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Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2021; 23(3):5-8



Editorial

O fenômeno do aumento do consumo de álcool e outras drogas entre as mulheres | Uma chamada de ação para as políticas públicas voltadas para o gênero

Alessandra Diehl; Sabrina Presman; Analice Gigliotti

 

 

O consumo de álcool e outras drogas entre as mulheres é um fenômeno epidemiológico crescente em vários lugares ao redor do mundo. No entanto, apesar da alta relevância destes achados devido aos sérios impactos sociais, financeiros e para a saúde, a temática tanto no Brasil, quanto em outros países ainda não tem recebido a devida atenção de políticas públicas que considerem, sobretudo, a importância do olhar mais aprofundado para a questão de gênero nos transtornos por uso de substâncias (TUS). Particularmente durante a pandemia de COVID-19, vários estudos de diferentes locais do mundo também têm sinalizado o aumento do consumo de álcool entre as mulheres neste período.

Na Austrália, por exemplo, o consumo de álcool durante a pandemia impactou negativamente nas mulheres, mas não de maneira uniforme, pois variou de acordo com a classe social e idade. Mulheres de meia idade e com condição social emergente foram as mais afetadas e, isto, certamente pode ter implicações para políticas públicas em diferentes localidades dentro da ótica da teoria da interseccionalidade, uma vez que múltiplas identidades sociais no nível micro (por exemplo, raça, sexo ou classe social) estão ligadas a desigualdades nos níveis macro e estrutural (por exemplo, racismo, sexismo, misoginia e pobreza). As vivências de uma mulher lésbica branca com alcoolismo podem ser bem diferentes de uma mulher lésbica preta com alcoolismo, por exemplo.

Neste contexto, urge a necessidade de nos anteciparmos às crescentes demandas da dependência química em mulheres e formar profissionais da saúde para estarem mais habilitados para exercerem boas práticas clínicas, baseadas em evidências com intuito de humanizar atendimentos, melhor organizar serviços para elas, com mais especificidade e coerência e, assim, prevenir agravos a saúde de mulheres usuárias de substâncias e suas famílias. Assim como, a necessidade de estruturar abordagens de prevenção primária que alcancem meninas e mulheres jovens dentro de suas vulnerabilidades e especificidades para evitar ou postergar a experimentação de substâncias.

Para se ter dimensão deste fenômeno, no Brasil, por exemplo, 17% das mulheres adultas afirmaram ter bebido uma vez ou mais por semana em 2019. O índice é 4,1 pontos percentuais maior do que era em 2013 (12,9%) segundo dados do programa nacional de saúde (PNS) de 2019 (Pesquisa Nacional de Saúde, 2019). Os Levantamentos Nacionais de Álcool e outras Drogas (LENAD II e II de 2006 e 2012) já sinalizavam um aumento mais significativo do consumo de álcool entre as mulheres, que foi de 29% em 2006 para 39% em 2012. Nestes mesmos levantamentos, procurou-se identificar o beber em "binge" que é considerado um indicador de beber nocivo, onde o indivíduo ingere grandes quantidades de álcool (4 unidades de álcool para mulheres e 5 unidades para homens) em um período curto de tempo (2 horas).

Observamos que entre 2006 a 2012 houve um aumento significativo desta forma de consumo com um aumento maior observado no sexo feminino, de 36% para 49%. Nos Estados Unidos da América (EUA), os dados do National Survey on Drug Use and Health (NSDUH) de 2019 mostram que duas em cada 5 mulheres fazem uso de drogas ilícitas e três em cada quatro mulheres fazem uso de álcool. O uso de opioides nos EUA continua a ser de caráter epidêmico e um fato que tem chamado a atenção das autoridades naquele país é que este consumo tem aumentado em mulheres e, sobretudo, as mortes por overdose em mulheres têm chamado a atenção. Entre 1999 a 2017 houve um aumento de 260%.

Outro fenômeno epidemiológico não menos importante de ser observado é o aumento de consumo de Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) em mulheres jovens. Dados do Behavioral Risk Factor Surveillance System 2016-2017, com uma amostra composta por 131.965 mulheres em idade fértil (18 a 44 anos) mostra que entre as mulheres em idade fértil, 2,79% eram usuárias correntes de cigarros eletrônicos com ou sem histórico de tabagismo e 3,02% eram usuárias tanto dos chamados cigarros convencionais quanto dos cigarros eletrônicos. Este aumento do consumo de DEFs em mulheres não é por acaso, uma vez que tem havido um investimento importante da indústria do tabaco no marketing dirigido a elas.

Milhões de meninas e mulheres foram atraídas para o tabagismo por uma indústria tabaqueira que tem visado clara e sistematicamente mulheres de todas as idades e circunstâncias de vida. Estratégias semelhantes vêm sendo utilizadas para cativar mulheres jovens a consumir os DEFs, principalmente, através das chamadas influencers digitais que se exibem utilizando os DEFs em plataformas como instagram e Tik Tok. As estratégias de marketing do tabaco vinculam habitualmente o uso do cigarro aos valores femininos típicos. Algo semelhante já ocorre há algum tempo com as estratégias de marketing da indústria do álcool visando novas consumidoras infantojuvenis com menssagens de "sensualidade, epoderamento, beleza e liberdade", apenas para citar alguns exemplos.

O consumo de substâncias em mulheres é uma temática que tem interfaces importantes com outras áreas do saber, como a pediatria, a ginecologia, a psicologia, o direito, a educação, nutrição e o serviço social dado as especificidades e as complexidades que envolvem a linha de cuidados deste público. Muitos profissionais destas áreas atendem mulheres com problemas pelo consumo de álcool e outras drogas, mas sentem imensa dificuldade para manejar as diversas questões envolvidas neste cenário. As dificuldades se avolumam devido ao baixo treinamento durante a graduação e a falta de material didático-pedagógico no nosso idioma para buscar informações confiáveis.

Além disso, o "gênero" parece ser ainda incorporado de forma polêmica no cotidiano dos serviços e tem sido motivo de muitas contendas políticas por questões obscurantistas em algumas sociedades ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Mesmo que os discursos indiquem padrões diferenciados de uso de substâncias como o álcool e o crack, por exemplo, entre homens e mulheres, assim como, o tipo, a qualidade de acesso, a necessidade de uso de serviços psicossociais e na forma de obtenção da droga, mulheres continuam a ser altamente estigmatizadas e, muitas vezes, "criminalizadas" devido à sua capacidade reprodutiva. Estas observações indicam que o preconceito ainda é brutal.

Daí também a necessidade de se criar e ampliar espaços de trocas e cuidados com mais acolhimento, menos preconceito e mais sororidade para as mulheres usuárias de substâncias. O tratamento para os TUS eficaz deve incorporar abordagens que reconheçam as diferenças entre sexo e gênero, compreender os tipos de traumas, as violências e vitmizações que as mulheres muitas vezes enfrentam, fornecer suporte adicional para mulheres com necessidades de cuidados à sua prole e usar abordagens baseadas em evidências para o tratamento de mulheres grávidas e que irão amamentar.

Todos estes argumentos parecem justificar a importância de se entender o estigma social e as diferenças do tratamento entre homens e mulheres dependentes de substâncias. Os problemas de abuso de álcool e outras drogas relacionados ao gênero estão não apenas nas diferenças biológicas, mas também relacionados a fatores sociais, culturais e ambientais, os quais podem influenciar a apresentação clínica, as consequências do uso e as abordagens de tratamento, a prevenção e as políticas públicas voltadas as especificidades de mulheres. Trata-se de uma chamada para ações bem planejadas no contexto de saúde pública que considerem, sobretudo, as questões relativas ao gênero.

Portanto, os achados sugerem que o monitoramento contínuo, especialmente entre as mulheres, deve ser conduzido conforme esta pandemia continuar a evoluir a fim de identificar os impactos de longo prazo na saúde pública do consumo de álcool e outras substâncias em mulheres para lidar com o sofrimento da pandemia. As redes de apoio às mulheres em situação de violência deveriam ser ampliadas neste contexto pandêmico, com ênfase no uso de tecnologias digitais como possíveis ferramentas para o rastreamento dos casos de violência relacionados à pandemia. A prestação de serviços de telepsicologia /telemedicina dentro de um programa integrado para mulheres com dependência química é crucial durante a pandemia de COVID-19. Continuar a ter opções criativas disponíveis requer adaptações às necessidades das mulheres com TUS, pois não há como não reconhecer que após a pandemia de COVID-19 nossos desafios são imensos e que mais do que nunca a ciência, as boas práticas clínicas, a ética, a compaixão e a rede em coletividade são alguns dos nossos alicerces para o contínuo crescimento em humanidade e melhorias da saúde pública.










REFERÊNCIAS

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Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)

Autor correspondente

Alessandra Diehl
alediehl@terra.com.br

 

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