILEY À LUZ DA TEORIA KLEINIANA

"Você é nosso pacotinho de alegria", talvez seja esse um dos primeiros registros que Riley tem de seus pais, registro marcado no filme, como sua primeira core memory, expressão traduzida no filme como memória base. Dito de outra forma, a personagem tem a experiência de introjeção de objetos reais que investem e possibilitam o registro de objetos bons que combaterão imagens terríficas ao longo de seu desenvolvimento.

Weininger14 refere que, para Klein, a fantasia já está presente no próprio nascimento, sendo utilizada para definir a realidade externa. O ego remodela a fantasia interna original através da introjeção de aspectos da realidade externa, pela interação com o objeto real e com o objeto fantasiado. Assim, dinamicamente, o bebê circula por diferentes representações mentais que são posições da evolução do ego.

Ao longo do filme vão surgindo as diferentes emoções, conforme a menina vai se deparando com novas vivências e, consequentemente, vão se formando novas core memories. Cada uma dessas memórias alimenta a formação de ilhas, descritas no filme como aspectos da personalidade de Riley, sendo elas: as ilhas da família, amizade, bobeira, honestidade e hóquei. O filme se passa durante um ano da vida de Riley, dos onze aos doze anos. O momento destaque é quando a família se muda da cidade natal para São Francisco e a menina experimenta uma fase de grandes mudanças, não apenas de cidade, mas principalmente modificações psíquicas. Riley está saindo da infância e ingressando na adolescência.

Pensando nesse novo momento da vida da personagem, pode-se valer do pensamento de Klein sobre a teoria das posições por ela criada. Segundo Zimerman12, "posição" indica uma estrutura em permanente evolução na organização da personalidade, ou seja, vai além de um estágio ou fase; posição diz respeito a um estado mental. Klein entendia, portanto, que posição remete a uma constelação de elementos conectados, angústias, defesas e impulsos configurando uma contexto dinâmico15.

"Riley tem onze anos, o que poderia acontecer?". Um bebê tem seu ego imaturo exposto aos instintos de vida e de morte. Ao se deparar com a ansiedade desse conflito, deflete o instinto de morte e se divide, projetando uma de suas partes que contém o instinto de morte no objeto externo original, ou seja, o objeto (seio mau) é sentido como perseguidor e outra parte permanece no self e é transformada em agressividade contra os perseguidores. Ao mesmo tempo, a fim de evitar a ansiedade pelo instinto de morte, a libido é projetada com o objetivo de criar um objeto ideal (seio bom) que irá satisfazer o instinto de preservação da vida. O bebê lida, portanto, com a fantasia de dois seios: o ideal e o persecutório. Percebe o mundo com o olhar em objetos parciais. A fantasia do objeto ideal se unirá com as experiências de gratificação recebidas do meio externo real (figuras parentais) e as fantasias persecutórias se unirão às experiências reais de privação e sofrimento. O objetivo do bebê é se identificar com o objeto ideal, aquele que dá a vida, e manter fora o objeto mau, aquele que contém o instinto de morte. Sua maior ansiedade, portanto é a paranoide, pois teme sempre que o objeto mau ataque o bom. Tem-se nesse funcionamento a posição esquizoparanoide4.

"Ela tem amigos legais, uma casa legal, não poderia ser melhor!", "Papai vai trabalhar, ele não nos ama mais". Nessas falas, expressas por personagens/aspectos de seu self, pode-se identificar o mesmo mecanismo de cisão que um bebê utiliza. Os amigos e a casa são totalmente perfeitas e o pai que ama, não pode frustrar. Ou seja, com onze anos, a mesma posição que um bebê viveu, mostra-se em uma menina no início da adolescência.

"A gente vai para o lago todo fim de semana, ou pelo menos ia (começa a chorar). Era muito legal lá, mas tudo acabou quando eu me mudei". Nessa cena, Riley se apresenta em seu primeiro dia na nova escola e, ao falar sobre sua vida pregressa em Minnesota, a emoção preponderante é a tristeza. No filme, essa é a cena em que a primeira core memory triste se forma. A partir daqui, a menina discute com os pais. Ela opta por fugir de casa, voltar a Minnesota, aos antigos amigos e ao time de hóquei. A única "ilha" - um conjunto de relações objetais, neste caso, familiares - que permanece, mesmo que estremecida, é a da família, que acaba por se destruir quando de fato Riley entra no ônibus e vai embora.

A fuga da personagem pode ser entendida como uma defesa maníaca. Segundo Zimerman12, essas defesas são baseadas na tríade: controle, triunfo e desprezo. No controle, o funcionamento é onipotente, se quer controlar e dominar tudo e todos; no triunfo, nega-se a baixo autoestima que é fruto de um estado depressivo, conquanto esse estado nem sempre apareça; e no desprezo, como consequência do triunfo, há uma maciça desvalorização daqueles que inveja ou imagina que a coíbe. A personagem, portanto, sente-se como que "no comando" de sua vida e decide retomar aquilo que acredita ser o que a faz se sentir bem, negando seu estado de baixa confiança em si própria e sua dependência dos pais, atacando e desvalorizando os pais que identifica como proibidores de viver seus prazeres. Por ocasião da fuga, Riley ataca também o mundo dos pais. Ilusoriamente, quer se livrar de um sentimento hostil e, para tal, usa o recurso da identificação projetiva, ou seja, deposita nos pais, por ela invejados, parte aquilo que não suporta dentro de si. Pela defesa maníaca, todavia, esses objetos que estão desvalorizados, consequentemente, não são invejados.

Ainda sobre o tema, etimologicamente, a palavra inveja é composta pelos étimos in, dentro de, somado a videre, olhar. Assim sendo, seria o "olhar mau" que entra no outro12.

Para Klein16, a inveja primária é uma proveniente direta da pulsão de morte, logo inata e está a benefício da destrutividade. Riley vive no filme o processo de destruição das ilhas que marcam sua personalidade e, com isso, vive internamente uma confusão de emoções.

É possível equiparar essa condição ao que, para Klein, conforme Segal4, seria o mundo interno do bebê sentido em pedaços. Os sentimentos de perda começam a ser experimentados, bem como os de culpa e de desesperança em recuperá-los. Pelas identificações projetivas há o ataque invejoso ao seio bom que alimenta e, as ansiedades paranoides, consequentemente, aumentam o temor da retaliação17.

Assim sendo, na posição depressiva, a maior ansiedade do bebê é que seu impulso destrutivo tenha atacado não só objeto mau, mas também o objeto que ama e de quem depende totalmente18. No filme, enquanto está no ônibus, Riley começa a recordar situações de sua vida e surge nas suas lembranças a cena de uma core memory em que está comemorando com os amigos do hóquei. O que Riley recorda é que para que a comemoração acontecesse, foi preciso primeiro que seus pais, objetos bons, estivessem ao seu lado e a acompanhassem em sua tristeza, pois, na verdade, o time perdeu o jogo e eles a estavam consolando e mostrando o quanto ela era boa e querida pelos amigos. Após esse momento é que os amigos chegam e todos confraternizam. Ou seja, a menina enxerga os pais como objetos totais, frustradores, pois a afastaram dos amigos quando a tiraram de Minnesota, e gratificadores, quando estavam perto e mostrando que era amada.

Mais adiante no desenvolvimento, já mais integrado, o bebê pode reter o amor pelo objeto bom mesmo quando o está odiando e experimentar, assim, o luto e o anseio por esse objeto total. O conflito da posição depressiva é uma batalha constante entre a destrutividade, o amor e os impulsos reparatórios. Se esse bebê estabeleceu um objeto bom seguro na posição depressiva, situações de ansiedade depressiva não causarão a doença, mas em uma elaboração frutífera, levando a um enriquecimento e criatividade. Isso acontece porque os mecanismos de cisão dão lugar aos mecanismos de repressão, deslocamento e inibição e identifica-se aqui a origem da formação simbólica4.

Entende-se, portanto, que Riley teve uma boa capacidade de introjeção de objetos bons e, diante do que foi capaz de acessar internamente, pode retornar para casa e reparar o que tinha feito. Pode conversar sobre o que sentia com os pais que confirmaram o quanto podiam suportar sua agressão. O ataque aos objetos bons internalizados, com consequente sentimento de desvalia, foi essencial para que as ansiedades depressivas entrassem em ação e a gratidão aparecesse como sentimento nutrido pelo objeto que gera gratificação. Riley pode agora recordar o que Klein16 nominou de presente exclusivo; aquele recebido de seu objeto amado e que estava guardado para ser utilizado quando preciso fosse ao longo de seu desenvolvimento psíquico.

Reconhecer o objeto como total exige um importante trabalho de luto. Luto pela perda da ilusão de fusão e do sentimento de posse, capacidades relacionadas à função simbólica. O objeto ausente precisa ser representado através de um símbolo e este símbolo é criado pelo self. Somente quando a ausência e a alteridade do objeto são toleradas é que a ambivalência e a culpa podem ser vivenciadas e elaboradas, pois o amor e o ódio pela alteridade do objeto geram sentimentos de culpa que carecem ser elaboradoszA19. Sendo assim, a formação simbólica é resultado de uma perda, trata-se de um trabalho de criação que traz consigo sofrimento e luto.

No momento em que Riley pede desculpas aos pais e os abraça, cria uma importante core memory que mistura sentimentos de alegria e de tristeza, pode acreditar em sua capacidade de reter e recuperar objetos bons e reconstruir o que fora destruído. Entende-se que a menina pode recriar dentro dela mesma a "ilha" antes despedaçada, pois agora seu ego tornou-se mais enriquecido pelas experiências de luto que vivenciou. Isso foi possível, pois Riley reconheceu sua gratidão por aqueles que dela cuidaram e, assim, conseguiu desenvolver uma genuína preocupação pelo outro, integrando aspectos dissociados do objeto12.

As ilhas de sua personalidade são reestabelecidas de maneira mais rica e novas ilhas ganham forma, como a ilha das discussões amigáveis, que parece representar a capacidade de enxergar os objetos como passíveis de frustrar, mas de encontrar um caminho de sublimação para aquilo que descontenta. Com isso, ocorre uma expansão de sua capacidade psíquica e mental. Novamente, fica claro na narrativa que "ilha" pode ser entendida como um subconjunto específico de relações objetais em constante evolução.

Segundo Segal4, não há na vida de uma pessoa a total elaboração da posição depressiva. Ansiedades ligadas à ambivalência e à culpa, além de situações de perda, constantemente irão reativar experiências depressivas.

Sendo assim, poder-se-ia afirmar que, para Klein, existe uma necessidade de conquista da posição depressiva, visto que ela nunca se completa e que o esforço para estabelecê-la continuará repetidamente durante a vida15. As oscilações entre as posições esquizoparanoide e depressiva são, pois parte da vida.

Riley pode não só ser o "pacotinho de alegria" de seus pais, como também pode identificá-los como o seu próprio pacote de alegria. Agora, é possível que para uma menina no início da adolescência, a relação entre seus mundos interno e externo seja menos confusa quando comparada ao mundo psíquico da bebê Riley. Seu mundo interno se diferenciou do mundo externo pelos processos de cisão e projeção e permitiu que um espaço interno contivesse objetos que se relacionam entre si. Estabeleceu, assim, um dentro e um fora, ou seja, uma pele psíquica, que possibilitou experiências de lugar e de tempo. Pode, portanto, conter emoções que permitiram que as vivências fossem significadas, simbolizadas e pensadas20.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quanto ao filme, os diferentes olhares oriundos das diferentes teorias não são excludentes entre si, mas permitem um enriquecimento da compreensão e um avanço na aproximação da complexidade da vida emocional e mental do indivíduo. Riley poderia ser iluminada por diferentes lentes e por diferentes ângulos. Buscou-se, através do olhar psicodinâmico e da escolha de uma autora que muito valorizou a existência do mundo interno infantil, encontrar outro modo de entender o funcionamento de Riley, tentando, como diz o nome do filme, enxergá-la "ao avesso".

"Você olha para uma pessoa e sabe o que tem na cabeça dela?" Arremata-se este artigo utilizando essa fala da personagem Alegria, um dos aspectos mentais de Riley. Traçando um comparativo com o processo psicoterapêutico psicodinâmico, se a resposta a essa pergunta fosse positiva, traduziria, talvez, o funcionamento onipotente de um terapeuta. Certamente não é possível know inside out, ou seja, conhecer algo/alguém como a palma da mão com um olhar unilateral, isso não seria suficiente para decifrar o que se passa no mundo interno de alguém.

Se Riley procurasse tratamento psicoterápico, seria possível unir dois olhares, pois para que um paciente entre em contato com seu lado avesso, o psicoterapeuta indubitavelmente precisa realizar o mesmo processo. Juntas, essas duas mentes favoreceriam a formação de um novo olhar, desenvolvendo, assim, uma nova possibilidade de clarear o que está obscuro ou esquecido; tem-se uma oportunidade de recordar aquilo que nunca foi esquecido.


REFERÊNCIAS

1. Stern D. Diário de um bebê. Porto Alegre: Artes Médicas; 1991.

2. Inside Out. Direção: Pete Docter. Produção: Pixar Animation Studios, Walt Disney Pictures. Estados Unidos; 2015. 94 min.

3. Keltner D, Eckman P. The Science of "Inside Out". The New Work Times, 2015 Jul; 3 p.10.

4. Segal H. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago; 1975.

5. Fonagy P. Memory and therapeutic action. Intern J Psycho-Analysis, 1999; 80: 215-23.

6. Conway MA. Autobiographical knowledge and autobiographical memories. In: Rubin DC. Remembering our past: studies in autobiographical memory. Cambridge: Cambridge University Press; 1996. p. 67-93.

7. Gathercole SE. The development of memory. J Child Psychol Psychiatry. 1998; 39:3-27.

8. Stern D. O mundo interpessoal do bebê. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992.

9. Neves F. A Psicanálise Kleiniana. Reverso. 2007; 29(54): 21-8.

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11. Modell A. Imagination and the meaningfull brain. Cambridge: MIT Press; 2003.

12. Zimerman D. Vocabulário contemporâneo de psicanálise. Porto Alegre: Artmed; 2001.

13. Klein M. Primeiros estágios do conflito edípico e da formação do superego. In: Psicanálise da criança. São Paulo: Mestre Jou; 1932. p.173-202.

14. Weininger O. Melanie Klein: da teoria a realidade. Porto Alegre: Artes Médicas; 1996.

15. Meltzer D. Desenvolvimento Clínico de Melanie Klein. São Paulo: Escuta; 1990.

16. Klein M. Inveja e Gratidão In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago; 1957. v.3, p.207-67.

17. Hinshelwood R. Dicionário do pensamento kleiniano. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992. 18. American Psychological Association. Dicionário de Psicologia. Porto Alegre: Artmed; 2010.

19. Franch NP. A constituição do espaço psíquico e a mente primitiva. Rev Psic SPPA. 2015 abr; 23(1): 127-35.

20. Klein M. Situações de ansiedade infantil refletidas em uma obra de arte e no impulso criativo. In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago; 1929. v.1, p.240-8.










Especialização CEPOA - (Psicóloga) - Porto Alegre - RS - Brasil

Correspondência
Carolina Silveira Campos
Rua Comendador Rodolfo Gomes 631/601 torrre 2
90150-101 Porto Alegre, RS, Brasil

Submetido em: 27/10/2017
Aceito em: 03/03/2018

Instituição: Centro de Estudos Luis Guedes

* Filme Inside Out traduzido no Brasil como Divertida Mente. No Oxford (2007): ao avesso.

 

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