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Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2012; 14(3):40-49



Artigos Originais

Um estudo sobre atuaçao

A study on acting-out

Liana Souto Corrêa de Mendonça*

Resumo

A autora reflete sobre o conceito de atuaçao, efetuando uma revisao teórica sobre a atuaçao e seus desdobramentos, identificados na clínica. Para tanto, serao utilizadas contribuiçoes de Freud, Etchegoyen, Laplanche e Pontalis, Grinberg, Greenacre, Limentani e Zimerman.

Descritores: Atuaçao (Psicologia); Teoria Psicanalítica; Teoria Freudiana.

Abstract

The author reflects on the concept of acting-out, providing a theoretical review about it and its consequences, identified in the clinic. For this, it will be studied contributions from Freud, Etchegoyen, Laplanche and Pontalis, Grinberg, Greenacre, Limentani, and Zimerman.

Keywords: Acting Out; Psychoanalytic Theory; Freudian Theory

 

 

A atuaçaoa é um comportamento marcado por um ato impulsivo e inconsciente que surge com o intuito de substituir uma angústia que nao consegue ser expressa pela verbalizaçao. Assim, a resoluçao do conflito nao é permeada pela reflexao e pela elaboraçao. A evacuaçao aplaca a angústia. Esse foi o entendimento construído após a pesquisa realizada para a escrita deste trabalho.

O conceito de atuaçao, nos dias de hoje, tem se tornado quase vazio de significado, um jargao banalizado, que, sem um uso restrito, enfraquece os subsídios que a atuaçao pode fornecer sobre o paciente. Fala-se tanto em paciente atuador, em atuaçao na clínica, que cabe a pergunta: o que é, de fato, atuaçao?

O fenômeno designado por atuaçao tem gerado problemas na esfera conceitual, pois nao existe um consenso acerca do que ela seja, efetivamente, e, no âmbito da clínica - em que há um acordo quanto a que sua apariçao é um acontecimento importante no tratamento psicoterápico -, nem sempre é devidamente percebida, sendo, portanto, um grande desafio para o terapeuta.

O presente texto tem como objetivo principal realizar uma revisao teórica sobre o termo "atuaçao" e seus desdobramentos. Para esse fim, o trabalho está dividido em três partes.

Na primeira, será delineada uma definiçao do conceito, tendo como recurso teórico autores como Freud, Etchegoyen, Laplanche e Pontalis, Grinberg, Greenacre, Limentani, Zimerman.

Na segunda parte, a caracterizaçao do conceito é ampliada, assim como seus desdobramentos, chegando à discussao sobre as possibilidades que o entendimento da atuaçao abre no tratamento.

E, por fim, os comentários finais, em que procurarei sistematizar o conhecimento adquirido por meio deste estudo.


1 DEFINIÇAO DE ATUAÇAO

A atuaçao pode ser definida como uma açao impulsiva com o intuito de substituir uma recordaçao, uma verbalizaçao, um pensamento. Quem atua faz isso para nao pensar, nao lembrar, nao verbalizar, nao simbolizar e nao elaborar.

Desde sua origem, a noçao de atuaçao nao atinge uma concordância conceitual. Há indícios, como menciona Etchegoyen2, de que Freud se refere pela primeira vez ao tema em 1901, em "Psicopatologia da vida cotidiana", quando empregou o termo handeln, que significaria um ato-sintoma e que existiria para manter distante da consciência algo que nao pode ser recordado.

Em 1905, no caso Dora, Freud usa outro termo, agieren, que em português é traduzido como "atuar". Dessa forma, o que verdadeiramente importa é que Freud3,4,5 percebe esse comportamento em seu trabalho e Dora o ajuda a compreender a atuaçao, noçao já presente, portanto, nos primeiros escritos da área.

Assim, encontramos no caso Dora, de Freud, uma exemplificaçao de atuaçao, quando Dora, ao invés de falar sobre seus desejos, suas fantasias, seus conflitos, ela os atua perante o seu analista. Em seus escritos, diz Freud4:

[...] ela se vingou de mim como queria vingar-se dele, e me abandonou como se acreditara enganada e abandonada por ele. Assim, atuou uma parte essencial de suas lembranças e fantasias, em vez de reproduzi-las no tratamento (p. 113, vol. VII).


Por conseguinte, Freud percebe que a atuaçao tinha ocorrido no lugar do relato, isto é, tomou a sua funçao. Etchegoyen2 concorda com o entendimento de Freud a respeito da atuaçao de Dora e, ao se referir a esse caso, diz: "ela atuou um fragmento de suas fantasias e recordaçao em vez de reproduzi-lo no tratamento" (p. 391), destacando a expressao "em vez de", porque, para esse autor, aí está a principal característica da atuaçao.

Etchegoyen2 considera a atuaçao capaz de perturbar a tarefa que é, em termos gerais, a aquisiçao do insight. Também afirma que a atuaçao é um ato neurótico; porém, é digno de nota que nem todo ato neurótico é, em si, atuaçao. Esse mesmo autor enfatiza que essa substituiçao da palavra pelo ato pode ser um meio de se expressar ou nao. Isso quer dizer que há uma atuaçao que está a serviço da comunicaçao e, dessa forma, é possível reconhecer a relaçao com o objeto; portanto, esse ato está envolvido no desenvolvimento do tratamento. No entanto, também existe uma atuaçao que nao quer comunicar, mas apenas perpetuar a onipotência, a onisciência e o narcisismo do paciente.

Zimerman13 salienta a importância do fenômeno da atuaçao no processo psicoterápico, pois ele pode reunir, ao mesmo tempo, diversos significados, além de poder ser muito recorrente. Para ele, o fenômeno pode ser definido como: "toda forma de conduta, algo exagerada, que se manifesta como uma maneira única de substituir algum conflito ou angústia, que nao consegue ser lembrada, pensada, conhecida, simbolizada ou verbalizada" (p. 391).

O "Vocabulário de Psicanálise"8, de Laplanche e Pontalis, traz uma contribuiçao a respeito do tema. Na parte referida ao "acting out", aponta:

Termo usado em psicanálise para designar as açoes que apresentam, quase sempre, um caráter impulsivo, relativamente em ruptura com os sistemas de motivaçao habituais do sujeito, relativamente isolável no decurso das suas atividades, e que toma muitas vezes uma forma auto ou hetero-agressiva. Para o psicanalista, o aparecimento do acting out é a marca da emergência do recalcado. Quando aparece no decorrer de uma análise (durante a sessao ou fora dela), o acting out tem de ser compreendido na sua conexao com a transferência, e frequentemente como uma tentativa para ignorá-la radicalmente (p. 6).


A atuaçao no tratamento, no entender dos dois autores, leva o terapeuta a refletir sobre seu conteúdo, ou seja, o que a atuaçao está mostrando do funcionamento do paciente e da transferência para com o terapeuta.

Para Etchegoyen2, toda atuaçao é transferência, mas nem toda transferência é atuaçao. Ele faz uma diferenciaçao interessante entre os dois fenômenos. De acordo com esse autor, na transferência há repetiçao para recordar enquanto na atuaçao a repetiçao busca nao lembrar. Na transferência, há um movimento para o objeto, ao contrário do que acontece na atuaçao, na qual existe uma tentativa de ignorar a transferência, isto é, uma tentativa em negar a relaçao no setting, como salientam Laplanche e Pontalis.

O "atuador" vive no momento da atuaçao o presente, o caráter passado é ignorado, desconhecido, mesmo sendo ele o motivador do comportamento atual. A repetiçao, conforme já dito, é a maneira empregada para nao emergir a recordaçao, o pensamento, a verbalizaçao, a elaboraçao.

De acordo com Freud,5

[...] podemos dizer que o paciente nao recorda coisa alguma do que esqueceu e reprimiu, mas o expressa pela atuaçao ou atua-o. Ele o reproduz nao como lembrança, mas como açao; repete-o, sem, naturalmente, saber que o está repetindo (p. 165, vol. XII).


No artigo intitulado "General Problems of Acting Out", Greenacre6 elege a definiçao de Fenichel (1945) como a que melhor descreve a atuaçao. Assim, diz Greenacre:

Talvez a descriçao mais sistemática da atuaçao foi apresentada por Fenichel, que o definiu como um ato no qual o inconsciente alivia a tensao mental e acarreta descargas parciais de impulsos repelidos (nao importa se esses impulsos expressam diretamente demandas instintivas ou sao reaçoes a demandas instintivas originais, por exemplo, sentimentos de culpa); a presente situaçao, de alguma maneira, conectada com o conteúdo reprimido, é usada como uma ocasiao para descarga de energias reprimidas; a catexia é deslocada das memórias reprimidas para o presente, e o deslocamento torna essa descarga possível (p. 455)b.


Tendo em vista o exposto acima, buscando sistematizar a noçao de atuaçao, entendemos que ela apresenta as seguintes características:

a) Caráter impulsivo;
b) Substitui o pensamento, a recordaçao, a simbolizaçao, a palavra e a elaboraçao;
c) Perturba a tarefa concebida no setting terapêutico; mas pode servir como fonte de conhecimento, uma vez compreendida e interpretada pela dupla;
d) Pode estar a serviço da comunicaçao ou apenas da informaçao, ou, ainda, da nao comunicaçao;
e) Representa o recalcado;
f) Pode ser compreendida como uma forma de transferência, ao mesmo tempo em que pode significar uma tentativa de ignorar a transferência;
g) Alivia a tensao mental;
h) Pode ser um meio para evacuaçao de energia.


Depois de compreender sua definiçao, cabe a pergunta: "De onde vem a atuaçao?" A próxima seçao é dedicada à busca de uma resposta para essa questao.


2 CARACTERIZAÇAO DA ATUAÇAO E SEUS REFLEXOS NO SETTING TERAPEUTICO

2.1 A origem da atuaçao


Etchegoyen2 cita Bion para descrever o que é, para ele, o protótipo de atuaçao:

Bion sustenta que o bebê nasce com uma preconcepçao do seio e, quando se encontra com o próprio seio (realization), constrói-se uma concepçao do seio. O que determinará o primeiro pensamento para Bion é a ausência do seio. Frente a essa emergência decisiva, o bebê tem duas alternativas: tolerar ou evitar a frustraçao (ausência). Se o bebê evitar a frustraçao, transforma o seio ausente em um seio mau presente e expulsa-o como um elemento beta. No entanto, quando é capaz de refrear a açao e tolera a frustraçao, reconhecendo o seio como ausente, constrói seu primeiro pensamento. O ato pelo qual, em vez de pensar o seio bom como ausente, expulsa-o como seio mau presente na forma de elemento beta é, para mim, o protótipo do acting out (p. 403).


Em outras palavras, a atuaçao seria o resultado de experiências nao simbolizadas que buscam o ato como forma de descarga, de alívio de sua tensao. Pode-se visualizar a origem ao pensar numa criança pequena que vive uma experiência bastante angustiante e busca a mae para aliviar sua ansiedade. A mae, ao invés de servir como continente e devolver à criança tal experiência como algo conhecido e tolerável, nao a acolhe e devolve sua angústia de volta, acrescida da frustraçao pela falta do processo continente-contido2,7.

Essa seria uma possível explicaçao para entender o funcionamento daquele paciente que atua com frequência. O aspecto motor substitui o aparelho mental. Ao invés de pensar, age. A pessoa evacua elementos angustiantes quando atua.

Ainda na linguagem de Bion, houve uma falha na funçao alfa; dessa maneira, os elementos beta nao sao convertidos em alfa e precisam ser descarregados. Uma das formas para isso é a atuaçao.

Greenacre6 menciona o estudo de Fenichel ao buscar a gênese da atuaçao: os "atuadores" seriam pessoas com uma fixaçao oral com significativas necessidades narcisistas e intolerância a frustraçoes. Além disso, haveria uma significativa agitaçao motora e experiências traumáticas precoces. A essas características que marcam a tendência à atuaçao, elencadas por Fenichel, Greenacre acrescenta duas mais: "ênfase na sensibilidade visual, acarretando uma inclinaçao à dramatizaçao e uma inconsciente crença na açao mágica" (p. 458). Limentani9 concorda e adiciona que fantasias onipotentes também estao presentes.

As posiçoes de Greenacre6 e Etchegoyen2 têm em comum o fato de que é na mais tenra infância que a inclinaçao à atuaçao se origina. Sem dúvida, ambas as contribuiçoes podem ser complementares a fim de alcançar a atuaçao. Limentani9, igualmente afirma que a atuaçao implica traumas da época pré-verbal do desenvolvimento.

2.2 A dinâmica da atuaçao, segundo Grinberg

Em 1967, no XXV Congresso Internacional de Copenhague, houve um simpósio sobre o papel da atuaçao no tratamento psicanalítico. Um dos relatores desse simpósio foi León Grinberg, que trouxe aos participantes ideias inovadoras a respeito da atuaçao2.

Com essa participaçao, Grinberg se torna um importante autor para compreender o fenômeno de atuaçao. Publica um trabalho em 1968, onde expoe uma dinâmica da atuaçao. Em seu esquema, começa dizendo que os pacientes, ao nao suportarem a dor psíquica decorrente de experiências de perda, atuam. Ele chama a atençao para o principal mecanismo desse fenômeno que é a identificaçao projetiva.

Da mesma forma, afirma que os vínculos sustentados por tais pessoas sao marcados por aspectos narcisistas, originados da relaçao entre o bebê e seus pais, sendo esses últimos incapazes de suportar a angústia da criança, acarretando uma falha no processo continente-contido.

Sobre as defesas utilizadas nos pacientes atuadores, Grinberg destaca os mecanismos maníacos, nos quais se constata uma identificaçao com um objeto idealizado e onipotente; é um tipo de splitting, que separa parte do self que está identificada com tal objeto e outra parte que está adaptada à realidade.

Por fim, Grinberg7 menciona as instâncias:

[...] se poderia dizer que na atuaçao há um domínio do id sobre o ego mediante a intervençao de um superego primitivo que se faz executor das demandas do id, submetendo o ego. Quando a relaçao tirânica é projetada dentro do objeto, por meio da identificaçao projetiva, o superego projetado funciona como um superego parasitário que induz para o objeto a atuaçao (p. 705).


O paciente tem seu funcionamento marcado pela açao, pelo caráter impulsivo, incapaz ou pouco apto para pensar. Aí está sua natureza regressiva, o desenvolvimento do pensar fica comprometido, pois o pensar é trocado pelo ato e pelo nao pensamento.

O estudo de Grinberg7 contribui para a compreensao de pacientes que atuam com frequência, ao explanar sobre pessoas em tratamento que fazem bastante uso da atuaçao:

Nos pacientes atuadores se vê, paradoxalmente, um manejo exitoso da percepçao e da realidade, que lhes permite detectar com precisao o que ocorre nos objetos depositários de suas atuaçoes, em franco contraste com a distorçao da realidade manifestada por outra parte de seu ego. Poder-se-ia dizer que, com elementos do processo secundário, atacam e "transformam" a realidade em elementos do processo primário. A atuaçao seria a dramatizaçao de um sonho, pela qual os pacientes tratam de modificar aloplasticamente o objeto para transformá-lo de autônomo em depositário. Utilizam massivamente a identificaçao projetiva para atacar os limites impostos pela realidade externa e os objetos contidos nela, e os convertem arbitrariamente, como fariam ao construir um sonho, transformando os elementos da realidade (restos diurnos) em elementos do processo primário. Corresponderia à forma em que, no passado infantil, se teria aproveitado a alucinaçao a serviço do princípio do prazer (p. 707).


2.3 Atuaçao e clínica

Nao é raro, ainda mais para terapeutas iniciantes, a dificuldade em manejar o tratamento com pacientes que atuam muito. Igualmente nao é rara a desistência desses pacientes em relaçao ao tratamento, pela dificuldade para refletirem e suportarem ansiedades. Os pacientes podem se sentir mal nas sessoes, como se houvesse piora de seu estado mental.

Esse "sentir-se mal" parece ter correspondência com o que assegura Corvo1 em seu "Diccionario de la obra de Wilfred R. Bion", onde salienta que a sensaçao de claustrofobia, conforme Bion, poderia estar presente em pacientes atuadores. Explica Corvo:

Se a situaçao de atuaçao é trazida à análise, o paciente pode desenvolver sintomas claustrofóbicos. Ainda que Bion nao o explique, poderia se interpretar de acordo com a teoria continente-contido, no sentido de que quando a atuaçao é contida pela análise como um continente e nao é atuada o paciente se sente "preso" (p. 54).


Essa contribuiçao pode auxiliar a compreender o mal-estar sentido pelo paciente, que pode nao "estar" em todas as sessoes marcadas, faltando ou desmarcando-as. Sem dúvida, essa é uma faceta de sua problemática; outros aspectos fazem parte dessa configuraçao, porém, para o objetivo deste trabalho, faz-se uso dessa queixa em pacientes com forte atuaçao.

Dar-se conta de tal funcionamento - da atuaçao - é o primeiro passo do terapeuta. Posteriormente, deve-se compreender o seu surgimento para, entao, poder manejá-lo. Assim, Freud, no início do século XX, demarcava o desafio que a atuaçao promove no setting terapêutico: os conflitos vêm pela açao e nao pela palavra.

Tendo como base Fenichel, Greenacre6 aponta três possibilidades técnicas para lidar com pacientes atuadores. Sao elas: interpretaçao, proibiçao e fortalecimento do ego. O autor sustenta que é imprescindível para o paciente em atuaçao encontrar um objeto externo que seja continente para suas angústias.

A funçao continente do terapeuta acaba por ser semelhante à funçao continente materna. A interpretaçao do psicoterapeuta pode conter as tensoes do paciente e transformar as sensaçoes dolorosas em algo digerível para o paciente11.

Se a atuaçao é vista como uma perturbaçao do processo, de sua tarefa, a interpretaçao pode ser encarada como uma maneira de assegurar "a manutençao e a progressao do processo psicoterápico"10 (p. 155).

Além disso, a interpretaçao e o fortalecimento do ego sao operaçoes que se cruzam, colaborando, assim, para a mudança no funcionamento do paciente que comumente faz uso da atuaçao.

A proibiçao se torna algo bastante difícil, visto que a atuaçao, do modo geral, é egossintônica, fugindo da percepçao e do controle do paciente. Ademais, a proibiçao se torna uma técnica que se desvia das proposiçoes gerais atuais da psicoterapia de orientaçao analítica.

Pode-se dizer, em outras palavras, que o manejo técnico no caso de atuaçoes é, primeiramente, reconhecer a existência desse comportamento na vida do paciente. A seguir, fazê-lo perceber o que aconteceu e como é seu funcionamento, com o objetivo de ampliar seu conhecimento de si mesmo. A medida que o tratamento avança é possível acreditar que a maior integraçao egoica colaborará para que o paciente atue menos, para que as interpretaçoes sejam mais eficientes em seus objetivos e para que a capacidade de pensar ganhe força, chegando a alcançar a elaboraçao.

2.4 Uma vinheta

Um breve caso clínico é descrito a fim de aproximar a teoria da prática. Simone, 40 anos, profissional liberal buscou psicoterapia com sintomas depressivos, após uma breve separaçao conjugal, quando descobriu que tinha sido traída por vários meses pelo marido. O casamento durava dezesseis anos, e o casal tinha três filhas: uma de 14 anos, a segunda de 9 anos e a caçula de 2 anos. Quando iniciou a psicoterapia já havia reatado com o marido.

Por causa da família, Simone adiou sua formaçao profissional, estando há pouco tempo no mercado de trabalho e com uma carga diminuída em funçao da filha caçula, tendo essa também uma babá. Em sua fala isso ficava bastante marcado, o quanto tinha se sacrificado pelas filhas do casal, dedicado ao casamento, deixando-se em último plano.

As sessoes ficaram em volta da sua indignaçao com o marido. Incapaz de confiar nele, perseguia-o, mantinha contato com sua secretária para confirmar o que ele lhe dizia acerca de compromissos do trabalho, além de manter controle da sua conta por e-mail e de seus telefonemas pelo celular, sem que ele soubesse.

Atuaçoes foram frequentes em seus poucos meses (sete) de tratamento. Simone dizia o quanto era doloroso estar no tratamento, o quanto se sentia mal em pensar e afirmava nao sentir alívio de suas angústias. O "alívio" aparecia, segundo ela, em suas atuaçoes constantes. Faltou algumas sessoes, alegando esquecimento ou ocorrências de última hora, o que salientava sua resistência.

Simone pensava obsessivamente no seu marido com sua ex-amante e, sempre que isso lhe vinha à cabeça, agia. Certa vez, pegou seu carro, colocou a filhinha de 2 anos nele e resolveu seguir o marido. Achou que ele estava correndo além do comum, entao concluiu que estava fugindo dela e acelerou, passando a dirigir de forma arriscada. Ficou muito assustada ao relatar na sessao e se dar conta de que tinha colocado sua filha em risco.

Em outro momento, novamente em circunstâncias no trânsito, causou um acidente nao grave, com nenhum ferimento. Nesse episódio, estava com as duas filhas maiores e uma amiga de uma delas. Duas vezes ligou para sua terapeuta aos prantos, solicitando uma sessao; nao havendo sucesso em acalmá-la por telefone, foimarcada uma sessao extra nos dias da ligaçao. Faltando uma hora para a consulta, Simone ligou desmarcando, pois se sentia melhor.

Durante o tratamento, surgiu sua história pregressa, obviamente. Nela, Simone se depara com uma situaçao dolorosa de sua infância: seu pai sumia por alguns dias, envolvido com outras mulheres, e sua mae a pegava pela mao e iam juntas atrás do pai. Ela relata que sempre teve uma ótima relaçao com o pai e uma relaçao ligeiramente amistosa com a mae, ficando claro que era com o pai que mantinha/mantém mais afeto e identificaçao. Simone se recordava de várias vezes em que tinha ouvido os pais transarem e do quanto tinha se sentido mal (provavelmente excluída) em relaçao àquele momento dos pais.

Assim, Simone passa a viver uma situaçao semelhante em sua vida conjugal. Sente-se excluída pelo marido e a amante; repete as açoes da mae, ao mesmo tempo em que, ao fazer isso, consegue nao pensar, nao apenas na traiçao do marido, como em suas experiências infantis, testemunhando a traiçao paterna e a cena primária. Além disso, vinha à baila seu desejo de traiçao, algo que ela nao se permitia enxergar. Era enfática em seu repúdio à traiçao conjugal, o que contrastava com sua admiraçao pelo pai.

As atuaçoes no caso de Simone mostram nao apenas o quanto lhe era impossível pensar e sentir, como denunciam um psiquismo com lacunas de compreensao sobre si e uma falta de capacidade para lidar com seus conflitos de uma maneira mais saudável.

No sétimo mês de tratamento, Simone decide abandonar o tratamento, afirmando estar se sentindo melhor. A terapeuta nao concordou com tal decisao, nao vislumbrando tal melhora. Simone nao conseguiu discutir ou se permitir repensar sua decisao.

Pode-se pensar que o início do tratamento foi motivado pelo seu intenso sofrimento, que lhe fazia chorar seguidamente. No momento em que conseguiu desempenhar melhor suas tarefas, antes impedidas pelo choro, poder-se-ia pensar que entao ocorreriam ressignificaçoes acerca de sua vida, principalmente na área conjugal, porém nao foi isso o que aconteceu. Simone, mobilizada pelo seu passado que se reacende com os acontecimentos atuais, nao consegue contê-los e nao permite que o tratamento o faça.

Igualmente, este caso apresenta as dificuldades que o terapeuta sente ao lidar com um paciente que nao se mostra tao disponível para o tratamento e que produz frequentes atuaçoes.


CONSIDERAÇOES FINAIS

A atuaçao é um fenômeno importante na clínica, nao apenas por sua frequência, também por ser muito elucidativo, pelo desafio imposto ao trabalho do terapeuta. A proposta deste trabalho foi compreender melhor esse comportamento mediante a leitura dos autores selecionados.

A atuaçao nao é apenas um ato impulsivo e inconsciente, pois, além disso, refere-se a um funcionamento ou a um momento de funcionamento regressivo, relacionado a momentos pré-verbais do desenvolvimento.

É um comportamento que se caracteriza pelo nao pensar, tornando-se, assim, um obstáculo para alcançar os fins de um tratamento psicoterápico; todavia, pode sinalizar dores nao integradas, nao vivenciadas do paciente. Por conseguinte, exige que o terapeuta trabalhe com essa dimensao pré-verbal com o intuito de chegar à elaboraçao, à palavra, ao pensamento e à recordaçao ampliada da capacidade mental.

Para esse fim, um dos instrumentos técnicos possíveis é a interpretaçao, que visa fortalecer o ego, inaugurar um psiquismo mais integrado e capaz de lidar com esse funcionamento em que a atividade motora se sobrepoe à atividade mental.

Dessa forma, pacientes que atuam significativamente, que correm o risco de nao aderirem ao tratamento, podem permanecer na psicoterapia e suportar esse processo. Para isso, o terapeuta deve conter as angústias do paciente, compreendê-las e interpretá-las; e o paciente deve ser minimamente capaz de suportar seu sofrimento durante o setting, se deixar tocar pela intervençao do terapeuta, para poder se escutar, se sentir, pensar e se conhecer.


REFERENCIAS

1. Corvo REL. Diccionario de la obra de Wilfred R. Bion. Madrid: Biblioteca Nueva; 2002.

2. Etchegoyen RH. Fundamentos da técnica psicanalítica. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2004.

3. Freud S. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. In: Freud S. Obras completas. Vol. VI. Rio de Janeiro: Imago; 1996. p. 3.

4. Freud S. Fragmento da análise de um caso de histeria. In: Freud S. Obras completas. Vol. VII. Rio de Janeiro: Imago; 1996. p. 15.

5. Freud S. (1901). Recordar, repetir e elaborar (novas recomendaçoes sobre a técnica da psicanálise II). In: Freud S. Obras completas. Vol. XII. Rio de Janeiro: Imago; 1996. p. 161.

6. Greenacre P. General problems of acting out. The Psychoanalytic Quarterly. 1950;19:455-67.

7. Grinberg L. Sobre el acting out en el proceso psicoanalítico. Revista de Psicoanálisis. 1968;3-4:680-713.

8. Laplanche J. Vocabulário da Psicanálise/Laplanche e Pontalis. 4ª ed. Sao Paulo: Martins Fontes; 2001.

9. Limentani A. Una reevaluación del acting out en relación con la elaboración. Revista de Psicoanálisis. 1969;4:41-64.

10. Pires ACJ. A interpretaçao como instrumento de criaçao e manutençao da assimetria necessária ao diálogo terapeuta/paciente. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. 1990;12(3):154-8.

11. Schestatsky S. A funçao-continente da interpretaçao. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. 1990;12(3):148-53.

12. Zimerman D. Fundamentos psicanalíticos. Porto Alegre: Artmed; 1998.










* Psicóloga, Mestre em Ciências Sociais Pelotas, RS - Brasil.

Instituiçao: Centro de Estudos Luis Guedes, Porto Alegre - Brasil.

Correspondência
Liana Mendonça
Rua Quinze de Novembro, 771, Sala 201, Centro
CEP: 96015-000 Pelotas, RS, Brasil

a O termo em inglês "acting out" é traduzido, na língua portuguesa, como "atuaçao". Há uso indiscriminado de ambos os termos, entendidos, claro, como sinônimos. Neste texto, "acting out" é usado sempre em partes onde sao mencionados autores que empregam o termo em inglês.
b Todas as citaçoes de excertos de textos originalmente publicados em língua estrangeira foram traduzidas livremente pela autora para uso exclusivo neste trabalho.

 

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