ISSN 1516-8530
ISSN 2318-0404

Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2017; 19(2):29-43



Artigo de Revisão

Habilidades Sociais do terapeuta na formação da aliança psicoterapêutica: estudo de revisão

Social skills of the therapist in the formation of the psychotherapeutic alliance: review study

Raquel Martins Sartori1; Almir Del Prette2; Zilda Aparecida Pereira Del Prette3

Resumo

A importância do vínculo entre terapeuta e cliente para o sucesso do processo tem sido consenso na literatura. No entanto, as características e habilidades do terapeuta que contribuem para esse vínculo não têm sido suficientemente esclarecidas. O presente estudo visou esclarecer as características dos psicoterapeutas favoráveis à formação e à manutenção da aliança, assim como, avaliar habilidades sociais que a literatura situa como parte desses requisitos. Analisou ainda, o papel das instituições formadoras no ensino das habilidades apontadas como indicadoras para a efetividade do processo. Para tanto, efetuou-se uma revisão sistemática de artigos em três bases de dados internacionais, recuperando-se 125 que, sob critérios de inclusão e exclusão, resultaram em 13 textos. A análise buscou converter, em comportamentos relativos às Habilidades Sociais, as referências a características pessoais e técnicas encontradas. A investigação permitiu verificar a importância dessa descrição no planejamento de condições de seu ensino para o processo de formação profissional e o aperfeiçoamento das pesquisas no campo das Habilidades Sociais do terapeuta.

Descritores: Revisão; Psicoterapia; Relações Interpessoais.

Abstract

The importance of the bond between therapist and client for the success of the process has been consensus in the literature. However, the characteristics and abilities of the therapist that contribute to this bond have not been sufficiently clarified. The present study aimed to clarify the characteristics of psychotherapists favorable to the formation and maintenance of the alliance, as well as to evaluate social skills that the literature places as part of these requirements and the role of training institutions in the teaching of the skills indicated as indicators for the effectiveness of the process. A systematic review of articles was carried out in three international databases, retrieving 125 that, under inclusion and exclusion criteria, resulted in 13 texts. The analysis sought to convert, in behaviors related to Social Skills, the references to personal and technical characteristics found. The investigation allowed to verify the importance of this description in the planning of conditions of its teaching for the process of professional formation and the improvement of the researches in the field of the Social Skills of the therapist.

Keywords: Psychotherapy; Interpersonal Relations; Review.

 

 

Ao longo dos mais de cem anos de história da psicoterapia1, diferentes abordagens teóricas lançaram mão de distintos modelos explicativos para o comportamento e as emoções humanas, como também, de variados conjuntos de técnicas e estratégias de intervenção. Castonguay et al3, afirmam que a aliança entre cliente e terapeuta é reconhecida como um componente de mudança durante a psicoterapia, mesmo por abordagens que tradicionalmente não situam a relação entre terapeuta e cliente como foco de análise e intervenção.

Segundo Horvath et al.4, o termo aliança foi proposto na década de 1950 e, em 1967, definido como uma relação estabelecida de forma consciente entre terapeuta e cliente. Posteriormente, na década de 1970, Bordin (1974), como citado em Horvath et al.4 propõe o termo "aliança de trabalho" e sugere que ela depende da colaboração do cliente no processo, bem como, do consenso entre terapeuta e cliente. Para tanto, são destacados três aspectos fundamentais para a formação da aliança de trabalho: a natureza colaborativa da relação, o vínculo afetivo entre terapeuta e cliente e, por fim, o acordo entre terapeuta e cliente sobre objetivos e tarefas terapêuticas.

Horvath et al.4 e Martin et al.5, em estudos de metanálise, ressaltam os subsídios empíricos para estabelecer uma relação entre aliança e resultados terapêuticos. A aliança terapêutica relacionou-se de forma consistente5 e alcançou o status de forte preditor4 dos resultados do processo de psicoterapia. A confirmação da relação entre aliança resultados positivos do processo psicoterapêutico, a partir de dados empíricos, assegura a confiabilidade da relação estabelecida. Frente as evidências sobre a importância da aliança entre terapeuta e o cliente para o alcance de resultados na psicoterapia, identificar os elementos favoráveis à formação da aliança terapêutica é fundamental para o planejamento de um processo psicoterapêutico eficaz.

A busca de sustentação empírica sobre os fatores considerados terapêuticos está em conformidade com o movimento das Práticas Psicológicas Baseadas em Evidências (PPBE). Este movimento caracteriza-se pela busca de evidências que comprovem empiricamente a efetividade das práticas em Psicologia e os mecanismos de mudança, a partir da especificação das condições em que as estratégias terapêuticas devem ser utilizadas e sua articulação com características individuais e culturais dos clientes6. A análise de fatores terapêuticos, tais como, a qualidade da relação terapêutica e as habilidades pessoais e clínicas do terapeuta sobre a efetividade do processo psicoterapêutico é compreendida como investigação de características de processo e compõe fontes de evidências das PPBE7.

Conforme Peuker et al.8 defendem, focar em pesquisas a respeito do estabelecimento da aliança terapêutica pode ser útil para a melhoria da efetividade e eficácia da psicoterapia. Identificar características de processo relacionadas ao terapeuta, tais como competência técnica, experiência clínica e estilo pessoal constitui uma condição para avaliação, desenvolvimento e monitoria de um elemento central na obtenção de resultados e formação de terapeutas potencialmente mais efetivos.

O campo de estudos de Habilidades Sociais (HS), que inclui identificar e promover conjuntos de comportamentos efetivos para o manejo de tarefas sociais9, pode ser promissor como referência para a análise, avaliação e promoção das habilidades consideradas requisitos para o terapeuta no processo psicoterapêutico. As HS são definidas como um conjunto de comportamentos apresentados no manejo de situações e interações sociais, que podem favorecer o desempenho efetivo diante de tarefas sociais9.

As pesquisas vêm indicando que pessoas com bom repertório de HS apresentam relações sociais e profissionais mais produtivas, satisfatórias e duradouras, favorecendo assim a qualidade dessas relações9,10. Conforme Del Prette e Del Prette9, as HS podem ser organizadas em sete conjuntos principais: de comunicação; de civilidade; assertivas, direitos humanos e cidadania; empáticas; de trabalho e de expressão de sentimentos positivos. Esses sete conjuntos agregam habilidades descritas na forma de verbos, ou seja, ações que explicitam de forma precisa os comportamentos que compõem cada conjunto. Diante disso, tal área de estudos pode propiciar a identificação e desenvolvimento de um repertório amplo de habilidades que favorecem o desempenho competente no manejo das tarefas sociais apresentadas no processo psicoterapêutico.

Considerando que a natureza do processo de psicoterapia é uma interação social, a efetividade desse processo requer do profissional um conjunto de habilidades e competências que possibilitem o atendimento às demandas apresentadas pelo cliente. Essas habilidades e competências podem ser entendidas como comportamentos e a identificação dos mesmos possibilita o planejamento da formação profissional em Psicologia, no sentindo de promover e aprimorar as habilidades e competências necessárias para uma atuação eficaz, neste e em outros campos de atuação.

Este artigo relata a análise de uma revisão sistemática que teve como objetivo identificar e caracterizar os comportamentos do terapeuta favoráveis ao estabelecimento de uma aliança terapêutica com o cliente durante o processo de intervenção psicoterapêutica individual com adultos. Além disso, visou avaliar conjuntos de HS apontados pela literatura como parte desses requisitos. Como desdobramento dessas análises, o artigo discute o papel das instituições formadoras sobre o ensino das habilidades relevantes para a formação e a manutenção da aliança terapêutica. O estudo não pretende analisar a validade do construto de aliança, a consistência dos instrumentos de coleta de dados utilizados nas pesquisas, nem tampouco, comparar abordagens teóricas que fundamentam as práticas adotadas e seus efeitos sobre o processo.


MÉTODO

Foi realizada uma revisão sistemática da literatura especializada, tendo como foco estudos relativos às habilidades necessárias aos terapeutas para o desenvolvimento e manutenção da aliança. Considerando o significativo aumento de publicações sobre o assunto a partir do ano 2000, em comparação às décadas anteriores, o presente estudo compilou artigos do período de 2000 a agosto de 2015, nas bases de dados Web of Science, Science Direct e American Psychological Association (PsycARTICLES). As buscas foram feitas a partir do cruzamento do descritor alliance com os descritores "social skill**", "therapeutic skill**", "personal characteristic**", "therapist characteristic**". Os termos foram pesquisados nos seguintes campos das bases de dados: tópico (da Web of Science), abstract, title e keywords (da Science Direct) e keywords (da base de dados da American Psychological Association). Em cada base de dados, foram utilizados os campos de pesquisa que mais geraram resultados. Utilizou-se o operador booleano AND para relacionar os termos. A busca foi realizada em agosto de 2015.

O levantamento foi composto exclusivamente por artigos. Foram pesquisados artigos que apresentassem a relação entre os dois descritores como foco central do artigo. Os critérios de inclusão de artigos neste levantamento foram: (a) publicações nas línguas inglesa, espanhola e portuguesa; (b) artigos que estavam disponíveis para download na íntegra; (c) descritores "social skill**" e "personal characteristic**" relacionados ao terapeuta; (d) referir-se especificamente a psicoterapia individual; (e) o público alvo do artigo ser adulto e sem transtornos específicos. Não foi feita nenhuma restrição ao uso do termo aliança. Foram excluídos artigos que: (a) analisavam grupos específicos; (b) apresentavam objetivo de avaliar programas de desenvolvimento de repertório de habilidades em psicoterapeutas; (c) referiam-se a outros profissionais que não psicólogos; (d) estabeleciam a relação entre a aliança e os outros descritores em uma análise secundária dos dados obtidos; (e) relacionavam-se às HS ou características pessoais dos clientes e não dos terapeutas.

A seleção inicial foi feita pela leitura dos títulos e resumos dos artigos. Nos casos em que o resumo não foi suficiente para avaliar se os critérios de inclusão eram atendidos, o artigo foi lido na íntegra. A Figura 1 sintetiza os passos de busca e seleção dos artigos. Os artigos incluídos na pesquisa foram lidos e os aspectos referentes aos objetivos deste estudo foram analisados. Nos casos em que os artigos apareceram repetidos nas bases dados, eles foram computados em todas as bases em que foram apresentados. Uma análise descritiva dos dados encontrados foi apresentada nos resultados do presente estudo.


Figura 1 - Etapas de seleção dos artigos



RESULTADOS

Dos artigos que atenderam aos critérios de inclusão neste artigo, nove11,14,15,16,17,18,20,23,24 foram referentes a pesquisas empíricas e quatro13,19,21,22 de revisão de literatura, conforme Tabela 1. As pesquisas empíricas utilizadas neste estudo envolveram, em sua maioria, correlação entre instrumentos de autorrelato que mensuravam características, traços ou outras variáveis relativas ao terapeuta a um instrumento que avaliava a aliança entre terapeuta e cliente. Apenas um dos artigos empíricos11 não teve os clientes como respondentes dos instrumentos e contou com avaliadores externos para o seu preenchimento. O instrumento predominantemente utilizado para avaliação da aliança foi o Working Alliance Inventory (WAI), usado em sete dos nove estudos empíricos. Além do WAI, o instrumento Post-Session Questionnaire foi utilizado para avaliação da aliança psicoterapêutica24.




As características dos terapeutas, apresentadas nos artigos, foram divididas em duas categorias: características pessoais e aspectos técnicos relativos à formação e à manutenção da aliança. Os tipos de estudo e os principais resultados referentes às características dos terapeutas favoráveis à formação e à manutenção da aliança são sintetizados na Tabela 1.

Na Tabela 1, são listados os artigos que retratam características dos terapeutas favoráveis à formação da aliança. Nos artigos empíricos, a formação da aliança foi avaliada do ponto de vista dos clientes. Aspectos desfavoráveis à formação da aliança foram apresentados por quatro artigos empíricos, dos quais dois11, 23 descreveram exclusivamente estas características e não foram incluídos na Tabela 1. Os aspectos desfavoráveis à formação da aliança foram descritos em termos de sentimentos negativos do terapeuta em relação ao seu cliente23, contratransferência negativa11, atitude distanciada, desconectado ou indiferente17 ou padrões qualificados por adjetivos como desafiador, controlador e hostil22. Além destes, o artigo de Marmarosh et al.24 é uma pesquisa empírica que analisou o estilo de apego e sua associação com a formação da aliança, porém, não encontrou relação significativa entre as variáveis. Desta forma, este estudo também não foi incluído na Tabela 1.

Considerou-se como características pessoais do terapeuta, os aspectos referidos nos artigos por meio de adjetivos que permitiam inferir um padrão de comportamentos do terapeuta nas relações em geral, assim como, características descritas como traços de personalidade. Combinação de estilos interpessoais (complementaridade) e traços de personalidade congruentes entre terapeutas e clientes foram incluídos na categoria de características pessoais por referirem-se a características do terapeuta que são, por coincidência, compatíveis as características comportamentais de seus clientes. Além disso, a idade foi incluída como uma característica pessoal uma vez que é uma condição da vida do terapeuta e foi analisada quanto à sua relação com a formação da aliança. Deste modo, os elementos incluídos nas características pessoais tratam-se das características do terapeuta que não são exclusivamente dirigidas aos objetivos e ao processo de psicoterapia ou ao cliente, mas que apesar disto, geram implicações para esta relação.

Conforme Tabela 1, os aspectos relacionados a características pessoais dos terapeutas favorecedoras à formação e à manutenção da aliança terapêutica são apontados em termos de traços de personalidade: padrão de interação de "cuidados maternais"17 e "estilo de apego ansioso baixo"15. Dois estudos combinam os traços de personalidade entre terapeutas e clientes como fator que pode favorecer a formação e a manutenção da aliança. Taber et al.16 referem-se a traços de personalidade congruentes entre terapeutas e clientes, enquanto Horvath22 refere-se à complementaridade do estilo interpessoal entre ambos.

Os estudos que descrevem as características pessoais dos terapeutas de forma mais detalhada, e não a partir de um perfil de personalidade, fazem uso de adjetivos para qualificar o padrão de interação do terapeuta com o cliente, tal como Ackerman e Hilsenroth21 que usam adjetivos como "flexível, honesto, respeitoso", por exemplo. Heinonen et al.14 e Holdsworth et al.13, não obstante referirem-se a um repertório de habilidades interpessoais, valem-se também de adjetivos como qualificadores de um padrão (envolvente, por exemplo) ou substantivos (compaixão, tranquilidade, cuidado) e não adotam verbos para expressar comportamentos componentes de um repertório interpessoal.

No que diz respeito a aspectos técnicos de atuação do terapeuta, foram indicadas características ou estratégias diretamente relacionadas ao processo de psicoterapia. Dos sete estudos que apontaram aspectos técnicos, quatro fizeram referência à importância da empatia ou apoio para a construção e manutenção da aliança13, 14, 20, 21, 22, três referiram-se à facilitação de expressão de afeto18, 19, 22 e outros três, exploração de conteúdo ou sentimentos19, 21, 22. Ainda que seja possível inferir um consenso entre os autores sobre a predominante importância de se estabelecer um clima de apoio e afeto para construção da aliança, Heinonen et al.14 afirmam que, em terapias de longa duração, a aliança se deteriora quando estratégias variadas e flexíveis de enfrentamento não são apresentadas. Holdsworth et al.13 citam o confronto como uma importante habilidade para a aliança, quando associada a um elaborado repertório de habilidades interpessoais.

Exceto pela revisão bibliográfica realizada por Hilsenroth e Cromer19, todos os demais estudos referiramse aos aspectos técnicos por meio de adjetivos qualificadores de um padrão comportamental (afirmativo, compreensivo, atento, por exemplo) ou substantivos (exploração, encorajamento, persuasão). O estudo de Hilsenroth e Cromer19, diferentemente dos demais, apresenta um resumo das atividades clínicas do terapeuta relacionadas à formação da aliança terapêutica, em forma de orientações para guiar os psicólogos na avaliação e planejamento da relação. Para tanto, o autor emprega verbos para descrever ações do terapeuta que favorecem a aliança, tais como, esclarecer, explorar, manter o foco e facilitar, por exemplo.

Além do repertório de HS básicas, citado por Heinonen et al.14 e Holdsworth et al.13, oito características pessoais e dez aspectos técnicos diferentes apontados pelas pesquisas guardam relação com os conjuntos de HS propostos por Del Prette e Del Prette9. Deste modo, com o objetivo de realçar essa relação, a Tabela 2 apresenta os possíveis comportamentos que constituem os conjuntos de HS e se relacionam às características pessoais e aspectos técnicos apresentadas pela literatura.




Conforme a Tabela 2 retrata, as características pessoais e aspectos técnicos dos terapeutas, favoráveis à formação e à manutenção da aliança, relacionam-se a quatro conjuntos de HS apresentados por Del Prette e Del Prette9. O conjunto de habilidades mais associado aos dados das pesquisas foi o de comunicação, seguido pelos conjuntos de HS empáticas, assertivas, direito e cidade e de expressão de sentimento positivo.


DISCUSSÃO

A presente pesquisa proporcionou a identificação e caracterização dos comportamentos do terapeuta favoráveis ao estabelecimento de uma aliança terapêutica com o cliente, durante o processo de intervenção psicoterapêutica. Além disso, foi possível analisar os dados apontados pela literatura conforme a perspectiva das HS. Notou-se que as características comportamentais do terapeuta, favoráveis à formação e à manutenção da aliança terapêutica, são apresentadas pela literatura de modo genérico enquanto atributos e, portanto, pouco precisas em termos dos comportamentos esperados. Ainda que se observe aspectos comuns entre os estudos, tais como empatia, facilitação da expressão de afeto e exploração, de modo geral, não há um consenso entre os resultados. Os estudos que se referiram ao valor das habilidades interpessoais usaram o construto sem uma definição explícita das características comportamentais que o constituem.

As características favorecedoras da formação e da manutenção de aliança são apresentadas pelas pesquisas, em sua maioria, por meio do uso de substantivos ou adjetivos qualificadores dos padrões comportamentais do terapeuta, em detrimento de descrições de comportamentos. Kubo e Botomé25, em artigo que discute processos de ensino e aprendizagem, chamam a atenção para os benefícios do uso de verbos para referirem-se a processos que são, fundamentalmente, constituídos por uma interação entre dois organismos, o que é o caso da relação entre terapeuta e cliente. O uso de verbos, como menção às ações da pessoa, favorece a referência a um "processo" e não a "coisas estáticas" ou fixas. Além disso, transformar substantivos e adjetivos em verbos permite analisar as características pessoais em termos comportamentais, e como tal, planejar condições para seu ensino. Tal raciocínio justifica o empreendimento em inferir as ações, ou seja, os verbos referentes às características pessoais e aspectos técnicos favoráveis à formação e à manutenção da aliança, designados pela literatura como traços de personalidade ou adjetivos. Trata-se de converter os substantivos e adjetivos em verbos que os caracterizam.

Uma parte significativa das características descritas pelas pesquisas como favorecedoras da formação de aliança terapêutica guarda forte relação com as categorias de HS, descritas por Del Prette e Del Prette9. Considerando que os conjuntos de HS são descritos por verbos, designando as ações do sujeito, a área de estudos propicia a análise comportamental das habilidades e o arranjo de condições para seu ensino, quando identificados déficits nesse repertório. As características pessoais favorecedoras da formação de aliança, analisadas a partir dos conjuntos de HS descritos, favoreceriam a compreensão comportamental desse repertório e o planejamento do seu ensino nos cursos de graduação. As características descritas aproximam-se das HS, em especial nas categorias HS de expressão de sentimento positivo, de comunicação, assertivas e empáticas.

Os adjetivos e substantivos, amplamente utilizados na descrição dos aspectos favoráveis à formação e à manutenção da aliança, se descritos a partir comportamentos, expressos na forma de verbos, favoreceria maior clareza por parte dos terapeutas do que pode ser feito para promover a aliança. Tratar as características dos terapeutas, favorecedoras da formação da aliança, como traços de personalidade ou atributos inerentes à pessoa, limita o planejamento de condições de ensino das habilidades necessárias durante o processo de formação de terapeutas. Planejar o ensino dessas habilidades nos cursos de formação em Psicologia implica assumir a responsabilidade sobre a qualidade do desempenho dos futuros profissionais.

Heinonen et al.14 discutem que os resultados das pesquisas sobre aliança terapêutica têm implicações práticas bastante importantes para a formação de terapeutas. Se características pessoais são constatadas como fundamentais para a formação da aliança terapêutica, o seu desenvolvimento deveria ser garantido na formação. Se essas características forem analisadas mais como propensão natural do que como produto de treino, habilidades interpessoais básicas poderiam passar a ser requisitos para o ingresso na profissão. Ao adotar uma concepção de que as características pessoais são comportamentos e como tais, passíveis de serem aprendidas e ensinadas, buscar estratégias para o desenvolvimento das identificadas como favorecedoras da formação de aliança terapêutica torna-se uma condição possível e necessária. Aproximar-se da literatura de HS pode ser caminho frutífero neste sentido. A partir de sua proposta de análise operacional de comportamentos, tem-se o sucesso demonstrado dos programas de treinamento de HS para diferentes públicos e objetivos, a exemplo dos estudos sistematizados em Del Prette e Del Prette26, inclusive para públicos universitários. Especificamente com estudantes de Psicologia, programas de Treinamento de Habilidades Sociais (THS) também foram desenvolvidos e indicaram ampliação de repertório de HS em algumas das categorias após o treinamento27,28,29. Este último estudo citado aponta que, ainda que a partir de dados obtidos de forma assistemática, foi possível verificar que os alunos que passaram pelo THS apresentaram melhor desempenho em estágios e outras atividades de formação profissional.

Esse estudo não teve pretensão de ser conclusivo sobre o assunto, entretanto, visa fornecer um panorama geral sobre a área e salientar possíveis relações entre a formação e manutenção da aliança terapêutica e as HS do terapeuta. Todavia, há algumas limitações que devem ser explicitadas, dentre elas, o uso apenas de artigos disponíveis para download na íntegra e o uso exclusivo de buscas em periódicos, excluindo-se teses, dissertações ou outras fontes de materiais sobre o tema. O uso de campos de pesquisa diferentes nas bases de dados para as buscas também representou um limite. Além disso, o estudo restringiu-se à análise de três de bases de dados, não contemplando outras bases com potencial para apresentar artigos importantes sobre o assunto, como a PUBMED, por exemplo. Outra restrição do estudo foi limitar-se à revisão das habilidades necessárias para a formação de aliança terapêutica com adultos, e não com crianças e adolescentes, o que poderia gerar uma maior variabilidade nos dados obtidos.

Na medida em que a presente pesquisa aponta para as características favoráveis à formação da aliança e as descreve operacionalmente, pode colaborar para que profissionais, estagiários e supervisores da área de Psicologia Clínica analisem seu próprio repertório comportamental e invistam no aprimoramento das habilidades associadas ao alcance de resultados positivos na psicoterapia. A partir das pesquisas de identificação das características pessoais relevantes para gerar impactos positivos sobre a aliança terapêutica e, consequentemente, sobre os resultados do processo terapêutico, cabe, por conseguinte, a tarefa de encontrar alternativas e caminhos para seu ensino nos cursos de graduação. Pesquisas adicionais precisam ser realizadas no sentido de analisar as relações teoricamente inferidas no presente artigo. Responder se um repertório elaborado de HS favorece a formação de aliança terapêutica parece ser um primeiro passo para o planejamento e sistematização de seu ensino nos cursos de formação.


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* Indica os trabalhos que compuseram a amostra de estudos analisados para a revisão sistemática










1. Mestre - (Doutoranda do Programa de Psicologia da Universidade Federal de São Carlos - UFSCar / Docente do Centro Universitário de Votuporanga - UNIFEV ) - Votuporanga - SP - Brasil
2. Doutor - (Professor Titular (voluntário) vinculado ao programa de Pós-Graduação em Educação Especial e em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos.)
3. Pós-Doutora - (Professora Titular da Universidade Federal de São Carlos, vinculada aos programas de Pós-Graduação em Educação Especial e de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos)

Correspondência
Raquel Martins Sartori
Rua Canadá, 4420 15502-213
Votuporanga, SP, Brasil
ra_ms10@hotmail.com

Submetido em: 08/05/2017
Aceito em: 25/08/2017

Instituição: Universidade Federal de São Carlos

1 O período faz referência ao modelo de clínica inaugurado por Freud1 que, de acordo com Moreira et al.2, mudou a concepção de clínica ao atribuir ao paciente e não ao médico, o domínio do saber, em uma prática fundamentada na escuta, que influencia o modelo de psicoterapia até os dias atuais.

* Os estudos empíricos foram caracterizados conforme delineamentos e análise de dados propostos por Cozby12.
** Características pessoais ou aspectos técnicos que guardam relação com conjuntos de HS.

 

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