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Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2016; 18(1):55-67



Artigos Originais

Compreensão psicodinâmica do ciclo vital de Daenerys Targaryen, personagem da série Game of Thrones

Psychodynamic understanding of "Daenerys Targaryen's" life cycle, character from the series "Game of Thrones"

Murilo Martini1; Rodrigo Chiavaro da Fonseca2; Henrique Iahnke Garbin3; Ana Margareth Siqueira Bassols4

Resumo

Este artigo analisa os aspectos psicológicos da personagem Daenerys Targaryen, da série Game of thrones, buscando essencialmente avaliar sua evolução cognitiva, social e comportamental, bem como os conflitos vivenciados em seu ciclo vital e os respectivos mecanismos de enfrentamento das adversidades. Por meio da interpretação subjetiva das simbologias metafóricas citadas na narrativa, extrapola-se a leitura literal da obra, com vistas a compreender também as representações da esfera inconsciente da personagem. Daenerys tem infância conturbada pela morte dos pais, pela fuga da cidade natal, pelo exílio e pelos maus-tratos cometidos pelo irmão. Ademais, são-lhe impostos casamento e erotização precoces, eventos que desrespeitam seu tempo de amadurecimento psíquico, desencadeando encurtamento das fases do seu ciclo vital e desestabilização do processo de latência e desenvolvimento puberal. Contudo, as experiências que vivencia no período, tais quais a gestação e a emancipação por que passa, associadas a variantes inatas da sua personalidade - a exemplo do temperamento dócil, inteligência e autoconfiança na capacidade de resolução de vicissitudes -, permitem a expressão de uma figura icônica de resiliência, com ativação de defesas maduras frente a crises vitais ou acidentais. O estudo permitiu discutir aspectos da realidade contemporânea do desenvolvimento humano e proceder à observação de diversos mecanismos de funcionamento psíquico, além da interação entre variantes intrínsecas e extrínsecas moduladoras da expressão de resiliência frente às dificuldades. Este artigo visa a contribuir para o estudo da teoria psicodinâmica e deve interessar a profissionais da medicina e da psicologia.

Descritores: Ciclo vital; Daenerys; Game of thrones; Período de latência (psicologia); Projeção; Resiliência psicológica.

Abstract

This article analyzes the psychological aspects of character Daenerys Targaryen, from Game of Thrones' series, seeking essentially to evaluate her cognitive, social and behavioral evolution, as well as the conflicts experienced to each stage of her life cycle and related adversity coping mechanisms. Through subjective interpretation of metaphoric symbols mentioned in the narrative, the literal reading of the story is extrapolated in order to also comprehend representations of the character's unconscious domain. Daenerys goes through a troubled childhood due to her parents' death, fleeing from her home city, exile and mistreatment committed by her brother. Furthermore, events like marriage and early erotization are imposed to her, which disrespect her psychic development timing, causing shortening of her life cycle's stages, and destabilization of the latency phase process and her pubertal development. Nevertheless, the experiences she goes through in this period, such as pregnancy and emancipation, associated to innate variants of her personality - docile temperament, high cognition and self-confidence in the ability of resolving difficulties -, allow the expression of a resilient iconic figure, with the activation of mature defenses when facing vital or accidental crises. The study allows transpositions to contemporaneous reality of human development and observation of several mechanisms of psychic functions, besides the interaction between intrinsic and extrinsic variants, which modulate the expression of resilience when confronting distress. It contributes to the study of psychodynamic theory and may be of interest to doctors and psychologists, especially those directly involved in psychic development.

Keywords: Life Cycle; Daenerys; Game of Thrones; Latency Period (Psychology); Projection; Psychological resilience.

 

 

INTRODUÇÃO

A história das narrativas ficcionais é tão vasta quanto a quantidade de funções que elas desempenharam ao longo da evolução humana. Sabe-se, entretanto, que, desde o período de transmissão oral até a contemporaneidade, os propósitos do entretenimento e da transmissão de uma mensagem sobre a vida se têm perpetuado. Com o incremento tecnológico dos últimos séculos e a emergência da cinematografia, no entanto, o mercado das artes audiovisuais tem se tornado crescentemente competitivo, e disso resulta uma necessidade constante de renovação dos padrões estilísticos e conceituais envolvidos na construção de personagens cativantes e com potencial para conquistar o público. A arte audiovisual firma, nesse aspecto, uma aliança importante com a psicologia, visando à construção de personagens verossímeis e psicologicamente complexas1.

Daenerys Targaryen, da série Game of thrones2, é um exemplo dessa interação, cuja compreensão contribui para o estudo da teoria psicodinâmica. Seu ciclo vital conta com inúmeros momentos de crises vitais ou acidentais, tais quais a morte dos pais, o exílio e os maus-tratos cometidos por seu irmão ainda durante a infância, além da imposição de um casamento e de erotização precoces, que desrespeitam seu tempo de amadurecimento psíquico. Aspectos inatos da sua personalidade e fatores ambientais, porém, são responsáveis pela resiliência que ela apresenta diante de tais adversidades.

O mundo de Westeros3, no qual se desenvolve a narrativa, propõe trazer, pois, toda a riqueza subjetiva para uma zona de plena visibilidade. No que tange a isso, os autores do artigo compartilham a visão de Sigmund Freud4 de que a esfera consciente da mente humana é análoga à ponta de um iceberg visível da superfície da água, a qual esconde e mantém relações de dependência com toda a estrutura inconsciente que permanece escondida4, cabendo-lhes, portanto, a função transformadora de denunciar os pormenores da esfera inconsciente que se refletem nos diálogos, atitudes e comportamentos da personagem. Sabe-se também que a personagem é fictícia e, portanto, produto de uma mente humana, a qual projeta seus sentimentos e angústias pessoais na narrativa; desse modo, existem incidentes e passagens com representação metafórica e figuras com simbolismo próprio que precisam ser apreciados de maneira subjetiva por meio de abstrações à luz da psicologia humana. Por último, salienta-se que, para fins metodológicos, optou-se por analisar apenas as duas primeiras temporadas da série, junto com os respectivos volumes da saga "As crônicas de gelo e fogo"3, de modo que a variedade de acontecimentos pudesse ser avaliada com maior profundidade. O motivo pelo qual se realizou a análise combinada dos livros e da série é mostrar a complementaridade entre eles na apresentação da personagem: enquanto esta possui rica caracterização da personalidade de Daenerys, aqueles esclarecem especialmente sua idade, elemento essencial para estudo da cronologia das fases de seu ciclo vital. Isso permite também importante reflexão acerca da erotização precoce que ela sofre, a qual, entretanto - possivelmente por busca de enquadramento aos padrões morais e estéticos da televisão -, permanece oculta na série.

O objetivo deste trabalho é, assim, realizar uma apreciação sensível das diferentes etapas do ciclo vital da personagem, perpassando especialmente a adolescência e a maternidade e estabelecendo paralelo com as teorias psicanalíticas existentes. Ademais, são abordados tanto defesas imaturas quanto aspectos variados de resiliência apresentados por ela no enfrentamento de adversidades e, também, um processo de erotização da juventude, o qual, embora descrito em um contexto de ficção medieval, pode ser transposto à realidade atual, pois constitui uma característica predominante da era pós-moderna e uma preocupação iminente como fator desencadeante de psicopatologia. O entendimento da fantasia, constitutiva de identidades e criadora de espaços psíquicos tão reais e potentes quanto a realidade da vida, é, assim, foco primordial desta análise, que propicia ainda discussão em torno da dimensão psicológica do ser humano, de maneira a encorajar condutas éticas e reflexivas de empatia e beneficência, indispensáveis à relação do médico com seu paciente.


CASAMENTO COM KHAL DROGO: UMA VISÃO SOBRE A EROTIZAÇÃO DA JUVENTUDE E A DESESTABILIZAÇÃO DO PROCESSO DE LATÊNCIA

A narração se inicia no momento em que a personagem completou 13 anos, sendo que o leitor somente toma consciência de sua vida passada a partir de recortes e feedbacks. Daenerys é exposta a condições que tornam necessário um amadurecimento precoce e vive os conflitos típicos da ambivalência entre a adolescente e a mulher que existem dentro de si. Embora na série de televisão a idade não seja abordada, o livro deixa claro que ela tem 13 anos ao ser vendida para Drogo, líder de um grupo nômade com quem é obrigada a casarse com vistas a conseguir um exército para o irmão.

Sabe-se que o entendimento da infância é temporal e respeita-se o fato de a saga tratar da época do medievo, em que os casamentos arranjados eram comuns e as jovens mulheres eram expostas a condições atualmente consideradas desrespeitosas. Os autores do trabalho compreendem e admiram o empenho de George Martin em produzir uma obra realista e verossímil e não visam a mover acusações contra a série, nem mesmo a julgar moralmente os atos e comportamentos das personagens, removendo-lhes de seu contexto histórico e sociocultural e cometendo anacronismos típicos. Conhecendo-se, entretanto, as características e a cronologia de cada fase do ciclo vital, almeja-se neste tópico apenas reportar a maneira como foram erigidas exigências externas incompatíveis com a etapa de desenvolvimento psíquico analisada na personagem, considerando aspectos cognitivos, psicossociais e afetivos.

Aos 13 anos, a personagem ainda está, teoricamente, em processo de desenvolvimento puberal, não se encontrando emocionalmente preparada para lidar com as dificuldades e responsabilidades do matrimônio e da maternidade que dela se exigem. Seu funcionamento psicológico apresenta características infantis, tais quais a submissão e a dependência em relação ao irmão Viserys, única figura "paterna" que conhece e provavelmente alvo das suas idealizações edípicas, assim como desconforto, medo e insegurança em relação à prática sexual com Drogo, o que é esperado em um período de transição para a adolescência. É interessante lembrar que tais idealizações edípicas são reforçadas pela cultura do incesto prevalente durante a evolução da dinastia Targaryen, e que, assim, a personagem possivelmente vislumbrasse perpetuar seus genes através de um casamento consanguíneo com Viserys, mais um motivo pelo qual o matrimônio com Drogo irrompe nela necessidade abrupta de abandono das fantasias infantis e de rápida progressão do ciclo vital.

Por esse motivo, pode-se dizer que a transição prematura da personagem à fase adulta, como imposta por Viserys por meio da sua oferenda, consiste em um desrespeito ao tempo necessário de amadurecimento, o que não é saudável. Ainda que o livro trate de uma sociedade medieval, essa referência é válida para os dias atuais, em que, nas famílias, a sensação de aceleração do cotidiano e o aumento da expectativa de vida levaram a um comum encurtamento das fases do ciclo, o qual, mesmo ocorrendo por mecanismos distintos, é igualmente predisponente ao surgimento de psicopatologia.

A filosofia atual do mundo de aceleração da vida e, ao mesmo tempo, de manutenção do estado de vitalidade invadem de modo relevante o desenvolvimento. Assim sendo, as crianças devem crescer com rapidez, e os adultos não podem suportar o processo natural do envelhecimento. Ficam comprometidos os pilares de identificação do processamento da latência. Os pais passam a ser modelos caricatos de jovens para as crianças, e estas, por sua vez, passam a representar um papel igualmente caricato de um pequeno adulto (p. 152)5.

Além disso, a personagem é amplamente erotizada na tentativa de atrair a atenção do Khal e de realizálo sexualmente para garantir maior viabilidade a Viserys cumprir seu plano de reconquista do Trono de Ferro. A feminilidade é imposta coercivamente sobre a garota, que ainda se sente menina, e lhe gera uma experiência sexual claramente traumática, podendo-se comparar os possíveis danos psíquicos àqueles da exploração sexual, que podem variar desde o aparecimento de fobias, atraso escolar e enurese em curto prazo até efeitos crônicos de modificação da personalidade, como sentimento de culpa, depressão, baixa autoestima, timidez, agressividade, medo, embotamento afetivo, isolamento, sexualidade exacerbada6, dificuldade em confiar nos outros, além de alterações de sono, dores abdominais, entre outros.

Também essa realidade guarda relação com mudanças contemporâneas que têm sido estudadas à luz da psicologia, as quais consistem em semelhante erotização da infância e da juventude, que, entretanto, é estimulada por apelos publicitários e midiáticos e se instala de maneira mais sutil e subliminar. Há uma pressão social "em direção a práticas precoces, com frequência superestimuladas pelo culto à sexualidade de nossa cultura"7. O constante acesso da criança à televisão pode colocar em risco seu desenvolvimento emocional, por exemplo, pois, caso seja exposta a conteúdo distorcido, tende a absorvê-lo por identificação projetiva, passando a organizar sua realidade psíquica com base nas imagens que vê mais repetidamente, especialmente nas propagandas. Dessa maneira, a erotização explícita e constante pode se manifestar no momento das brincadeiras e no conceito de realidade que a criança introjeta8, tendo por consequências erotização precoce e desestabilização psíquica ocasionada pela desorganização das etapas do ciclo vital.


ADOLESCÊNCIA E NECESSIDADE DE PERTENCIMENTO AO GRUPO

À época do casamento, são visíveis características psíquicas da adolescência. "O adolescente, do ponto de vista da psicanálise, é um sujeito em vias de transformação, imerso em um processo profundo de revisão de seu mundo interno e de suas heranças infantis, visando à adaptação ao novo corpo, às novas pulsões, decorrentes da puberdade" (p. 128)9.

Targaryen encontra-se em uma fase de descoberta sexual e, a partir da característica idealização do Khal, passa a empenhar-se no aprendizado de práticas sexuais que o pudessem satisfazer. Por meio de experiências homossexuais com suas amas, a jovem adquire um maior contato com seu próprio corpo e com as sensações que percebe em si.

São ainda típicas da juventude as incursões pelo mundo adulto, na busca por autonomia e identidade própria.

O adolescente na família segue o padrão de latência, aceitando o modelo dos pais como o seu modelo de vida, com experiências sexuais mínimas, reproduzindo o esquema familiar que os pais lhe apresentam. O adolescente no mundo adulto seriam as incursões pseudomaduras em que o jovem age "como se" fosse um adulto, sendo que a força motivadora não seria o amadurecimento e a definição de objetivos, mas a entrada rápida e forçada na condição adulta para mostrar aos pais como se é um adulto (p. 146)9.

No caso da garota, órfã, a única figura familiar que assumiu imagem paterna foi a do irmão. É ao longo do conturbado processo de transição criança-adolescente-mulher que a personagem começa a afrontá-lo e a despender grande parte de seu tempo em demonstrações de maturidade e independência, deixando de reproduzir o esquema familiar que aprendera. Exemplo disso é que, embora tenha sido constantemente advertida por Viserys sobre sua condição de "princesa Targaryen", o fenômeno de compartilhamento de experiências com o grupo e as relações de empatia que ela mantém, e que resultam na primeira possibilidade de autoconhecimento, são tão característicos da fase que, por vezes, a personagem diz que "não é uma rainha, é uma Khaleesi" e passa a reconhecer-se e a agir de acordo com a cultura dothraki, renegando temporariamente vários aspectos da cultura Targaryen e entrando em constantes atritos com o irmão. Esse processo de identificação bastante particular no ciclo vital é reconhecido como normal. A variante patológica seria se o adolescente se mantivesse constantemente em seu universo interior e em suas soluções narcísicas e não buscasse socializar suas experiências ou reconhecer-se dentro do grupo9.


TRANSFORMAÇÕES PSÍQUICAS DURANTE A GESTAÇÃO E MECANISMOS DE PROJEÇÃO DA MÃE SOBRE O "GARANHÃO QUE MONTA O MUNDO"

"No início da gestação, surge o sentimento de ter-se tornado finalmente 'mulher'. A gestante está inebriada com a percepção de algo semelhante a poder, capacidade, realização; já não é mais uma menina, mas uma mulher. Assim, no primeiro trimestre, apesar de todos os temores, sente-se plena e orgulhosa" (p. 30)10. É exatamente essa característica que se observa na pequena Khaleesi quando ela engravida de Drogo. Do ponto de vista psicológico, a mulher tem, em todos os períodos de sua vida, manifestações de um instinto de maternidade que permanecem na interface entre os comportamentos inatos e aqueles adquiridos pela convivência social. A personagem, que sofria grande pressão do irmão para que engravidasse, reage à notícia com tremenda felicidade e orgulho, direcionando seu foco no planejamento do futuro do filho. A cultura dothraki reforça esses sentimentos por cultuar e valorizar a mulher pela sua fertilidade. Há uma crença de transferência hereditária de vigor e, por ela ser mulher do Khal, espera-se que gere um "garanhão" que lidere o Khalasar, de modo que a pequena Targaryen, nascida para ser rainha, recebe, agora como Khaleesi, pela primeira vez grande quantidade de atenção e respeito social como sempre sonhou, vivenciando uma experiência única e encorajadora que culminará em transformações psíquicas essenciais.

Também por parte de Drogo é notável um sentimento de conquista quando da descoberta de que será pai. Esse sentimento resulta de uma sensação de triunfo sobre o complexo edípico: o Khal, que já havia se afirmado perante a sociedade e conquistado o respeito de enorme quantidade de guerreiros dothraki, agora se vê vitorioso diante das batalhas internas que travou em estágios prévios de seu ciclo vital, quando, na infância, competia com o pai pelo carinho e atenção da mãe10.

Enxerga-se no casal uma idealização imensa da criança, que é comum no início da gestação, quando os pais ainda estão eufóricos e deslumbrados pela vivência de prazeres idílicos. Há, na saga, relato de um ritual importante em que Daenerys, cumprindo as tradições do local, ingere um coração inteiro de cavalo para nutrir o feto e garantir desde cedo que aquela gestação resultará no nascimento de um guerreiro dothraki forte e ambicioso para liderar o Khalasar. Ademais, ambos os pais referem-se ao bebê como o "Garanhão que Monta o Mundo", edificando uma fantasia de força e poder para sua prole. Essa é uma fase normal da gestação em que "a grávida se sente com 'o rei na barriga'. O bebê pode vir a ser o Messias, o presidente da república, um ídolo, etc." (p. 30)10.

Entretanto, "[...] pessoas que estão insatisfeitas com sua vida, acabam por projetar nos filhos aquilo que, por este ou aquele motivo, não conseguiram alcançar em seus objetivos. Isso é feito sem a mínima consciência, [...] visto que é resultado de desejos reprimidos e que inconscientemente influenciam os pais a tal atitude" (p. 4)11. É o caso de Daenerys, cuja família beira à extinção, tendo nela e no irmão os únicos sobreviventes. Por suas frustrações na reconquista do trono e porque, em Westeros, o poder é condicionado pela hereditariedade, Targaryen cria sobre o feto uma fantasia de perpetuação gênica e de sobrevivência. Por esses motivos, o período de idealização fetal, que se conhece por natural e saudável, torna-se, no caso da Khaleesi, uma etapa difícil de ser superada ou vivida saudável e equilibradamente, visto que ela fica predisposta à ativação de mecanismos obsessivos e de fenômenos potencialmente patogênicos de projeção sobre o bebê, ainda que isso permaneça na sua esfera inconsciente.

Essas fantasias de projeção e perpetuação gênica se dão no sentido de que o feto passa a ser reconhecido como aquele que reconquistará o trono pertencente à sua família. A personagem inclusive o nomeia "Rhaego", em homenagem a seu irmão Rhaegar, herdeiro legítimo do trono, assassinado durante a Rebelião de Robert, sinalizando sua intenção de que ele participe da reconquista dos Sete Reinos e da vingança àqueles que aniquilaram sua família. Durante episódios posteriores, a gravidez continua fortalecendo nela as manifestações de seu id, que deseja vingança e projeta seus sonhos sobre o feto, e ela, persuasiva, enfim convence o Khal a conquistar o trono para presentear o filho.

Já em termos de patogenia, entende-se que a projeção pré-natal de uma criança que nasce com características idealizadas e que cumpre, ao longo de sua vida, os sonhos que permaneceram frustrados na mãe confronta-se com o desconhecimento das reais características físicas, cognitivas e temperamentais da criança que irá nascer, de maneira que o resultado pode ser uma decepção para os pais e uma frustração para a própria criança. "Isso tudo tende a causar a infelicidade dos filhos no futuro, quando se lhes tornar consciente o que realmente os influenciou e quando souberem que aquilo não os realiza, estabelecendo-se uma liberdade que amplia a sua consciência para não viver as projeções dos pais" (p. 5)11.

Por outro lado, registra-se que todo o processo de transformação psicológica resultante do casamento e da gestação, somado ao reconhecimento pelo marido e pela sociedade, faz com que, como se espera de uma gravidez normal, ela se sinta transformada em uma verdadeira mulher e supere, de certa forma, os conflitos da transição das fases do ciclo citados anteriormente. Esse processo lhe confere mais vigor e participa da emancipação sentida em seu comportamento: a jovem, que até então jamais contrariara Viserys, passa a confrontá-lo. O auge dessa transformação se dá quando, após ser agredida fisicamente pelo irmão, em vez de atender às súplicas dele e impedir que Drogo, irritado, derrame ouro derretido na sua cabeça e o mate, reage friamente ao evento declarando que "Ele não era um dragão. O fogo não pode matar um dragão"1, como miticamente estabelecido na época.

A gestação da Khaleesi, no entanto, não é concluída com sucesso, e o filho nasce com deformidades físicas terríveis, falecendo logo após o parto, um desastre na sua vida que vem acompanhado da morte do marido e do abandono de seu exército, situações que lhe impõem condição de extrema tristeza, angústia e luto, porque todos os seus projetos, fantasias e idealizações são abandonados de maneira abrupta. O manejo dos conflitos psicológicos em uma situação como esta e a posterior recuperação da personagem ocorrem por meio de importante ritual de passagem e renovação, no qual ela mergulha no fogo e sai dele ilesa, episódio rico em metáforas que denotam mecanismos de resiliência utilizados no enfrentamento de adversidades.


DAENERYS E A FIGURA DE FÊNIX: RESILIÊNCIA NO ENFRENTAMENTO DE DIFICULDADES E PERSPECTIVAS PSICOTERAPÊUTICAS

Daenerys é conhecida por ser uma personagem em constante processo de reciclagem. Sua vida conta com a imposição de enorme gama de adversidades. Mesmo seu primeiro suspiro traz história de dor e dificuldade, pois a personagem vem ao mundo justamente na época em que seu pai, Rei Aerys II, está perdendo a guerra para a Rebelião de Robert e na iminência de ser destituído do trono. O momento do nascimento se dá em meio a uma tempestade que destruía a frota Targaryen, e a rainha Rhaella morre durante o parto, dando à luz uma criança órfã, episódio que rende à garota o título de "Nascida da Tormenta" e que é provido de enorme simbolismo, servindo de prenúncio para a vida de lutos e reviravoltas que ela vivenciará.

Ao longo da infância, a menina é constantemente perseguida pelas tropas de Robert, que almejam a extinção definitiva da família Targaryen, e permanece exilada, conhecendo apenas a companhia do irmão Viserys, este um guardião cruel, propenso a mudanças repentinas de humor e comportamentos agressivos. Ainda na adolescência, é oferecida para casar-se com Drogo, e, embora sejam claras as manifestações de descontentamento com o casamento arranjado, o irmão reage com frieza e afirma que nada estragaria seus planos de reconquista do Trono de Ferro e que "permitiria que toda a sua tribo a 'fodesse' - todos os 40 mil homens e seus cavalos -, se fosse necessário"2, para conseguir um exército. Ainda aos 13 anos, a garota sofre coerção social para que cumpra suas obrigações matrimoniais, e o Khal, acostumado com os hábitos selvagens do clã, não é empático diante do seu medo e insegurança, praticando sexo de maneira brutal e dolorosa para a moça.

Diante de tantas adversidades e crueldade e da privação do direito a família e amigos que lhe permitam um desenvolvimento normal, a psicologia tradicional esperaria uma criança com enorme quantidade de traumas e desempenho social e cognitivo comprometido. No entanto, Dany, durante o contato com suas amas, aprende a amar Drogo e o conquista, tornando-se esposa dedicada e amorosa. Também é afetuosa e misericordiosa com seus subordinados e inclusive dá liberdade aos escravos que os dothraki planejavam assassinar, adquirindo o título de "Destruidora de Correntes". Essa capacidade de regeneração é provavelmente a particularidade de seu caráter que mais atrai a admiração dos espectadores e que lhe rende uma enorme quantidade de fãs.

O conceito de resiliência tem sido estudado desde 1970 e enquadra-se em uma nova vertente chamada "psicologia positiva", a qual condena a prática histórica de focalização exclusiva das patologias e busca especialmente entender os aspectos "virtuosos" da mente12. Essa inclinação é vista como uma "tentativa de levar os psicólogos contemporâneos a adotarem uma visão mais aberta e apreciativa dos potenciais, das motivações e das capacidades humanas" (p. 216)13.

Estudos realizados com crianças que tinham quatro ou mais fatores de risco para seu desenvolvimento psicológico, educacional e social contaram com inúmeras amostras e em todas elas houve referência de grande percentual amostral que não apresentava distúrbios de aprendizagem ou comportamento, sendo essas crianças as chamadas "resilientes"14. É o que parece ser o caso da Khaleesi, cujo desempenho cognitivo, afetivo ou social se manteve relativamente ileso apesar das dificuldades.

Desde que se iniciaram tais pesquisas, aceita-se a existência de um componente inato de resiliência, o qual é compatível com a personagem, cuja força parece advir em parte dos genes e do próprio sangue, visão reiterada pela constante abordagem da garota como herdeira do trono. Daenerys tem um sentimento constante de confiança de que os obstáculos possam ser superados, principal agente para o coping de indivíduos resilientes13.

Após a morte do filho e do marido, a personagem conta com um ritual de passagem a partir do qual se renova emocionalmente. Ela entra na pira funerária de Drogo, carregando seus três ovos de dragão para dentro do fogo e, no momento em que ele se apaga, reaparece viva e sem machucados, carregando agora três dragões e afirmando que ela, diferentemente do irmão queimado com ouro fundido, é um verdadeiro dragão Targaryen. Essa passagem não pode ser compreendida literalmente à luz da psicologia, porém traz referência metafórica interessante a um elemento hereditário (expresso sob o símbolo do sobrenome Targaryen) de transmissão de vigor, bem como uma provável referência à figura da Fênix.

Fênix é um pássaro que, segundo a mitologia egípcia, autodestrói-se a cada ciclo e renasce de suas próprias cinzas, simbolizando esperança e renovação15. À sua semelhança, no momento em que Khaleesi se coloca sob as chamas e sai delas ilesa, ela, de certa forma, renasce das cinzas e deixa para trás todas as dificuldades, renovando-se na luta por seus anseios, tomando rumos distintos e contando com seguidores também distintos. Essa referência metafórica reforça o entendimento de um componente psicológico intrínseco (um "algo interno") que atua como mecanismo de adaptação, e essa relação entre as figuras de Daenerys e da Fênix se mantém nos episódios seguintes, em que ela sobrevive ao Deserto Vermelho e passa por outras situações de dificuldade, tais quais o assassinato de suas amas e o roubo de seus três dragões, reagindo com igual resiliência na superação dos lutos.

Atualmente se reconhece, porém, que a resiliência não é exclusivamente inata, mas um construto psicológico que resulta da interação dos componentes inatos com os socioambientais, motivo pelo qual se tem abandonado o termo correspondente "invulnerabilidade"14. Embora resiliente, Daenerys permanece responsiva aos abalos ambientais, com desenvolvimento de traumas e obsessões incompatíveis com um conceito utópico de "invulnerabilidade". Diante do desespero de ter perdido seus dragões, por exemplo, a personagem manifesta que "iria à busca de seus filhos" e mantém-se afixada à ideia mesmo após ser contrariada. Esse apego aos dragões ultrapassa o simples título que lhe foi ministrado de "Mãe dos Dragões", pois pode aparecer como mecanismo patológico de compensação pelo filho morto: a personagem, cujas idealizações do período gestacional imaginavam um filho que retomaria o Trono de Ferro, agora objetifica seus afetos e projeta sobre os dragões sua esperança de retomá-lo.

A resiliência, assim, "não pode ser vista como um atributo fixo do indivíduo", pois "se as circunstâncias se alteram, a resiliência se altera" (p. 317)16. A pesquisa anteriormente citada com crianças em situações de risco para sua estabilidade psicológica e cognitiva reforçou o entendimento da influência ambiental na constituição da resiliência ao demonstrar aspectos tanto inatos quanto circunstanciais prevalentes nas crianças resilientes, sendo eles "temperamento das crianças/jovens (percebidos como afetivos e receptivos); melhor desenvolvimento intelectual; maior nível de autoestima; maior grau de autocontrole; famílias menos numerosas e menor incidência de conflitos nas famílias" (p. 78-79)12. No caso de Daenerys, já eram presentes desde o início da série alguns desses elementos (temperamento, autocontrole e desenvolvimento intelectual positivos); porém, ela permanecia de início bastante apática até o momento em que começa a ter sucesso na interação social e conjugal , conquistando também melhora na autoestima, fator ambiental que atua como agente transformador e modula positivamente a expressão de sua resiliência, tornando-a mais capaz de enfrentar dificuldades.

Esse abandono do conceito estático de invulnerabilidade e aceitação de mecanismos ambientais de modulação da resiliência é relativamente recente e propõe uma visão psicodinâmica das respostas individuais, que amplia os horizontes das práticas psicoterápicas, pois abre espaço para que sejam trabalhadas condições externas ao sujeito com impacto potencial no direcionamento para uma resposta saudável na superação de crises vitais e acidentais, com redução dos traumas produzidos.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho expõe a trajetória de Daenerys Targaryen, personagem cujo ciclo vital foi apressado pela imposição de desafios além daqueles esperados para sua idade e pela ocorrência de inúmeras crises acidentais. O processo de adolescência, com compartilhamento de experiências narcísicas, autoconhecimento e maturação sexual, assim como a gestação, a elevação da autoestima, o desejo de emancipação e o reconhecimento de suas virtudes pelo grupo são, porém, agentes transformadores que permitem, associados a fatores inatos, a superação das adversidades e a expressão de uma figura icônica de vigor e resiliência.

A compreensão dos elementos de um ciclo vital saudável, das transformações psíquicas potenciais ao longo das suas fases e dos componentes ambientais moduladores da resiliência abre os horizontes da clínica psicoterápica, especialmente no tratamento de indivíduos que vivenciam traumas e adversidades. Torna-se possível o direcionamento para respostas saudáveis de superação, partindo-se tanto da compreensão e elaboração dos conflitos, da estimulação direta do paciente, quanto ao manejo das condições externas ao sujeito, com criação de situação ambiental favorável à expressão de resiliência.


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1. Faculdade de Medicina (Famed). Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil
2. Faculdade de Medicina (Famed). Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil
3. Faculdade de Medicina (Famed). Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Porto Alegre, RS, Brasil
4. Doutora em Psiquiatria (UFRGS). Professora adjunta, Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal, Famed, UFRGS. Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência, Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Porto Alegre, RS, Brasil

Instituição: Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal. Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência, Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Porto Alegre, RS, Brasil.

Correspondência
Murilo Martini
Rua Vasco da Gama, 1.070, número 301
90420-110 Porto Alegre, RS, Brasil
murilo.martini@ufrgs.br

Submetido em: 05/05/2015
Aceito em: 12/06/2015

 

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