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Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2018; 20(2):10-27



Artigo Original

Estratégias de coping em indivíduos com transtorno por uso de substâncias: revisão sistemática de literatura*

Coping strategies in individuals with substance use disorder: systematic literature review

Isabella Carvalho Oliveira Rochaa; Ederaldo José Lopesb

Resumo

O transtorno por uso de substâncias (TUS) é considerado complexo, de difícil tratamento e sua compreensão envolve fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Nesse campo, a Terapia Cognitivo Comportamental tem sido o modelo de tratamento mais amplamente utilizado e de reconhecida efetividade. Estudos têm relacionado a dependência de substâncias a estratégias ineficazes de enfrentamento das situações cotidianas de estresse. Nesse sentido, o presente estudo conduziu uma revisão sistemática de literatura dos últimos 10 anos, com a finalidade de identificar estudos nacionais e internacionais que avaliem estratégias de coping em indivíduos com TUS. Ao final da análise, onzeestudos foram identificados, revelando que estratégias desadaptativas de coping, como os estilos de enfrentamento evitativo e focado na emoção, são os mais frequentes em populações clínicas. Apesar das divergências entre os principais achados, todos convergem para a conclusão de que o enfrentamento ineficaz do estresse pode estar na base da etiologia e manutenção do TUS.

Descritores: Coping; Estratégias de enfrentamento; Transtorno por uso de substâncias; Abuso de substâncias; Dependência de substâncias.

Abstract

Substance use disorder (SUD) is considered complex and difficult to treat.Its understanding involves biological, psychological, social and environmental factors. In this field, Cognitive Behavioral Therapy has been consideredthe most widely used treatment model with recognized effectiveness. Researches have associated substance dependence to ineffective coping strategies in everyday stressful situations. Therefore, the present study conducteda systematic review of literature published over the past 10 years,in order to identify national and international studies that evaluatecoping strategies in individuals with SUD.At the end of the analysis, eleven studieswere identified, showing that maladaptive coping strategies,such as avoidant and emotion-focused coping styles, are the most prevalent in clinical samples. Despite the divergences between the main findings, all of them converge to the conclusion that ineffective ways of coping with stress may underlie the etiology and maintenance of SUD.

Keywords: Coping; Coping strategies; Substance use disorder; Substance abuse; Substance dependence.

 

 

O consumo de substâncias psicoativas no Brasil e no mundo tem atingido níveis alarmantes a cada ano e, por isso, é considerado uma grande preocupação social e de saúde pública mundial. Sabe-se que o uso de álcool e outras drogas também está diretamente relacionado a problemas relevantes como violência doméstica, lesões corporais, tentativas e atos de homicídio e suicídio, além de prejuízos em relacionamentos interpessoais e de ordem ocupacional. Atualmente, quase 30 milhões de pessoas no mundo usam drogas de forma problemática e desenvolvem transtornos relacionados ao consumo de substâncias1.

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5)2, o transtorno por uso de substâncias (TUS) consiste em um padrão sintomático cognitivo, comportamental e fisiológico de uso contínuo da substância apesar de problemas significativos. Envolve critérios de baixo controle do uso da substância, prejuízo social, consumo arriscado, além de critérios farmacológicos2. Por ser considerado um transtorno complexo e de etiologia múltipla, sua compreensão envolve fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Tais fatores, de forma integrada, ajudam a explicar o porquê, estabelecida a dependência, é tão difícil abandoná-la3.

Estudos têm demonstrado a relevância da compreensão de comportamentos e cognições disfuncionais para o tratamento da dependência e, nesse sentido, a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) tem sido o modelo de terapia mais amplamente utilizado e de reconhecida efetividade4.Nesta abordagem, o preditor mais importante da recaída é a incapacidade do indivíduo de utilizar estratégias de enfrentamento efetivas ao lidar com situações de alto risco. Para Marlatt e Donovam3, em momentos de proteção à abstinência, o indivíduo faz uso de estratégias cognitivas e comportamentais, adaptativas ou não, disponíveis em seu repertório, denominadas habilidades de enfrentamento. O pressuposto é que comportamentos aditivos podem ser mantidos por uma maneira desadaptativa de lidar com situações cotidianas de estresse, isto é, um desequilíbrio entre as exigências do ambiente e os recursos próprios do indivíduo, levando aqueles com repertórios de habilidades de enfrentamento pouco desenvolvidos a utilizarem a substância como tentativa de restabelecer o equilíbrio5. Segundo o pressuposto de Lazarus e Folkman6, o conceito de coping se define como os esforços cognitivos e comportamentais para manejar demandas específicas internas e/ou externas, avaliadas como sobrecarregando ou excedendo recursos do indivíduo. Embora faça parte de uma teoria mais ampla de enfrentamento, tal definição se aplica perfeitamente ao contexto específico da dependência de substâncias5.

Nesse sentido, pesquisas têm buscado avaliar a estrutura e os resultados do enfrentamento entre indivíduos com problemas no uso de substâncias, demonstrando que estratégias de enfrentamento adequadas podem prevenir a recaída do uso de drogas7,8,9. Um estudo com pacientes tabagistas10 identificou que o craving (fissura) mais intenso pode levar o indivíduo a utilizar estratégias pouco eficientes na contenção das emoções e no enfrentamento de situações de risco de recaída. Forys et al.11 indicaram que quanto maior o repertório de estratégias de enfrentamento, menor o consumo de álcool, os problemas relacionados e a frequência de uso de outras drogas. Da mesma forma, em um estudo com usuários de heroína, os participantes que estavam abstinentes demonstraram maior uso de respostas de enfrentamento em comparação aos participantes que tiveram lapsos ou recaídas12.

De fato, o treinamento de habilidades de enfrentamento tem sido utilizado como uma ferramenta importante no tratamento do transtorno por uso de substâncias, através de uma prática supervisionada no uso de habilidades de enfrentamento que devem ser particularmente úteis na diminuição da probabilidade e gravidade da recaída. Estudos demonstram que ensinar maneiras de identificar e lidar com situações de alto risco resulta em recaídas menores e menos graves13.

Nesse sentido, o entendimento das estratégias de coping como elementos importantes que predispõem os indivíduos ao uso abusivo de substâncias se mostra essencial para possibilitar o desenvolvimento de intervenções mais direcionadas e efetivas e colaborar para um melhor planejamento do processo de interrupção do uso, bem como prevenir a recaída14. A partirdo exposto, destaca-se a relevância do presente estudo por possibilitar pensar em estratégias mais eficazes de prevenção e tratamento do TUS. Assim, os objetivos centrais desta revisão de literatura consistem em levantar estudos nacionais e internacionais que investiguem diferentes estratégias de coping em indivíduos com TUS, analisando e comparando os resultados entre os diferentes estudos. Além disso, a revisão tem como foco identificar possíveis lacunas nessa área de conhecimento, a fim de fomentar pesquisas futuras.


MÉTODO

Para o levantamento dos estudos, optou-se pelas bases de dados Lilacs, Scielo, Pubmed, APA PsycNet e Google Acadêmico, por serem referência na busca de artigos nacionais e internacionais no campo da Psicologia e saúde mental em geral. O método de revisão foi baseado nos critérios do PRISMA Statement (Transparentreportingofsystematicreviewsand meta-analysis)15, optando-se por um levantamento de artigos publicados nos últimos 10 anos, entre 2008 a 2017, e restringindo-se a estudos escritos em português, inglês e espanhol.

Para a identificação do tema abuso e dependência de substâncias, foram utilizados diferentes descritores nas línguas inglesa, portuguesa e espanhola a fim de ampliar os resultados, uma vez que não há uma definição única acerca da terminologia utilizada nem mesmo correspondência exata entre os termos nos diferentes idiomas. As palavras-chave escolhidas foram aquelas mais comumente encontradas na literatura de referência no tema em questão. A Tabela 1 apresenta as palavras chave, campos de busca e os respectivos filtros aplicados em cada base de dados, conforme as opções de campos e filtros de busca oferecidos por cada plataforma, a fim de melhor selecionar os resultados.




A busca inicial nas diferentes bases de dados a partir dos descritores e filtros acima resultou em 682 produções em sua totalidade. Em seguida, na fase de identificação, a partir de uma análise preliminar dos títulos quanto à presença das palavras chave selecionadas e sua relevância no tema em questão, foram identificados 117 artigos. Após a exclusão de itens duplicados entre as bases de dados, os resultados totalizaram 81 estudos. Destes, na etapa de seleção, 06 estudos foram excluídos da amostra pelos seguintes critérios: (1) artigos que não dispunham de texto completo disponível na web(quatro artigos), (2) aqueles compostos apenas de resumo, pela impossibilidade de analisar os resultados do estudo(um artigo), e (3) aqueles que apareceram nos resultados de busca nas bases de dados, porém o link de acesso estava indisponível (um artigo).

Ao final da seleção, 75 artigos foram rastreados e tiveram seus resumos avaliados quanto aos critérios da etapa de elegibilidade, incluindo na composição da amostra aqueles que: (1) tivessem como temática central a avaliação de estratégias de coping em indivíduos com quadro de abuso de substâncias ou transtorno relacionado, (2) fizessem a investigação em amostra clínica e (3) por meio de instrumentos (questionários, inventários) validados. Além destes, os critérios de exclusão da etapa de elegibilidade eliminaram da análise artigos que não apresentavam nos resultados conteúdo descritivo sobre a prevalência das estratégias de coping na amostra ou com conteúdo divergente do objetivo desta revisão.

Ao final desta etapa, 11artigos em texto completo foram incluídos na análise. A Tabela 1sintetizaos resultados obtidos em cada base de dados na fase de identificação. A sistemática de busca descrita é apresentada na Figura 1, com o respectivo fluxograma conforme a recomendação PRISMA (Galvão & Pansani, 2015)15.


Figura 1. Fluxograma PRISMA com as fases da revisão sistemática



RESULTADOS

Os 11 artigos selecionados foram inicialmente avaliados quanto ao ano e país de produção, além do número de vezes em que apareceram nas diferentes bases de dados. Posteriormente, foram analisados quanto à caracterização da amostra, instrumento utilizado para avaliar estratégias de coping e quanto aos resultados apresentados. O detalhamento das informações sobre cada critério de análise encontra-se a seguir.

1. Ano e país de produção

Observou-se uma produção considerável de estudos nos últimos cinco anos, com mais da metade das publicações encontradas (58%),havendo maior concentração no ano de 2015 (quatro artigos), conforme apresentado no Tabela 2. Desta análise, pode-se inferir que este seja um tema contemporâneo, relativamente recente e ainda pouco estudado. Quanto ao país de origem, foram identificados artigos majoritariamente produzidos por pesquisadores dos EUA (três artigos) e Espanha (dois artigos), seguidos de demais países europeus e latino americanos, como Brasil e Colômbia (Tabela 3).






2. Resultados por bases de dados

Analisando quantitativamente os resultados obtidos entre as diferentes bases de dados pesquisadas, conforme apresentado na Figura 2, as plataformas Google Acadêmico e Lilacs apresentaram a maior concentração dos 11artigos selecionados (73% dos resultados). Revelaram, ainda, o maior número de resultados antes e após a fase de identificação dos estudos, conforme apresentado anteriormente na Tabela 1, se mostrando como ferramentas relevantes e eficazes na busca de produções científicas, capaz de conferir visibilidade às publicações. Analisando individualmente cada estudo, observou-se que apenas três apareceram nos resultados de mais de uma plataforma (Tabela 4). Por outro lado, dos 11 artigos selecionados, nenhum estava entre os resultados apresentados pela plataforma Scielo, possivelmente por se tratar de uma base de dados regionais, que contempla estudos majoritariamente da América Latina.


Figura 2. Artigos por bases de dados




3. Caracterização das amostras

Analisando os estudos quanto à caracterização da amostra, observou-se que a maior parte deles investigou indivíduos com diagnóstico de TUS em geral, sem especificar a substância consumida (oito artigos), e apenas três deles restringiram a investigação a indivíduos dependentes de opióides, álcool e crack. Quanto ao delineamento dos estudos, apenas alguns compararam os resultados entre amostras clínicas e não clínicas (três artigos). Os demais tiveram como objetivo principal investigar estratégias de coping apenas em amostras clínicas (oito artigos). Destes, a maior parte teve a amostra dividida em dois subgrupos quanto a diferentes tipos de tratamento (três artigos), outros investigaram um único grupo com diagnóstico de TUS (quatro artigos) e apenas um deles comparou os resultados entre grupos de homens e mulheres.

Chama a atenção o fato de que, dos onze estudos analisados, grande parte tenha priorizado amostras compostas exclusivamente por homens (três artigos) ou mulheres (um artigo) e um deles comparou os resultados entre ambos, evidenciando a presença de questões relacionadas ao gênero nas pesquisas. A Tabela 5 apresenta as características quanto ao delineamento e amostra e os principais resultados obtidos por cada estudo.




4. Instrumentos utilizados para avaliar estratégias de coping

Diferentes instrumentos foram utilizados para avaliar estratégias de coping nos diversos estudos. Trêsdeles16,17,18 utilizaram o questionário COPE, um instrumento desenvolvido por Carver, Scheiere Weintraub19, para avaliar estilos de coping, como o planejamento, coping ativo, suporte social e instrumental, religião, reinterpretação positiva, autoculpabilização, aceitação, expressão emocional, negação, distração, desinvestimento comportamental e uso de substâncias. Outros dois estudos20,21 fizeram uso da versão espanhola do Coping Strategies Inventory22 traduzida por Cano García, Rodríguez Franco e Martínez23. Este inventário avalia estratégias de coping a partir de oito escalas primárias: resolução de problemas, reestruturação cognitiva, suporte social, expressão emocional, evitação, pensamento fantasioso, isolamento social e autocrítica.

O inventário The WaysofCoping24 também foi utilizado em outros dois estudos, sendo que um deles utilizou a versão original25 e o outro26 a versão adaptada para o português por Savóia, Santana e Mejias27. O inventário é subdividido em oito subescalas que avaliam diferentes estratégias de coping focadas no problema (confronto, busca por apoio social e resolução de problemas) e na emoção (afastamento, autocontrole, aceitação de responsabilidade, fuga-esquiva e reavaliação positiva).

Os demais (quatro estudos) utilizaram instrumentos diversos, como o Utrecht Coping List, o Coping Inventory for Stressful Situations Questionnaire, o Coping Responses Inventory e a Escala de Estrategias de Coping Modificada. O Utrecht Coping List consiste em sete subescalas que avaliam as seguintes estratégias de coping: resolução ativa de problemas, reação paliativa, evitação, socialização, reação passiva, expressão emocional e autoencorajamento ou pensamentos tranquilizadores28. Já o Coping Inventory for Stressful Situations Questionnaire29, basicamente avalia estratégias de coping agrupadas em três grandes fatores: estratégias focadas no problema, na emoção e evitação. O Coping Responses Inventory avalia oito diferentes estratégias de coping, que são a análise lógica, reavaliação positiva, suporte, resolução de problemas, evitação cognitiva, aceitação, recompensas alternativas e descarga emocional30. Por fim, a Escala de Estrategias de Coping Modificada é composta de 69 itens que avaliam os 12 seguintes fatores: resolução de problemas, suporte social, espera, religião, evitação emocional, busca por apoio profissional, reação agressiva, evitação cognitiva, expressão da dificuldade de enfrentamento, reavaliação positiva, negação e autonomia31.

Apesar de se tratarem de instrumentos diferentes, o que se observa é que, em geral, todas as sete escalas analisadas avaliam várias estratégias de coping em comum, em geral, agrupadas em categorias de estratégias comportamentais e cognitivas com foco no problema, na emoção ou de evitação.

5. Resultados obtidos

A análise geral dos estudos sugeriu a dominância de estratégias desadaptativas de coping em populações clínicas, enquanto estilos de enfrentamento mais adaptativo se revelaram em amostras de indivíduos que já passaram por algum período de tratamento para o TUS. Os principais resultados obtidos por cada estudo foram sintetizados na Tabela 5, apresentada anteriormente.

Os três estudos16,32,33 que compararam indivíduos saudáveis com os que apresentavam TUS, de modo geral, identificaram escores menores em estilos de coping adaptativo, como enfrentamento focado no problema. Ainda, maiores níveis de estratégias desadaptativas, como o coping evitativo e reação passiva, também foram identificados nas amostras clínicas nos três estudos16,32,33.

Nas demais pesquisas que investigaram apenas amostras clínicas (oito estudos), os resultados, em sua maioria, também identificaram associação positiva entre o TUS e estratégias desadaptativas de coping. O estudo de Gąsior et al.17 sugeriu que a fissura pelo álcool é fortalecida pela gravidade da dependência e pela dominância de comportamentos ineficazes de enfrentamento do estresse (ex. uso de substâncias, desengajamento comportamental, evitação e distração), enquanto estratégias eficazes como o enfrentamento ativo, planejamento e a ressignificação positiva exercem uma influência dificultosa sobre a fissura. Nos achados de Boden et al.30, os estilos de enfrentamento evitativo e emocional, porém não ativo, também estiveram positivamente associados ao uso de álcool. No entanto, apenas o coping focado nas emoções esteve positivamente associado ao uso de outras drogas. No mesmo estudo, após um período de 12 meses de tratamento, estratégias de enfrentamento ativo aumentaram, enquanto o enfrentamento evitativo e emocional diminuíram no mesmo período.

Na investigação de Capella e Adan21 , indivíduos com TUS apresentaram menor probabilidade de usar estratégias adaptativas de enfrentamento e altos escores foram identificados para estratégias de desengajamento, evitação do problema e afastamento social em indivíduos que iniciaram o tratamento antes dos 16 anos de idade. Na amostra total, gravidade da dependência, o número de recaídas e a idade de início do tratamento foram relacionados ao coping desadaptativo. De forma semelhante, nos achados de Adan, Antúnez e Navarro20, que utilizaram o mesmo instrumento de investigação do estudo citado anteriormente, indicaram que pacientes apenas com diagnóstico de TUS tiveram escores mais altos em estratégias como Reestruturação Cognitiva, Expressão Emocional, Pensamento Fantasioso, Afastamento Social e Autocrítica, enquanto os pacientes com TUS e transtorno depressivo maior tiveram escores mais baixos em Resolução de Problemas e maiores em Evitação do Problema, Pensamento Fantasioso, Afastamento Social e Autocrítica.

Já o estudo brasileiro de Araújo et al.26 teve como resultados as seguintes estratégias de coping como as mais utilizadas em uma amostra de usuários de crack: Aceitação de Responsabilidade (57,2%), Confronto (54,3%) e Fuga-Esquiva (45,7%). Enquanto isso, estratégias de Autocontrole (22,8%) e Resolução de Problemas (22,9%), foram pouco utilizadas pelos pacientes do estudo, o que também reflete resultados semelhantes aos anteriores. Os achados de Sudraba et al.25sugeriram que dependentes de álcool e outras drogas utilizam mais frequentemente estratégias de coping focadas na emoção que estratégias focadas no problema. No entanto, de forma diferente dos demais resultados apresentados, ambos os grupos apresentaram maiores escores em estratégias adaptativas como aceitação de responsabilidade, busca por apoio social e autocontrole.

Por fim, outros dois estudos também revelaram resultados divergentes dos demais18,31, sendo estilos de enfrentamento ativo e mais adaptativo aqueles com maior frequência entre os participantes. O estudo de Fullerton-Hall18, em uma amostra de 51 pacientes, identificou como as estratégias mais comumente relatadas a Aceitação, Planejamento, Reavaliação Positiva, Apoio Instrumental, Apoio Emocional, Religião, Desabafo e Autodistração. De forma semelhante, os achados de Salazar31 revelaram com maior frequência na amostra as estratégias Solução de Problemas e Busca por Apoio Profissional, seguidas de Apoio Social, Reavaliação Positiva e Autonomia. No entanto, ao analisar tais resultados, vale ressaltar que ambos os estudos foram feitos a partir de uma investigação em indivíduos abstinentes de substâncias, durante ou após um período considerável de tratamento para o TUS.

Apesar de não ter sido observado um consenso entre os estudos sobre um padrão de estratégias de coping que possa estar na base do abuso de substâncias, todos os resultados apontaram forte associação entre estratégias desadaptativas de enfrentamento do estresse e o transtorno relacionado ao uso de substâncias.


DISCUSSÃO

No que se refere ao objetivo inicial de identificar estudos que investiguem estratégias de coping em indivíduos com quadro de TUS, pode-se dizer que os resultados revelam um número ainda escasso e relativamente recente de publicações. Mais especificamente no Brasil, pode-se dizer que seja um tema ainda pouco estudado, com um número inexpressivo de pesquisas.

Embora grande parte dos estudos tenha identificado elevados escores em estratégias desadaptativas de coping para indivíduos com o TUS, não se pode afirmar que haja um padrão na literatura que caracterize esta população. Uma das possíveis explicações para isso se deve ao fato dos estudos encontrados terem utilizado diferentes instrumentos de medida das estratégias de coping, o que impede generalizações. Nas sete escalas utilizadas, são encontradas mais de vinte diferentes categorias de avaliação de estratégias de enfrentamento ao todo. Outra razão pode ser atribuída à diversidade das amostras estudadas, que divergiram entre si quanto ao gênero, idade, substância consumida e modalidade de tratamento a que estavam submetidos.

Entretanto, apesar de algumas divergências encontradas, todos os estudos convergem para a conclusão de que o enfrentamento ineficaz do estresse pode estar na base da etiologia e manutenção do transtorno por uso de substâncias. O que se observa é que estratégias desadaptativas de coping, como os estilos de enfrentamento evitativo e focado na emoção, são as mais frequentes em populações clínicas. Tais achados sustentam a hipótese de que comportamentos aditivos podem ser mantidos por uma maneira desadaptativa de lidar com situações cotidianas de estresse, ou seja, um desequilíbrio entre as exigências do ambiente e os recursos próprios do indivíduo, levando ao uso da substância como tentativa de restabelecer o equilíbrio5.

O fato de estilos de enfrentamento ativo e mais adaptativos também terem sido identificados em amostras de indivíduos abstinentes, em recuperação, pode subsidiar a ideia de que ensinar maneiras de identificar e lidar com situações de alto risco resulta em recaídas menores e menos graves34. Quanto mais situações de alto risco o indivíduo enfrentar e nas quais for bem sucedido, mais sua autoeficácia se desenvolverá e ele estabelecerá um senso realista de confiança na própria capacidade de lidar com momentos adversos, prevenindo a recaída e facilitando o processo de manutenção da abstinência35. De forma semelhante, em um estudo com usuários de heroína, os participantes que estavam abstinentes demonstraram maior repertório de respostas de enfrentamento eficaz em comparação aos participantes que tiveram lapsos ou recaídas36. De fato, a aquisição de habilidades eficazes para manejar eventos estressores cotidianos é fundamental para aprimorar e fortalecer o enfrentamento do indivíduo na abstinência do álcool37.

Nesse sentido, compreender as estratégias de coping enquanto estados que podem predispor os indivíduos ao comportamento aditivo ou, por outro lado, à manutenção da abstinência, torna-se essencial para possibilitar repensar novas formas de intervenção mais eficazes no tratamento do TUS, o que reforça a relevância desta revisão de literatura. Diante da constatada escassez de estudos principalmente nacionais sobre o tema levantado, sugere-se que futuras pesquisas em amostras brasileiras sejam realizadas a fim de investigar a relação dos diferentes estilos de enfrentamento e o abuso de substâncias.

Embora este artigo se trate de uma revisão sistemática da literatura, certamente seus achados não contemplam a totalidade dos estudos já realizados. A vasta terminologia empregada no campo da dependência química e a dificuldade em encontrar descritores precisos para a busca podem ter se configurado com uma das principais limitações desta revisão, seja pelo excesso ou omissão de termos. Da mesma forma, possíveis vieses na metodologia de identificação e seleção dos estudos também podem ter limitado os resultados pela possível exclusão de pesquisas relevantes.

Ainda que as limitações deste estudo impeçam a generalização dos resultados, a presente revisão possibilitou uma visão mais abrangente da relação entre comportamentos aditivos e as estratégias de enfrentamento do estresse, fomentando futuras pesquisas na área. No campo acadêmico da Psicologia, estudos sobre fatores que estejam na base do TUS ainda são insuficientes, o que corrobora a necessidade de mais estudos que investiguem cognições e comportamentos que possam estar na base da etiologia e manutenção do transtorno, a fim de repensar e propor estratégias terapêuticas aliadas.


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a Universidade Federal de Uberlândia, Programa de Atenção ao Dependente Químico/Oficina da Vida (PADEQ) - Diretoria de Qualidade de Vida do Servidor - Uberlândia - MG - Brasil. Universidade Federal de Uberlândia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia / Instituto de Psicologia - Uberlândia - MG - Brasil
b Universidade Federal de Uberlândia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia / Instituto de Psicologia - Uberlândia - MG - Brasil

Correspondência
Isabella Carvalho Oliveira Rocha
Av. Mato Grosso, 3370
38405-314 Uberlândia, MG, Brasil
e-mail: isa_psico56@yahoo.com.br / e-mail alternativo: ederaldo@ufu.br

Submetido em: 07/11/17
Aceito em: 03/10/18

Instituição: Universidade Federal de Uberlândia

* Este artigo é derivado de parte da introdução teórica da dissertação de mestrado em andamento no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Uberlândia. Agradecemos à CAPES pelo financiamento.

 

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