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Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2015; 17(1):69-82



Relatos de Casos

Falso self e gesto espontâneo na psicoterapia psicanalítica de uma criança adotiva

False Self and spontaneous gesture in psychoanalytic psychotherapy of an adopted child

Ana Carolina Freitas Pinéa1; Maíra Bonafé Sei2

Resumo

De acordo com Winnicott, o falso self, apesar de ser uma defesa que oculta e protege o verdadeiro self, traz como consequência uma inibiçao da espontaneidade, da criatividade e do sentimento de existir como si próprio, de ser real. A partir desse tema, o objetivo deste artigo centrou-se na discussao, por meio de um caso de uma criança adotiva atendida em um serviço-escola de Psicologia, da relaçao existente entre o conceito de falso self e a inibiçao do gesto espontâneo e da criatividade no brincar. O presente trabalho configura-se como um estudo qualitativo pautado no referencial da psicanálise winnicottiana, que busca compreender as relaçoes intersubjetivas e os significados e sentidos dos fenômenos abordados. Assim, realizou-se a psicoterapia psicanalítica de uma criança de 7 anos de idade, ao longo de oito meses com sessoes semanais. Por meio do atendimento, pôde-se perceber que, como consequência de um psiquismo que funciona tendo o falso self como "pano de fundo", a criança precisava se utilizar de defesas na hora do brincar para, provavelmente, mascarar sentimentos angustiantes, mal elaborados e ambivalentes relacionados a muitos nao ditos sobre a adoçao e a falhas nos cuidados maternos.

Descritores: Psicoterapia; Psicanálise; Adoçao.

Abstract

According to Winnicott, the false self, despite being a defense that hides and protects the true self, exert as a consequence an inhibition of spontaneity, creativity and sense of existence as oneself, of being real. Based on this theme, the purpose of this article is centered on the discussion, through a case of an adopted child attended in a psychological university clinic, of the relationship between the concept of false self and the inhibition of spontaneous gesture and creativity in play. The present work is organized as a qualitative study guided by the reference of Winnicott's psychoanalysis, which seeks to comprehend the intersubjective relationships and the meanings and senses of the phenomena discussed. Thus, it was held the psychoanalytic psychotherapy of a child of seven years old, over the course of eight months with weekly sessions. Through the attendance, it could be noticed that, as a consequence of a psychism that operates with the false self as "background", the child needed to use the defenses at the time of playing to, probably, mask distressing feelings, poorly elaborated and ambivalent connected to many things left unsaid about the adoption and to the failures in maternal care.

Keywords: Psychotherapy; Psychoanalysis; Adoption.

 

 

INTRODUÇAO

Este trabalho se utilizou da psicanálise winnicottiana como referencial teórico e teve como foco discutir, a partir de um caso de adoçao, a relaçao existente entre o conceito de falso self e a inibiçao do gesto espontâneo e da criatividade no brincar. Por meio da metodologia qualitativa, buscou-se apresentar conceitos psicanalíticos pertinentes ao assunto, tendo como base um caso clínico infantil atendido em um serviço-escola de Psicologia de uma universidade pública.

Participou deste estudo uma criança do sexo feminino, com sete anos de idade, a qual foi atendida em psicoterapia psicanalítica de crianças, com frequência semanal, ao longo de oito meses. Esse tipo de intervençao configura-se como uma adaptaçao do método psicanalítico à linguagem da criança, que faz uso de recursos gráficos e lúdicos para a comunicaçao de conteúdos de seu mundo interno1,2. A psicoterapia foi acompanhada por encontros de orientaçao à mae, com o intuito de contribuir para que esta pudesse organizar-se de maneira a melhor ofertar um ambiente suficientemente bom para a paciente em questao3.

Trata-se de um estudo qualitativo pautado no método de estudo de caso a partir de um referencial psicanalítico4, por assim ser possível um maior aprofundamento da compreensao acerca do tema em questao. Quanto à psicanálise, acredita-se que esta possibilita o empreendimento de um olhar focado na relaçao sujeito-sujeito, nao sujeito-objeto, ou seja, se preocupa em compreender as relaçoes intersubjetivas e os significados/sentidos dos fenômenos estudados sem precisar generalizar os resultados nem buscar constantemente relaçoes causais entre os eventos5.

No que se refere ao tema a ser abordado, considera-se que, atualmente, muitas sao as reflexoes em torno da complexidade do assunto da adoçao, inclusive nos meios midiáticos e jurídicos. De acordo com Krahl, Moreira e Roldo6, "a adoçao implica algumas peculiaridades que devem ser levadas em conta inicialmente e durante o processo de desenvolvimento da criança" (p. 163). Considerando um referencial psicanalítico, deve-se destacar o fato de que

"os pais devem buscar conhecer seus desejos internos de exercer uma funçao parental identificando suas reais possibilidades de se doarem efetivamente a uma criança que possui uma história pré-adotiva e que agora necessita ser cuidada e amada por uma nova família, a qual progressivamente assumirá os papéis e registros dos primeiros cuidadores, tornando-se a provedora de novas significaçoes e ressignificaçoes no psiquismo infantil" (p. 163)6.
Além da importância de se trabalhar as fantasias inconscientes e de se tentar reconhecer o verdadeiro desejo dos pais em relaçao ao filho adotivo, um aspecto essencial no que concerne à escolha pela adoçao refere-se à "capacidade da família de cuidar de uma criança, adaptando-se às necessidades desta ao longo de seu amadurecimento" (p. 52)7.

Se a família, adotiva ou nao, for capaz de criar um lar no qual seus membros sintam-se confiantes e com condiçoes para desenvolver suas potencialidades, ao "adquirir uma realidade psíquica pessoal que lhe permita sentir-se real, sentir que o mundo é real e experimentar a continuidade de sua existência" (p. 51)8, pode-se dizer que tal família está em contato com um ambiente facilitador. É somente tendo essa possibilidade de existência garantida que uma pessoa poderá deixar emergir o que Winnicott9 vai chamar de verdadeiro self e, consequentemente, poderá também dar contorno e vazao ao que ele chamou de gesto espontâneo e de criatividade.

A ocorrência de falhas significativas, por parte dos cuidadores, na adaptaçao a necessidades bastante primitivas do amadurecimento/desenvolvimento acena para consequências quanto ao desenvolvimento emocional. De tal modo, observa-se a importância da construçao de um ambiente favorável já nos primórdios da vida do bebê. Sem esse ambiente pode-se pensar na possibilidade de complicaçoes futuras no que diz respeito a se sentir como existindo "enquanto sujeito singular, a ter experiências, a construir um ego pessoal, a dominar as pulsoes e a enfrentar todas as dificuldades inerentes à vida" (p. 150)6.

Se o que tenderá a se manifestar no funcionamento da vida do sujeito é o falso self, isso implicará, entre outras coisas, na diminuiçao da capacidade de brincar livre, criativa e espontaneamente. Neste sentido, deve-se lembrar que, para Winnicott10, o brincar, tanto em adultos quanto em crianças, nao só é fundamental para a constituiçao da subjetividade e da afetividade como também está diretamente ligado ao que ele considera ser a própria saúde. Além do mais,
"o conceito de falso self proposto por Winnicott é de grande valia para se pensar nos relatos recorrentes de pessoas que procuram análise ao viverem episódios de angústia intensa e esvaziamento do sentido da vida, ao mesmo tempo em que nao encontram, seja em seus relacionamentos afetivos, seja em sua vida profissional, nada que justifique este sentimento de irrealidade e vazio" (p. 50)8.
Retornando à questao da adoçao, Winnicott11 argumenta que "é melhor que uma criança ou seja criada nos primeiros estágios por sua mae biológica [...] ou que os pais adotivos assumam os cuidados o mais cedo possível no período inicial, talvez já nos primeiros dias de vida" (p. 124). A importância do cuidado oferecido pela mae biológica liga-se ao estado de preocupaçao materna primária desenvolvido ao final da gestaçao e que a deixa mais sensível às necessidades do bebê, algo essencial nesses primeiros meses de vida.

De acordo com Winnicott12, possivelmente ninguém oferecerá o ambiente suficientemente bom "melhor que a mae, a nao ser uma mae adotiva aceitável, que se responsabiliza pelo cuidado do bebê desde o início. Mas à mae adotiva geralmente falta a inclinaçao para a maternidade, um estado especial que necessita de um período preparatório inteiro de nove meses" (p. 132)12.

Contudo, nos casos de adoçao, Gomes7 defende que a preocupaçao materna primária pode ser atingida também pela mae adotiva, mesmo que de forma diferente daquela vivenciada pela mae biológica, no caso da existência de algumas condiçoes. A primeira refere-se à própria história pregressa da mae adotiva. A segunda vincula-se ao tempo esperado para que a adoçao se efetue, pensando que, quanto mais tempo esta demora em relaçao ao desejo dos pais em receberam a criança, mais difícil é a entrada da mae no estado de preocupaçao materna primária.

Além dessas características, tem-se o próprio apoio que a mae precisa receber do meio, principalmente nos primeiros meses de cuidados com seu bebê. Winnicott13 alega que a mae "necessita de apoio por esta época, que é melhor dado pelo pai da criança (digamos seu esposo), por sua mae, pela família e pelo ambiente social imediato" (p. 81).

Quanto à importância do papel do pai na dinâmica familiar, Winnicott14 afirma que:
"É o pai ser necessário para dar à mae apoio moral, ser um esteio para a sua autoridade, um ser humano que sustenta a lei e a ordem que a mae implanta na vida da criança. Ele nao precisa estar presente o tempo todo para cumprir essa missao, mas tem de aparecer com bastante frequência para que a criança sinta que o pai é um ser vivo e real" (p. 129).
Todavia, sabe-se que há situaçoes nas quais se tem a separaçao conjugal dos pais. Diante da separaçao de pais adotivos, como no caso de Gabriela, Winnicott11 indica que "a fragmentaçao de uma família adotiva necessariamente seria desastrosa; mas [...] eu nao encontrei nas crianças adotadas assim afetadas maior perturbaçao do que em outras crianças" (p. 136).

Sobre a questao das informaçoes que devem ser dadas à criança adotiva quanto à história de seu nascimento, pode-se afirmar que, na concepçao de Winnicott7, "muitos problemas podem ser evitados se uma criança é informada numa idade bem inicial sobre a adoçao, e, reciprocamente, muitos problemas surgem da demora em dar informaçoes" (p. 131).

Para esse autor7, é importante que as crianças adotadas consigam com os pais adotivos as informaçoes necessárias para sanar suas dúvidas sobre a família biológica e sobre questoes inerentes ao processo de adoçao, como também que esses pais sejam verdadeiramente considerados como pessoas confiáveis em suas vidas. Assim, "outras crianças podem pescar uma coisa aqui e outra ali, e trabalhar com a imaginaçao e o mito; as crianças adotadas precisam receber respostas completas e ser ajudadas a fazer as perguntas certas. Nao é suficiente para elas saber sobre o bebê dentro da mae" (p. 133)7.

Quanto aos motivos para a adoçao e a importância de se entender as fantasias dos pais adotivos, Levinzon15 argumenta que a opçao pela adoçao pode ser decorrente de experiências fracassadas de gerar uma criança diante do desejo de serem pais. Deste modo,
"Renunciam à imagem do filho biológico, que se pareceria com eles, e empreendem sua incursao no mundo da adoçao. Encontramos casais que puderam elaborar de maneira satisfatória sua limitaçao biológica, mas muitas vezes a esterilidade é sentida como uma ferida narcísica, que castra a fantasia de continuidade biológica e imortalidade dos pais. Nestes casos, pode haver sentimentos ambivalentes em relaçao ao filho adotivo, ou até uma hostilidade inconsciente, já que ele representa a lembrança inquestionável da limitaçao dos pais" (p. 25).

A HISTORIA DE GABRIELA

A partir desse panorama, iniciamos a apresentaçao do material clínico advindo da psicoterapia psicanalítica empreendida com uma criança, em um serviço-escola de Psicologia. Ressalta-se que os pacientes vinculados ao serviço em questao, ao se inserirem no espaço, assinam um termo de consentimento no qual apontam o conhecimento de que o material advindo dos atendimentos poderá ser utilizado para fins de estudo e pesquisa. Como forma de proteger a identidade das pessoas envolvidas no atendimento aqui descrito, daremos o nome fictício de Gabriela (7 anos) para a paciente e de Fátima (40 anos) para a mae adotiva. A menina foi adotada quando recém-nascida, com adoçao intermediada por uma terceira pessoa, feita de forma informal e apenas recentemente regularizada.

Fátima contou que nao conheceu a mae biológica da criança e que a menina tem uma irma biológica, adotada por outra família, da qual nao sabe da existência. Além dela, há mais três irmaos mais velhos por parte do pai adotivo, que moram distantes dela, mas se relacionam bem com a criança.

Seus pais adotivos se separaram quando ela tinha apenas 8 meses e a criança ficou sabendo da adoçao quando tinha 5 anos. O pai adotivo mora em uma cidade a mais de 500 km de distância de onde a criança reside. Apesar de nao viverem perto, a filha e o pai mantêm contato frequente: ele telefona semanalmente para a menina e ela costuma passar alguns dias das férias escolares na casa dele. A despeito da boa relaçao mantida entre pai e filha, pensa-se que a separaçao pode ter contribuído para dificuldades no desempenho das funçoes parentais que ficaram a cargo tao somente de Fátima. Como apontado por Winnicott14, o pai deve apoiar a mae e contribuir para a oferta do ambiente suficiente bom necessário ao desenvolvimento saudável.

Na primeira entrevista com a mae, esta descreveu a filha como sendo "muito educada, atenciosa, dócil, meiga, carinhosa e calma", tanto que a leva para o trabalho e diz que é quieta a ponto de os outros funcionários praticamente nem perceberem que há uma criança no escritório. Além disso, Gabriela tem um bom rendimento escolar.

Quando questionada sobre o que a fez procurar o atendimento psicológico para a filha, Fátima disse que gostaria de ter auxílio para saber qual a melhor maneira de se tratar do assunto da adoçao, pois afirmou agir dentro da realidade, mas nao sabe se tem que colocar alguma fantasia nisso. Apesar de, desde os 5 anos, Gabriela saber da adoçao, percebe-se que ainda há muitos nao ditos em sua história e a mae acha que, conforme ela for crescendo, mais questionamentos surgirao. Quando Fátima contou da adoçao, disse a Gabriela que ela era sua "filha do coraçao". Também, de acordo com a mae, a filha nao tem compreensao plena sobre o motivo da separaçao dos pais adotivos.

Fátima também contou que começaram alguns questionamentos por parte da menina, pois perguntava coisas como: "eu venho da barriga da outra mae?", "como eu tava lá?", "você me viu?", "por que minha mae nao me quis?". A resposta foi que a mae biológica nao tinha dinheiro e nem condiçoes de ficar com ela. Fátima relatou que Gabriela também perguntava coisas como: "você me quis?", "você me escolheu?". Frente a isso, a resposta foi a seguinte: "você veio para nós [eu e o seu pai adotivo] e nós te aceitamos do jeitinho que você era" [sic].

A mae relatou que nunca houve cobrança do ex-marido para que ela engravidasse, pois ele já tinha três filhos com outra mulher. Apesar de ficarem casados por 12 anos, só tentaram ter um bebê a partir do quarto ano de casamento. Fátima também explicou que os médicos nunca acharam nada de orgânico nela nem no ex-marido que trouxesse a impossibilidade de gerar um filho. Afirmou que eles alegavam ser a "ansiedade" o que fazia com que ela nao engravidasse. Conta que nunca entendeu isso, pois ansiedade, para ela, era mais parecido com o que uma amiga fazia, pois, segundo o discurso de Fátima, a moça nem tinha ainda engravidado e já saía comprando roupas e brinquedos para o bebê.

Quando questionada sobre a possível esterilidade ligada diretamente a Fátima, pois o ex-marido teve três filhos, ela salienta que "ainda gostaria de ter um filho biológico, ter uma barriga seria especial, faria toda a diferença" e que, apesar de a menina já preencher seu coraçao, ela gostaria, sim, de um dia ainda engravidar se tivesse um parceiro fixo. Fátima, portanto, parece ter dificuldade para viver o luto que nao poder gerar um filho biológico traz consigo. Frente a isso, pode-se pensar também no fato de que, diferentemente de uma mulher que se preparou física, social e psicologicamente na gestaçao por, em média, nove meses, ela, por sua vez, nao teve essa oportunidade.

Outro aspecto relevante é o do papel que a mae tem como ego auxiliar da criança nos primeiros meses de vida. É como se a mae emprestasse seu próprio ego para que a criança vá estruturando o dela progressivamente. Para isso, é necessário que ela se identifique com o filho. Como Gabriela foi adotada, nao se sabe até que ponto essa identificaçao foi falha ou suficientemente adequada, já que a mae diz nunca ter abandonado por completo o desejo de ter um filho biológico. Como exposto na parte introdutória, esta qualidade da identificaçao entre a mae e seu bebê terá repercussoes importantes no desenvolvimento da criança, cujas falhas mostram estreita relaçao com o desenvolvimento do falso self. Assim,
"O falso self ou o verdadeiro self se fundem nas primeiras relaçoes objetais, quando a mae interage com o lactente física e simbolicamente. As alucinaçoes sensoriais do lactente produzem o gesto espontâneo que se efetiva nas reaçoes motoras, dando a ilusao de onipotência para o bebê. Se a mae é inábil e nao percebe as necessidades do seu filho e nao propicia a expressao de sua "onipotência" em gestos espontâneos, isso funda o falso self. Ao contrário, quando o lactente é bem acolhido ele inicia a constituiçao do verdadeiro self e isso vai lhe possibilitar acreditar na realidade externa. É dessa forma que as açoes e reaçoes do bebê, desenvolvidas pela coesao do sistema sensório-motor através da espontaneidade do gesto, vai demandar da mae que lhe cuida identificaçao para com ele, o bebê, a fim de propiciar-lhe o acolhimento adequado para a formaçao do verdadeiro self" (p. 20)16.

CASO CLINICO

No que se refere às sessoes de psicoterapia psicanalítica de criança empreendida com Gabriela, notou-se que a criança falava pouco e, durante um bom tempo, parecia ainda nao entender o que era o setting terapêutico e o que estava fazendo ali; confundia o que podia fazer naquele espaço e tempo com as coisas da escola. Gabriela achava que a mae a tinha levado ao psicólogo para "aprender jogar jogo, pra gente brincar, conversar" [sic].

Fez apenas três desenhos e, sempre que era levada à sala de brinquedos, escolhia jogos já estruturados e ficava muito presa às regras deles. Mostrou-se muito competitiva, nao gostava quando perdia e geralmente nao seguia as regras próprias do jogo, as quais, muitas vezes, ela chegava nao só a burlar como também a criar novas e/ou modificar as que já existiam desde que isso a favorecesse. Quando isso lhe era apontado, costumava negar ou se fazia de desentendida.

Numa das sessoes, trouxe um brinquedo eletrônico chamado "Bop It", o qual dá muitas instruçoes/comandos que a criança tem que seguir. Desse modo, Gabriela se submeteu mais uma vez a obedecer a regras e a ordens externas, o que faz com que a espontaneidade fique sem espaço na brincadeira. Acerca dessa dinâmica, pode-se indicar que:
"O principal aspecto do falso self é a submissao e a imitaçao, pois o bebê constrói um conjunto de relacionamentos falsos. Por meio de introjeçoes, se torna igual à figura dominante externa do momento, como forma de adaptar-se e preencher suas expectativas e obter seu amor. Essa configuraçao gera no observador uma sensaçao de irrealidade e futilidade. No entanto, se torna inevitável para o bebê, pois mostrar o verdadeiro self seria equivalente a aniquilá-lo [...]. Em outras palavras, é "melhor" para a criança manter a organizaçao do falso self do que nao sobreviver às condiçoes anormais do ambiente" (p. 83)17.
A criança parecia ter dificuldade em se deixar conhecer e a confiar na terapeuta. Provavelmente também era difícil confiar nos cuidados da mae, já que esta se atrasava com frequência para as sessoes de psicoterapia, usando sempre o trabalho como justificativa nao só para os atrasos, mas também para quando faltava sem avisar previamente. A dinâmica da terapia ficou comprometida em várias sessoes devido ao pouco tempo que restava com a criança. Assim, diante de uma média de 20 minutos de atraso por sessao, as sessoes inicialmente estabelecidas como tendo sempre 50 minutos passavam a ter entre 25 e 30 minutos de duraçao.

Havia uma compreensao de Fátima de que a responsabilidade de lembrá-la sobre o compromisso da psicoterapia de Gabriela era da própria criança. Indicou tê-la avisado de que: "você tinha que ter lembrado a mamae que era dia de ver a psicóloga. Eu tenho muitas coisas na cabeça, você poderia ter falado para me lembrar, filha". Pensa-se que esse tipo de demanda contribui para um amadurecimento precoce e perturbaçoes na espontaneidade da criança, que deve:
"se adaptar ao ambiente, se preocupar com o que se espera dela, pois este último nao se mostra preparado suficientemente para lhe proporcionar a qualidade de cuidado que necessita. [...] o medo de ser novamente abandonada pode contribuir para que a criança adotiva desenvolva uma parte de si mesma excessivamente artificial, ou desvinculada de sua personalidade nuclear" (p. 23)18.
Entendendo que "a possibilidade de confiar é uma premissa indispensável para uma entrega, para estar com um outro que nao seja ameaçador e nao iniba o próprio gesto" (p. 54)8, pode-se também dizer que Gabriela parecia ter dificuldade para confiar em sua própria capacidade criativa, pois muitas vezes ficava esperando que a terapeuta lhe dissesse o que fazer em vez de buscar recursos internos e externos próprios. Acredita-se que aquilo que Winnicott9 chamou de falso self possa ter a ver com essa dificuldade de criar, de se utilizar de recursos lúdicos e gráficos sem regras repetitivas/mecânicas e de conseguir brincar sem a necessidade de se submeter o tempo todo ao que o outro quer. Cabe apontar que vários sao os graus de falso self existentes, que abrangem desde um comportamento social, sem caráter patológico,
"no sentido da renúncia à onipotência e garantia do convívio social - presente na saúde - até o falso self que se implanta como real, em total submissao, onde o self verdadeiro permanece oculto, o que implica na ausência do que poderíamos chamar de gesto espontâneo. No grau extremo existe um sentimento de vazio, de que a vida nao vale a pena, que nao há razao para viver" (p. 53)8.
Sendo "o meio ambiente facilitador que constrói na criança a possibilidade de acreditar no mundo e em si mesma" (p. 19)16, procurou-se, em algumas sessoes específicas, priorizar atividades nas quais a paciente pudesse se manifestar mais ativamente, pois várias vezes argumentava um nao saber fazer que nao era verdadeiro. Deste modo, para nao ficar apenas nos jogos e tentar buscar a expressao de um gesto mais espontâneo, numa das sessoes foram levados materiais diversos (miçangas, canutilhos, pedrarias, purpurina, pedaços de tecido florido, rendas diversas, fitas de cetim coloridas, novelos de la, palitinhos de madeira/hashis, linha, agulha) para que ela confeccionasse o chaveiro que portava a chave de sua gaveta, a qual somente ela e a terapeuta tinham acesso. No entanto, ela deu a ideia de que fosse feita uma boneca, a qual nunca foi terminada, pois a criança sempre preferia os jogos.

Por meio de atividades como a citada acima, pretendia-se que o setting também fosse visto como um ambiente facilitador e o terapeuta como suficientemente bom, pois, de acordo com Franco19, "brincar e criar sao, sobretudo, um modo de o analista se portar diante de seu paciente, esperando que ele mesmo possa brincar e criar com e através de sua patologia, aprender com ela e a partir dela" (p. 58). Portanto, uma das funçoes do analista seria a de "criar as condiçoes ambientais de adaptaçao e comunicaçao que levem o paciente a poder brincar" (p. 131)20. É isso que Winnicott quer enfatizar quando diz que, em análise, o jogo nao vai aparecer enquanto técnica, mas como algo necessário na direçao de uma possível cura, pois a relaçao analítica necessita da criaçao de um espaço potencial em que paciente e analista tenham a possibilidade de brincar juntos. É assim que o paciente poderá buscar o desenvolvimento de seu self e de sua criatividade, pois, na perspectiva winnicottiana, a brincadeira é a própria saúde10.

Deve-se também destacar que, em uma das sessoes, a criança disse que gostaria de ser médica. Foi perguntado que tipo de médica e oferecidos alguns exemplos: "há médicos que cuidam da pele, médicos que cuidam de crianças, médicos que cuidam dos ossos...". Ela disse que queria ser "médica dessas que tiram os bebês de dentro da barriga das maes". Revelou também que o sonho de sua vida era ter um filho, e complementou: "mas acho que isso ainda vai demorar, né?". Afirmou-se que se achava que sim, já que ela era ainda uma criança. Pode-se especular que talvez Gabriela tenha uma ânsia muito grande de formar sua própria família, de ter também laços biológicos com alguém.

Gabriela tocou no assunto da adoçao apenas uma vez: contou que nao era filha dos pais que a criaram, que havia sido adotada e era "filha de outro pai e de uma outra mulher". Foi perguntado a ela como se sentiu quando ficou sabendo da adoçao e o que ela pensou sobre isso. Ela disse que nao sabia, que nem se lembrava.

Conforme Levinzon18, "a criança adotiva vive em fantasia um dilema: ser 'um bom adotado', ou correr o risco de ser abandonada novamente" (p. 21), com os primeiros se configurando como crianças que "se especializam na tentativa constante de corresponder às expectativas dos pais adotivos, com prejuízo de sua possibilidade de se sentirem reais" (p. 23)18. Isto é:
"o 'bom adotado', aquela criança comportada que se ajusta em demasia ao que se espera dela, aparentemente tranquiliza os pais e a si mesmo com sua forma de organizaçao psíquica. Ele também nao se expoe a todos com questionamentos sobre sua origem biológica, sua história e suas dúvidas" (p. 24)18.

PARTICIPAÇAO DA FAMILIA NO PROCESSO DE PSICOTERAPIA

Como exposto, o pai de Gabriela residia em uma cidade distante daquela na qual a psicoterapia foi empreendida, fato que impossibilitou sua participaçao no processo terapêutico. Entretanto, tinha ciência do atendimento e havia concordado com o mesmo. No que se refere à mae, optou-se pela realizaçao de encontros para a orientaçao desta, como uma via de acolhê-la em suas apreensoes ofertando um espaço de escuta para questoes ligadas ao desempenho das funçoes parentais. Foi também aventada a possibilidade de Fátima ser inscrita na psicoterapia no serviço-escola em questao, algo nao efetivado por ela.

Apesar desses cuidados, nos encontros realizados com a mae, esta parecia nao compreender a natureza do trabalho psicoterapêutico efetuado com sua filha e a importância da presença e pontualidade nas sessoes. Tal fato pareceu reverberar na preocupaçao de Gabriela com a duraçao das sessoes, sempre perguntando as horas ou quanto tempo faltava para acabar o horário.

Na última conversa com a mae, esta afirmou achar que a filha havia amadurecido e disse ter percebido que ela estava crescendo. Contou que, antes, escolhia as roupas da menina, a qual aceitava sem reclamar, mas que isso tinha mudado: a filha é quem estava escolhendo as próprias coisas e nao acatava mais tudo o que a mae falava. Ela também revelou que tal autonomia a assustava, pois a menina estava crescendo, ficando mais independente e, consequentemente, precisando menos da ajuda dela. A mae adotiva trouxe também que Gabriela sempre se mostrava muito interessada no trabalho dela, tanto que às vezes demonstrava preocupaçoes que nao deveria ter, ligadas ao mundo adulto.

No que concerne aos possíveis encaminhamentos para o caso, foi explicada a importância de a criança continuar a psicoterapia numa clínica particular, após a finalizaçao do atendimento com aquela terapeuta, o que aconteceria depois de mais seis sessoes. Tal apontamento deveu-se ao fato de, por um lado, a família ter condiçoes para custear tal tipo de intervençao e, por outro, pela continuidade no serviço-escola de Psicologia implicar na troca anual de terapeuta, aspecto negativo para uma criança que já tem uma história de separaçao devido à adoçao. Com isso, seria mais interessante que a menina tivesse uma continuidade no tratamento para evitar o rompimento do vínculo terapeuta-paciente várias vezes.

Passados alguns dias, a mae enviou uma mensagem informando que já tinha achado outra psicóloga para a criança numa clínica particular, interrompendo, entao, imediatamente o atendimento em andamento. Diante dessa notícia, foi pedido para que a menina fosse levada a mais uma sessao, dada a importância de uma despedida de Gabriela e finalizaçao do processo. Nesse encontro seria possível explicar que aquela dupla terapeuta-paciente nao mais ficaria junta, mas que ela teria outra psicóloga para falar de seus sentimentos e pensamentos. Inicialmente, Fátima concordou em trazer a menina para uma última sessao, mas infelizmente tal encontro nao pôde ser realizado em decorrência de compromissos profissionais assumidos pela mae. Pensa-se que, com esse desfecho, a mae acaba por, indiretamente, apontar para a sobrecarga por ela vivenciada, visto nao contar com a presença do pai ou outros familiares, desempenhando sozinha o papel de cuidadora de Gabriela.


CONSIDERAÇOES FINAIS

Além de a espontaneidade estar ligada à funçao de holding da família e ao sentimento de existência própria, ela também é uma decorrência do self verdadeiro, pois "diante da falha ambiental, o falso self se constitui como uma tentativa de substituiçao da funçao materna que falhou na busca de proteger o verdadeiro self e dar-lhe condiçoes para se desenvolver" (p. 52)8.

No caso de Gabriela, a mae adotiva nao só tinha problemas para oferecer um ambiente suficientemente bom como também parecia apreciar muito o jeito tímido, ajustado, dependente e quase "invisível" que a criança demonstrava e que muito tem a ver com o que Winnicott9 chamou de falso self. Provavelmente a menina já tenha percebido que ser assim é uma das formas de manter o amor e a aprovaçao de uma mae, que necessita dar conta sozinha das atribuiçoes advindas da maternidade, com grande investimento em seu trabalho, fonte de renda para ambas, restando pouco tempo e energia para contemplar as necessidades da filha.

Somado a isso, Fátima parece ainda nao ter elaborado direito sua impossibilidade de engravidar. Crê-se que esse fato pode gerar um sentimento de insuficiência em Gabriela e já "que a primordial demanda do humano é a de ser amado, entendemos como a criança, já nos primórdios da sua existência, toma para si um 'molde' para a expressao de si mesma, objetivando ser aceita" (p. 20)16.

Como proposto pela teoria winnicottiana, falhas no suporte ambiental adequado inibem, em menor ou maior grau, tanto o gesto espontâneo quanto a criatividade no modo de viver. Isso pôde ser observado também no brincar da paciente, lembrando que o brincar, para Winnicott10, estava diretamente relacionado à saúde.

Apesar de os jogos estruturados serem muito procurados no período de latência (a idade da paciente compreende esse período), eles parecem muito mais contribuir para esconder seu verdadeiro eu por trás das regras que ditam o que tem que ser feito. Dessa forma, no que diz respeito ao trabalho com pacientes que demonstram um funcionamento psíquico que tem como cenário o falso self, "o setting se torna mais importante que a interpretaçao. O analista procura fornecer um cuidado suficientemente bom, que permite que o Self Verdadeiro possa ser capaz de se arriscar e se expressar" (p. 27)18.

No que se refere ao lugar da família no processo terapêutico, ressalta-se a importância do trabalho de orientaçao e da psicoterapia com os pais adotivos, que favorecem o melhor conhecimento de suas resistências e fantasias em torno da adoçao, ajudando-os na compreensao e no manejo do ambiente, de forma a melhor oferecer aquilo que o filho realmente necessita. Tanto a orientaçao quanto a psicoterapia da mae foram oferecidas pelo serviço-escola no qual a psicoterapia ocorreu, com a primeira tendo lugar, mas com a última indicaçao nao sendo acatada por Fátima. Uma terceira modalidade que nao pôde ser oferecida refere-se à psicoterapia vincular, na qual mae e filha poderiam trabalhar a relaçao estabelecida entre ambas, indicaçao igualmente pertinente para este caso. Reconhece-se, assim, que o autêntico desejo de cooperaçao dos pais é fundamental para o bom andamento da terapia com a criança. Com isso, pode-se contribuir para que a criança nao precise abdicar de uma parte de si18, mais desempenhando um papel do que podendo ser ela própria, verdadeira e consequentemente espontânea e criativa.


REFERENCIAS

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1. Especialista em Clínica Psicanalítica - UEL. Psicóloga clínica
2. Doutorado em Psicologia Clínica - IP-USP. Professora adjunta - Departamento de Psicologia e Psicanálise - UEL. Londrina, PR, Brasil

Correspondência
Maíra Bonafé Sei
Rodovia Celso Garcia Cid, PR-445 Km 380, Campus Universitário
86057-970 - Londrina/PR Caixa postal: 10011
mairabonafe@gmail.com

Instituiçao: Departamento de Psicologia e Psicanálise, Centro de Ciências Biológicas, Universidade Estadual de Londrina, Londrina, Paraná, Brasil.

Submetido em: 24/09/2014
Aceito em: 22/12/2014

 

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